No Democracia no Ar, Katarina Brazil abre a semana do 8 de Março analisando violência política de gênero, misoginia e os desafios da participação feminina no Brasil
O programa Democracia no Ar desta segunda-feira (02/03), apresentado por Sara Goes e com comentários de Sandra Helena, recebeu a advogada Katarina Brazil para abrir a semana que antecede o Dia Internacional da Mulher – 8 de Março. A edição marcou o início de uma programação dedicada à pauta feminista, com foco em direitos, democracia e os obstáculos enfrentados pelas mulheres na sociedade brasileira.
Logo na abertura, ao comentar o ataque a uma escola de meninas no Irã, Sandra Helena sintetizou o simbolismo político da barbárie:
“A morte das meninas é a morte do ventre, é a morte do nascimento, é a morte do futuro daquela cultura.”
Para ela, o episódio não é um fato isolado, mas parte de uma lógica de supremacismo branco, patriarcal e religioso que estrutura relações de poder no mundo contemporâneo.
Violência, poder e democracia: a luta das mulheres nunca esteve dissociada
Katarina Brazil, advogada especialista em Direito das Mulheres, mestre em Direito Constitucional e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), afirmou que a violência contra meninas e mulheres não pode ser separada das disputas democráticas.
“Nossa luta sempre esteve muito atrelada a esses conflitos de democracia.”
Segundo ela, quando mulheres e meninas se tornam alvo prioritário de ataques, o recado é claro: trata-se de tentativa de aniquilar sujeitos políticos e sociais. A violência não é apenas física, mas simbólica e estrutural.
A advogada lembrou que o Brasil atravessa uma escalada preocupante de feminicídios e outras formas de agressão, como estupros coletivos, espancamentos e violência doméstica. Para ela, essa realidade revela que o país ainda está longe de enfrentar a misoginia como problema central.
“A gente vive num espaço público onde as pessoas ainda têm muita dificuldade de criminalizar a misoginia.”
Katarina destacou que, embora o feminicídio esteja tipificado como crime e existam instrumentos como a Lei Maria da Penha, a misoginia enquanto prática ideológica e discursiva ainda não é reconhecida penalmente. Para ela, isso revela o descaso estrutural com a vida das mulheres.
Congresso masculino, consenso patriarcal e sub-representação feminina
Ao abordar a participação das mulheres na política, Katarina foi direta ao relacionar violência de gênero e baixa representatividade.
“Não dá para pensar a participação das mulheres na política sem pensar as questões de poder.”
Ela lembrou que, embora exista a previsão legal de 30% de candidaturas femininas, o Brasil não alcança sequer 20% de representação efetiva feminina no Congresso. Para a advogada, o problema não é apenas numérico, mas estrutural.
“Os homens dominam as pautas que são importantes. Eles vão dizer o que de fato é importante.”
Mesmo com a existência de bancadas femininas e espaços formais dentro das casas legislativas, decisões estratégicas seguem concentradas nos colégios de líderes, onde o consenso costuma refletir a lógica do mais forte — historicamente masculina.
Katarina também denunciou a prática de candidaturas laranja, que expõe o quanto o sistema partidário ainda instrumentaliza mulheres para cumprir formalidades legais, sem garantir protagonismo real.
“Você imagina falar de mulheres na política e ter que entender que há mulheres que não sabem nem que são candidatas.”
Feminicídio como reação ao avanço feminino
Sandra Helena trouxe um ponto central do debate ao afirmar que a epidemia de feminicídios não pode ser analisada apenas como retrocesso, mas também como reação violenta ao avanço feminino.
Segundo ela, muitas mortes atuais não decorrem mais de justificativas como “crime de honra”, mas da recusa masculina em aceitar a autonomia feminina.
“A maior parte das mortes se dá porque as mulheres simplesmente não querem mais a relação.”
Para Sandra, o aumento de mulheres que rompem relações abusivas está ligado à existência de alguma rede institucional de proteção e autonomia econômica. A reação de parte dos homens, educados sob lógica de posse, é a violência extrema.
Ela alertou ainda que setores conservadores podem instrumentalizar os números de feminicídio contra os próprios governos que ampliaram direitos das mulheres, numa estratégia política de desinformação.
Mulheres conservadoras e o patriarcado performático
O debate também abordou a presença de mulheres conservadoras que defendem agendas contrárias à emancipação feminina. Sandra destacou que essas figuras não agem por ingenuidade, mas por convicção ideológica profunda.
Para ela, trata-se de um “patriarcado performático”, no qual mulheres assumem papel ativo na manutenção de estruturas de poder masculinas.
Katarina complementou afirmando que os conflitos entre mulheres no campo político também atravessam as pautas femininas, dificultando articulações estratégicas dentro dos parlamentos.
“A gente vê muito conflito velado também entre as próprias mulheres, o que dificulta uma atuação em bancada.”
Cultura do estupro, juventude e responsabilidade masculina
Outro ponto levantado foi a influência das redes sociais e da cultura digital na formação de jovens. O crescimento de movimentos masculinistas e de comunidades misóginas online foi citado como fator que amplia a cultura do estupro e normaliza violências.
Sandra Helena defendeu que o debate não pode ficar restrito às mulheres:
“Está na hora de chamar os homens para essa luta.”
Para ela, se os homens são majoritariamente os agressores, precisam também assumir responsabilidade ativa na transformação cultural. A ausência de diálogo com meninos e jovens sobre masculinidade contribui para a reprodução da violência.
A obra e a pesquisa: mulheres e democracia intrapartidária
No encerramento, Katarina apresentou sua obra “Mulheres na política brasileira: gênero e democracia intrapartidária”, publicada pela editora Lumen Juris e disponível na Amazon.
O livro resulta de entrevistas e análises sobre os dilemas da representação feminina dentro dos partidos políticos, abordando desde barreiras estruturais até percepções de mulheres que veem os partidos como ambientes hostis.
“Os partidos ainda são vistos por muitas mulheres como um ‘jogo sujo’.”
A autora defendeu que compreender as engrenagens internas dos partidos é fundamental para ampliar a presença feminina nos espaços de poder.
8 de Março: luta, memória e reconstrução
Em uma segunda-feira descrita como “apocalíptica” pelas participantes, o programa terminou com uma mensagem de resistência.
Katarina reforçou que o 8 de Março não pode ser apenas comemorativo, mas reflexivo e mobilizador:
“A gente precisa cada vez mais estar debatendo, ocupando esses espaços, levando nossas ideias.”
Sandra Helena resumiu o sentimento do encontro:
“Estou saindo do programa melhor do que eu entrei.”
Num cenário de guerra, misoginia estrutural e disputas democráticas intensas, o Democracia no Ar reafirmou que a luta feminista é inseparável da defesa da democracia.
📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
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