Professora relaciona comportamento extremista, violência política e degradação do debate público à lógica das redes sociais e à experiência traumática da pandemia
A professora de filosofia Sandra Helena afirmou que o Brasil atravessa uma escalada de irracionalidade política impulsionada pelas redes sociais, pela radicalização algorítmica e pela extrema direita. A análise foi feita durante participação no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Sara Goes.
A primeira metade da edição foi marcada por uma longa reflexão sobre o ambiente político brasileiro, a normalização de comportamentos extremos e a deterioração das formas tradicionais de convivência social. O debate começou após a repercussão de vídeos nas redes envolvendo apoiadores do bolsonarismo consumindo detergente em manifestações políticas.
Sandra Helena afirmou que episódios aparentemente caricatos não podem ser vistos apenas como excentricidades isoladas da internet. Para ela, trata-se de sintomas de um processo mais profundo de adoecimento político e emocional da sociedade.
“A gente entrou em modo turbo pré-eleitoral”, afirmou ao comentar o crescimento da radicalização digital nos últimos meses.
Segundo a professora, as redes sociais transformaram elementos banais do cotidiano em instrumentos permanentes de disputa política. Ela observou que conteúdos absurdos ou grotescos tendem a circular com mais intensidade do que debates estruturados sobre temas institucionais e econômicos.
“Qualquer elemento da realidade tende à politização e viraliza muito mais do que uma reflexão sobre dosimetria ou sobre a escala 6×1”, declarou.
Na avaliação de Sandra Helena, esse processo está diretamente ligado à lógica algorítmica das plataformas digitais, que premiam engajamento emocional, choque e impulsividade. Ela definiu esse ambiente como um “círculo vicioso” capaz de ampliar comportamentos irracionais e produzir uma espécie de excitação permanente.
Ao relacionar o cenário atual à pandemia de Covid-19, a filósofa afirmou que o Brasil já havia testemunhado manifestações extremas semelhantes nos anos anteriores. Segundo ela, o incentivo ao uso de cloroquina, ataques a profissionais de saúde e invasões de hospitais demonstraram como parcelas da população passaram a agir sob forte captura emocional e ideológica.
“A gente viu pessoas morrendo sufocadas e viu o presidente imitando falta de ar”, lembrou.
Sandra Helena afirmou que o comportamento de parte da extrema direita brasileira não pode ser tratado como simples “polarização” entre dois campos equivalentes. Para ela, existe uma assimetria evidente entre as formas de mobilização política.
“A polarização existe, mas ela é muito desigual, muito assimétrica”, declarou.
Durante a conversa, ela recordou episódios de violência política ocorridos nos últimos anos, incluindo atentados, ameaças golpistas e ações terroristas ligadas ao bolsonarismo. Citou ainda a tentativa de explosão próxima ao aeroporto de Brasília, ataques durante a diplomação do Presidente Lula e manifestações de apoiadores extremistas que defendiam ruptura institucional.
Segundo Sandra Helena, o elemento mais preocupante não é apenas a irracionalidade em si, mas a disposição crescente ao auto-sacrifício e à violência.
“Essas pessoas estão para tudo”, afirmou.
A professora também comparou a atual radicalização ao comportamento de militantes progressistas durante a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva em Curitiba. Segundo ela, apesar da indignação política, não houve ações violentas equivalentes às registradas entre grupos extremistas de direita.
Ela relembrou a Vigília Lula Livre, destacando que os apoiadores do então ex-presidente organizaram ocupações pacíficas e mantiveram mobilizações permanentes sem recorrer à violência armada.
“Nunca houve de nossa parte um ataque que matasse alguém do campo opositor”, afirmou.
Outro eixo central da análise foi o impacto psicológico e cultural das redes sociais sobre as noções de vergonha, remorso e contenção social. Sandra Helena argumentou que plataformas digitais contribuíram para o enfraquecimento de mecanismos tradicionais de autocontrole coletivo.
“A sociedade precisa dessa contenção que causa um mal-estar”, disse ao citar formulações de Sigmund Freud sobre civilização e repressão dos impulsos.
Para a professora, a lógica contemporânea das plataformas digitais dissolveu parte dessas barreiras simbólicas. Ela afirmou que o ambiente online estimula impulsos imediatos, reduz filtros morais e incentiva performances públicas de agressividade e humilhação.
Sandra Helena relacionou esse fenômeno ao caso recente da empresária acusada de agredir brutalmente uma funcionária doméstica grávida após suspeita de roubo. Segundo ela, o episódio revelou não apenas violência individual, mas um ambiente social mais amplo de brutalização e ausência de vergonha pública.
“A ideia da vergonha, do remorso, do arrependimento está sendo corroída”, afirmou.
Ao comentar o papel das big techs, a professora afirmou que a deterioração se aprofundou após as plataformas digitais abandonarem o crescimento orgânico inicial e passarem a operar sob forte manipulação algorítmica.
Ela citou o documentário O dilema das redes para sustentar a ideia de que empresas de tecnologia passaram a utilizar mecanismos capazes de modular comportamento político, consumo emocional e circulação de conteúdo.
“A gente perdeu completamente o domínio sobre esse processo”, declarou.
Sandra Helena também utilizou referências da cultura pop para ilustrar o cenário contemporâneo. Comparou o ambiente político atual a filmes distópicos de apocalipse zumbi e citou Matrix para descrever a captura social produzida pelas plataformas digitais.
Segundo ela, a extrema direita internacional opera hoje em uma lógica ainda mais agressiva do que em ciclos anteriores, mencionando os Estados Unidos como exemplo de aprofundamento autoritário.
“O que foi terrível numa primeira gestão pode voltar de forma muito mais avassaladora”, afirmou.
Na parte final da primeira metade do programa, Sandra Helena debateu com o jurista Martônio Mont’Alverne o papel recente do Supremo Tribunal Federal, os conflitos institucionais envolvendo o Congresso Nacional e a reação da extrema direita aos julgamentos ligados ao 8 de Janeiro.
Ela argumentou que o STF passou a ocupar uma posição de contenção institucional durante a pandemia e se tornou alvo prioritário do bolsonarismo justamente após barrar iniciativas consideradas autoritárias.
“O Supremo começou a ser alvo direto da extrema direita quando funcionou como freio de contenção”, observou.
Sandra Helena também criticou o discurso de neutralidade frequentemente atribuído ao Judiciário brasileiro. Segundo ela, decisões constitucionais sempre envolvem conflitos políticos, disputas de classe e interesses sociais concretos.
“A mídia corporativa insiste numa ideia hipócrita de neutralidade”, afirmou.
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