No Café com Democracia, o professor Nelson Campo afirma que Trump amplia a lógica imperial e alerta para riscos de novas guerras e retrocessos científicos
A escalada de ameaças, tarifas e declarações expansionistas de Donald Trump voltou ao centro do debate geopolítico e alimenta uma pergunta que já circula como inquietação global: Trump é uma ameaça à humanidade. O tema foi discutido no programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na Rádio e TV Atitude Popular, com a participação do professor Nelson Campo, que analisou o trumpismo como continuidade de uma tradição histórica de intervenção, dominação territorial e uso seletivo do discurso democrático.
A discussão, exibida no Café com Democracia, da TV Atitude Popular, partiu de um recuo histórico para sustentar a tese central do entrevistado: a política externa dos Estados Unidos se estrutura menos por valores universais e mais por interesses materiais e militares. Nelson Campo afirmou que é impreciso falar em “independência dos Estados Unidos” como um fato isolado em 4 de julho de 1776, porque “não existiam Estados Unidos da América até então”, e que a união das 13 colônias, em meio à guerra contra a Inglaterra, deu origem a um país cuja trajetória seria marcada por conflitos internos, expansão territorial e disputas de poder.
Ao longo do programa, o professor listou guerras e processos históricos que, em sua leitura, ajudam a entender por que a agenda de Trump encontra terreno fértil em setores conservadores dos EUA. Ele citou a Guerra Civil (1861–1865) como expressão de divisões profundas, com “o sul agrícola baseado no trabalho escravo” e uma mentalidade que ele descreveu como “profundamente conservadora e racista”, persistente até hoje. O argumento se ampliou para uma crítica à perspectiva eurocêntrica que apaga povos originários e normaliza a ocupação violenta de territórios. Para Nelson Campo, os Estados Unidos nasceram e se consolidaram também por anexações e aquisições estratégicas, como territórios tomados do México em guerras, além de compras como a da Louisiana e do Alasca, compondo um histórico de avanço sobre áreas consideradas essenciais à segurança ou à riqueza nacional.
A partir daí, o debate avançou para o presente. Segundo o professor, o que Trump tenta vender como novidade, na prática, reencena doutrinas antigas com linguagem agressiva e chantagem econômica. Ele relacionou a política de tarifas e coerção comercial ao mercantilismo e ao protecionismo históricos, e comparou o método de pressão contemporâneo ao “bloqueio continental” decretado por Napoleão em 1806, quando o imperador tentou isolar economicamente a Inglaterra. Nelson Campo destacou uma lógica semelhante na fala atribuída a Trump, de punir com taxações países que não aceitem seus movimentos expansionistas, incluindo a Groenlândia e, na conversa do programa, até especulações sobre áreas estratégicas brasileiras citadas pelo apresentador.
O entrevistado também abordou a contradição entre a autoimagem cristã de parte da sociedade norte-americana e o tratamento dispensado a migrantes. Ao comentar muros e cercas na fronteira com o México, ele questionou o sentido de um país que se declara cristão, mas ergue barreiras físicas e políticas contra populações empurradas pela própria desigualdade regional e pelas consequências históricas da dominação. O programa retomou exemplos narrados por Regadas, como cidades fronteiriças que utilizaram mão de obra mexicana e, após o fim de ciclos econômicos, endureceram a passagem, evidenciando um padrão: absorver trabalho quando interessa e bloquear circulação quando convém.
A crítica de Nelson Campo se concentrou no que chamou de dupla moral na política internacional. “A política externa dos Estados Unidos é a política mais hipócrita que existe no mundo”, disse, ao argumentar que Washington invoca “defesa da democracia” enquanto apoia golpes, intervém em países e sustenta governos autoritários quando isso atende a seus objetivos. Ele citou a ditadura militar no Brasil como exemplo histórico de interferência e afirmou que negar sua existência é ignorância ou má-fé. No mesmo fio, ele criticou o apoio dos EUA a ações militares no Oriente Médio e caracterizou o massacre em Gaza como genocídio, condenando a seletividade do rótulo “terrorismo” e afirmando que bombardear e matar dezenas de milhares de pessoas também se enquadra na mesma lógica de terror.
A entrevista entrou no tema dos organismos internacionais e do poder de veto. Nelson Campo avaliou que estruturas como o Conselho de Segurança da ONU se tornam ineficazes quando cinco potências mantêm a prerrogativa de bloquear decisões, especialmente em casos envolvendo Israel e Palestina. Para ele, qualquer “conselho da paz” que preserve o desequilíbrio de poder tende a repetir esse impasse. “Basta uma delas ter direito de veto”, afirmou, ao sustentar que a vontade majoritária da comunidade internacional frequentemente não se converte em ação concreta.
Outra frente do debate foi a guerra, não apenas como política, mas como negócio. O professor associou a permanência dos conflitos ao peso da indústria bélica e lembrou cifras trilionárias empregadas em intervenções, sugerindo que há interesses que se alimentam da destruição. Na conversa, Regadas também levantou preocupações sobre o impacto de possíveis anexações e tensões na Groenlândia para a OTAN, dado que a Dinamarca integra a aliança, e sobre os efeitos de uma escalada que normalize invasões entre países aliados, corroendo a própria lógica do pacto militar.
No plano interno dos Estados Unidos, o programa discutiu tensões sociais, denúncias de perseguição a jornalistas e migrantes e o ambiente político polarizado. Nelson Campo criticou o negacionismo e a campanha anticiência, mencionando com ironia a ideia de que “o que não se vê não existe”, para exemplificar o que considera uma escolha deliberada por quadros anti-intelectuais em áreas estratégicas. Na sua leitura, líderes como Trump se cercam de figuras submissas porque uma equipe qualificada imporia limites às “estupidezes” do governo, criando contradições insustentáveis para um projeto de poder personalista.
Ao responder sobre como conter Trump e outros líderes belicistas, o professor sustentou que o mecanismo mais direto seria a pressão econômica global, com redução de importações e exportações, mas reconheceu a dificuldade de coordenação internacional, dado o peso da economia norte-americana. Ainda assim, defendeu que uma alternativa real dependeria de cooperação entre países, fortalecimento de instâncias multilaterais e, sobretudo, de uma cultura política orientada pela paz.
A conclusão do programa foi marcada por um apelo ético. “A paz existiria se as pessoas vivessem paz e quisessem a paz viver com as pessoas em harmonia”, afirmou Nelson Campo, defendendo respeito entre povos e criticando a naturalização da guerra como destino. Regadas encerrou retomando a dimensão humana do debate e lembrando que, sem empatia e sem compromisso com a vida, a geopolítica vira apenas contabilidade de mortos e ganhos, algo que, no limite, coloca toda a humanidade em risco.
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📅 De segunda à sexta
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