No Café com Democracia, a defensora pública Mônica Barroso relembra conquistas, denuncia a persistência do machismo e defende mais mulheres na política e nos espaços de poder
A luta das mulheres por direitos sociais, civis e políticos foi o tema do programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na web rádio e TV Atitude Popular. A convidada foi a dra. Mônica Barroso, defensora pública, que percorreu uma linha histórica da subalternização feminina no Brasil, apontou como o machismo atravessa instituições e comportamentos cotidianos, e descreveu a disputa por espaço na esfera pública como um aprendizado ainda em curso.
A conversa foi exibida no Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, retransmitido por uma ampla rede de rádios comunitárias e parceiras citadas pelo apresentador ao longo da abertura. A lista incluiu emissoras do Ceará e de outros estados, reforçando o alcance do programa no debate de temas que, segundo a entrevistada, não podem ficar restritos a “programas policiais” e ao noticiário do medo.
Logo ao responder sobre a trajetória histórica do movimento de mulheres, Mônica Barroso ressaltou que a desigualdade foi construída como norma e naturalizada por séculos. Para ela, quando se afirma que a sociedade é machista, é preciso compreender que o machismo se espalha como cultura, não como atributo exclusivo dos homens. “Quando a gente diz que uma sociedade é machista, Luiz, a gente diz que os homens são machistas, as mulheres são machistas, os jovens, as jovens, os velhos, as velhas”, declarou. Na avaliação da defensora, os homens ocuparam historicamente o espaço público enquanto as mulheres foram empurradas para o privado, em parte por imposições sociais ligadas à maternidade e ao cuidado, o que serviu de justificativa para mantê-las em posição inferior.
O programa também trouxe um recorte histórico sobre o Brasil, marcado por longos períodos de escravidão e por hierarquias de raça e gênero que moldaram a noção de “quem vale mais”. A entrevistada apontou que, num país formado por estruturas escravocratas, negros foram tratados como “objetos de venda e troca” e, na lógica patriarcal, as mulheres também foram reduzidas à condição de posse. O apresentador complementou lembrando a sexualização recorrente do corpo feminino, e Mônica conectou essa ideia ao controle social sobre aparência, idade e desejo.
Um dos trechos mais contundentes da entrevista foi quando Mônica descreveu a estética como disciplina imposta às mulheres. “No Brasil os brasileiros têm raiva de três palavras: mulher gorda e velha”, disse, afirmando que a associação entre “ser mulher” e ser “jovem, magra e bela” retira humanidade e reconhecimento de quem foge desse padrão. Ela citou práticas comuns como tinturas para esconder cabelos brancos, cirurgias plásticas e o crescimento de clínicas estéticas como sintomas de uma cultura que penaliza o envelhecimento feminino. Regadas associou essa lógica à indústria cultural e às músicas populares que tratam mulheres como objeto, e a defensora relatou ter revisto até letras clássicas sob essa lente. Ao comentar “Teresa da Praia”, ela criticou o foco exclusivo na beleza da personagem: “Em momento algum se fala da possibilidade da Teresa ter um sentimento, ter alma, ter coração, ter competência”.
Mônica Barroso também narrou como sua própria trajetória foi atravessada pela percepção da desigualdade. Ela afirmou ter vivido o “privilégio” de estudar desde a infância em um colégio misto, onde meninos e meninas compartilhavam sala e disputavam notas “em pé de igualdade”. Esse ambiente, disse, a ajudou a perceber como a separação entre escolas “de homens” e “de mulheres” era uma engrenagem de controle, reforçada por regras de comportamento e pela ideia de que as mulheres precisariam ser “recatadas” enquanto os homens “iam à luta”. “Eu era aquela, eu brigava com todo mundo”, contou, lembrando que, ainda jovem, já reagia com revolta ao tratamento desigual, inclusive nos embates com meninos da escola.
A defensora relatou que, ao entrar nos movimentos estudantis, constatou que o machismo se reproduzia também em espaços de esquerda. “Eu fui reparando que mesmo os meninos de esquerda… era machista, as mulheres não estavam em cargos de direção”, disse. Foi nesse contexto, segundo ela, que iniciou uma militância contínua. Mais tarde, na vida profissional, descreveu o choque com estruturas de poder. Ao falar do período em que prestou concurso para a magistratura e depois migrou para a Defensoria Pública, ela relatou que juízas eram tratadas como menos importantes e que ordens vinham carregadas de hierarquia e desprezo.
A entrevista ganhou tom ainda mais pessoal quando Mônica recordou sua atuação direta no enfrentamento à violência doméstica. Ela disse ter criado no Ceará “o primeiro núcleo de atendimento jurídico às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar” e descreveu a fase como intensa e arriscada, incluindo momentos em que precisou de escolta. “Foi uma vida perigosa, mas eu nunca senti tanto prazer nesse perigo, como conseguia circular, dar um pouquinho mais de liberdade às mulheres”, afirmou.
Ao abordar conquistas legais, Mônica citou a Lei Maria da Penha como marco de proteção física, moral, psicológica e patrimonial, e destacou o tempo de maturação social das leis. “A Lei Maria da Penha… é de 2006, vai fazer 20 anos”, disse, chamando atenção para o fato de que a sociedade leva anos para reconhecer violências como crime, e não como “problema de casal”. Para ela, antes da lei, imperavam frases como “roupa suja se lavava em casa” e “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Mônica respondeu com ironia e posicionamento: “Eu meti a colher, o garfo e a faca nessas brigas”.
A defensora apontou que a pandemia intensificou tensões ao obrigar convivência prolongada e aumentou separações, além de expor o que antes ficava invisível. Ainda assim, avaliou que houve aprendizado e uma ampliação da publicidade do tema. Segundo ela, mulheres passaram a entender que “também são pessoas humanas” e que não precisam aceitar agressões como rotina. O apresentador ressaltou que a violência não é só física, e Mônica concordou, reforçando que humilhação, controle e desprezo cotidianos também ferem e aprisionam.
No trecho em que discutiu feminicídio, Mônica apresentou um dado alarmante e recorrente no debate público: “80% dos casos de feminicídio… são praticados contra marido, ex-marido, namorado, ex-namorado”. Ela interpretou esse padrão como reação de homens que veem o poder sobre a mulher como o único poder disponível, e que não suportam perder esse controle, “nem que seja só sobre o seu corpo”. Mônica também explicou diferenças legais citadas na conversa, lembrando que a Lei Maria da Penha tutela situações específicas de violência doméstica e familiar, inclusive em relações entre mulheres e em casos de filha contra mãe, mas que o enquadramento de feminicídio está ligado ao assassinato de mulher por razões de gênero.
Ao falar de avanços, Mônica destacou sinais concretos da presença feminina na vida pública. Disse sentir orgulho ao ver grupos de jovens mulheres ocupando bares e espaços de convivência, algo que antes era socialmente vigiado. “Hoje elas são candidatas, elas hoje são eleitas, elas hoje estão nas presidências de alguns tribunais”, afirmou. Em seguida, trouxe uma cena que sintetiza o que chama de longa travessia para ser ouvida. “Recentemente eu estava discutindo com um juiz, com um ministro no STJ… Ele parou, olhou para mim e disse: ‘Que interessante essa sua tese’.… Eu disse: ‘Foi preciso chegar aos 70 anos e engordar para um juiz me ouvir’”, relatou. Para ela, durante décadas, muitos homens “olhavam para a minha cara, pro meu corpo” e desperdiçavam o momento de ouvir argumentos.
Na reta final, a entrevista encaminhou uma defesa direta de participação política. Mônica disse ser filiada desde os 18 anos, ter sido candidata a deputada e manter encanto pela política partidária, apesar de estar hoje mais afastada. Para ela, reclamar do Congresso sem entrar na disputa é entregar o terreno ao conservadorismo. “Você já se filiou? Não. Pois se filie, tente também uma candidatura”, provocou. Regadas encerrou reforçando que o ano eleitoral torna ainda mais urgente ampliar a presença feminina em parlamentos e governos, e Mônica concluiu com uma síntese de horizonte democrático: a sociedade só melhora quando mulheres, negros, indígenas e pessoas LGBT puderem existir e se misturar “de igual para igual”, sem medo, nos espaços de decisão.
Ao final, o programa se despediu com a participação do público no chat, menções à equipe e mensagens como a de apoio da produtora Paula Bandeira e a presença do cineasta Felipe Barroso, irmão da entrevistada, lembrado por Regadas ao elogiar o filme “A prefeita”. Mônica deixou um pedido simples e direto: acompanhar e aplaudir o que as mulheres estão fazendo, como prática cotidiana de mudança.
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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