No Bancos da Democracia, Sara Goes reúne governo, universidade e Rede de Bancos Comunitários para defender marco regulatório das moedas sociais e fortalecer finanças solidárias no ano eleitoral
O ano de 2026 começou com um aviso direto e sem rodeios no Bancos da Democracia, programa da Rádio e TV Atitude Popular. Ao discutir os caminhos da economia solidária e o papel dos bancos comunitários na construção de desenvolvimento local, Joaquim Melo, presidente da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, sintetizou o espírito do debate:
“2026 vai ser decisivo.”
A edição, apresentada por Sara Goes, abriu a temporada de diálogos com o tema “Bancos Comunitários de Desenvolvimento: perspectivas para 2026”, reunindo Francisco de Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), Ariadne Rigo (UFBA) e o próprio Joaquim Melo, em uma conversa que combinou balanço de 2025, prioridades legislativas e estratégia política para um ano marcado por eleições e disputa de rumos no país. A discussão foi baseada no conteúdo exibido no programa Bancos da Democracia, da TV Atitude Popular, conforme a transcrição disponibilizada.
“A bola tá na marca do pênalti”: o PL das moedas sociais como prioridade
Joaquim Melo defendeu que 2026 não é apenas mais um ano de agendas e eventos. Para ele, é o momento em que a economia solidária precisa transformar acúmulo em resultado institucional, com prioridade absoluta para o PL 4.476, que trata do marco regulatório das moedas sociais.
“Esse é o ano que a gente não pode falhar… nós colocamos a bola ali como fosse um pênalti… a gente vai ter que fazer o gol.”
Segundo Joaquim, o projeto está “prontinho” e em condição de avançar, mas exige pressão política e articulação com o governo e o Congresso. O objetivo é garantir segurança jurídica para bancos comunitários e moedas sociais, evitando que experiências construídas na base sejam empurradas para a lógica do sistema financeiro tradicional.
“Ou a gente aprova o PL 4.476… ou nós podemos estar numa profunda crise por causa do marco regulatório.”
Bancos comunitários na ponta e um sistema “outro”: a disputa contra o enquadramento bancário
No centro do debate esteve uma tensão recorrente: de um lado, a experiência concreta de finanças solidárias nos territórios; de outro, a tendência do sistema financeiro de regular o que não compreende a partir de parâmetros do mercado.
Joaquim lembrou que o Brasil reúne uma rede ampla de bancos comunitários e moedas sociais, com atuação voltada a circular dinheiro na economia real e apoiar pequenos negócios, produção local e consumo de proximidade.
“O Brasil é o país do mundo… que tem uma rede de 182 bancos comunitários… recuperando o uso produtivo do dinheiro… e não na especulação.”
Ele explicou que, sem uma lei própria, moedas e bancos comunitários correm o risco de serem empurrados para dentro da estrutura bancária tradicional, com aumento de custos e perda de autonomia.
“Vocês não têm uma lei própria… têm que ir para dentro do sistema financeiro tradicional… isso encarece enormemente… e os bancos comunitários viraram quase que um puxadinho dos bancos tradicionais.”
O marco regulatório, defendeu, serviria também como proteção contra oportunistas: a lei ajudaria a diferenciar o que é tecnologia social comunitária do que é produto financeiro travestido de “moeda social”.
“Quando os caras fazem cagadas… o Banco Central fecha o sistema… pega todo mundo… por isso a nossa lei é fundamental.”
Governo e articulação: “A ponte é para ser usada”
Francisco de Oliveira detalhou sua mudança para a Secretaria-Geral da Presidência como chefe da assessoria especial de economia solidária e se definiu como elo direto para fortalecer o diálogo entre Estado e territórios. Afirmou que aceitou o cargo com uma condição: atuar como ponte real com o campo da economia popular e solidária.
“Só aceitei nessa condição de que fosse de fato uma ponte com a economia solidária… a ponte é para ser usada mesmo.”
Ele também criticou o caráter “pretensamente regulado” do sistema financeiro, citando que crises produzidas por grandes agentes acabam provocando respostas regulatórias que atingem quem atua na base.
“O sistema financeiro brasileiro é muito regulado… pretensamente regulado… e vai ser mais regulado ainda sobre experiências que fogem da sua compreensão.”
Ao apontar exemplos de resiliência durante a pandemia, Francisco citou Maricá como caso emblemático de como bancos e moedas locais podem sustentar economias em momentos de crise.
“A gente conseguiu ter… experiências… com esse sistema de finanças solidária funcionando… um exemplo muito claro foi Maricá.”
Universidade e pesquisa engajada: Observatório das finanças solidárias
Ariadne Rigo fez a defesa do papel das universidades como parceiras de políticas públicas, destacando o que chamou de pesquisa “engajada” e a necessidade de mapear e compreender o campo para sustentar qualquer sistema nacional.
Ela apresentou a criação do Observatório das Finanças Solidárias, iniciativa ligada à UFBA, com o objetivo de realizar levantamentos e manter um mapa atualizado de bancos comunitários, moedas sociais e fundos rotativos.
“O observatório… se propõe a tentar fazer esse levantamento… manter um mapa dessas experiências.”
Para ela, o desafio não é só técnico: é político e conceitual. Não se pode aplicar a lógica de um sistema financeiro voltado a escala e rentismo sobre organizações que têm identidade territorial, compromisso comunitário e objetivos de desenvolvimento local.
“Não dá para comparar… nem colocar no mesmo propósito… são propostas diferentes.”
Ariadne também alertou para a apropriação do termo “moeda social” por iniciativas empresariais e para a importância de filtros e certificação pública que diferenciem experiências comunitárias de produtos privados.
“Uma grande empresa cria uma moeda pra mim… isso não é moeda social, é moeda empresarial.”
Ano eleitoral e mobilização: “Eleger e cobrar”
A conversa avançou para o terreno político com um diagnóstico repetido: a disputa legislativa e institucional depende da correlação de forças no Congresso. Joaquim defendeu uma estratégia direta: dialogar com parlamentares, firmar compromissos públicos e cobrar depois.
“São duas coisas. Primeiro, eleger… segundo, assina uma carta porque nós vamos cobrar.”
Sara Goes provocou o debate ao lembrar que escândalos financeiros recentes evidenciam a assimetria do sistema: de um lado, facilidade e estímulo para estruturas financeiras distantes do território; de outro, barreiras para iniciativas comunitárias. Para Joaquim, quando a tecnologia social cresce sem proteção legal, o mercado tenta capturar ou criminalizar.
“Quando você tem uma tecnologia social… quando ela cresce… ou o mercado copta… ou criminaliza.”
Moedas ambientais e transição energética justa: nova fronteira em 2026
Além da agenda legislativa, Joaquim apontou a expansão de moedas sociais vinculadas à pauta ambiental, conectando bancos comunitários e transição energética. Citou experiências de reciclagem, energia solar e iniciativas locais como parte de um movimento em ascensão.
“O que cresce muito também são as moedas ambientais… moedas sociais verdes.”
Ele anunciou ainda uma pesquisa em parceria envolvendo a Petrobras e universidades para discutir transição energética justa e popular, com participação comunitária e saberes diversos.
“Não é mais para descobrir a grande fazenda solar… é como a transição energética pode ser justa e popular.”
Um recado final: “Economia Solidária ou barbárie”
No encerramento, Joaquim reiterou que o país vive um conflito entre dinheiro circulando na economia real e dinheiro capturado pela lógica rentista. Sara Goes sintetizou o clima com uma frase que virou chave de leitura para o ano que começa:
“Depois dessa história do Banco Master… é Economia Solidária ou barbárie.”
E Joaquim devolveu com uma convocação de ânimo e luta, alinhada ao mote que atravessou o programa inteiro:
“2026, alegria, fé e muita luta nos espera.”
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