Atitude Popular

“A preocupação dos Estados Unidos em classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas tem uma finalidade política”

No Café com Democracia, Nelson Campos afirma que a extrema direita manipula o conceito de terrorismo para justificar intervenção e ampliar o controle dos Estados Unidos sobre a América Latina

A tentativa de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais foi tema de debate no programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas e com participação do professor Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC. Ao longo da conversa, o convidado contestou frontalmente a narrativa impulsionada por setores da extrema direita no Brasil e nos Estados Unidos.

A presente matéria tem como fonte o conteúdo do programa exibido no canal da TV Atitude Popular no YouTube, em entrevista com Nelson Campos sobre os critérios que distinguem crime organizado, crime transnacional e terrorismo, além dos interesses geopolíticos envolvidos na insistência em equiparar facções criminosas brasileiras a grupos terroristas.

Para o professor, a discussão não é, em primeiro lugar, conceitual ou jurídica, mas política. Segundo ele, a extrema direita vem instrumentalizando a ideia de terrorismo como forma de produzir medo social e, ao mesmo tempo, abrir caminho para formas de intervenção externa, inclusive militar.

A preocupação dos Estados Unidos em classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas tem uma finalidade política”, afirmou Nelson Campos logo no início da entrevista.

Crime organizado não é o mesmo que terrorismo

Ao analisar o tema, Nelson sustentou que PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas voltadas ao lucro, à expansão de mercados ilegais e ao controle de rotas do tráfico, mas não possuem a natureza ideológica, religiosa ou doutrinária que costuma caracterizar grupos enquadrados como terroristas.

Em termos conceituais, PCC e Comando Vermelho são organizações baseadas no roubo, no tráfico, no lucro. Querem ganhar dinheiro. Não estão preocupados com ideologia, não estão preocupados com religião”, declarou.

Na avaliação do professor, embora essas facções empreguem violência, intimidação e ocupem espaços transnacionais, isso não basta para enquadrá-las como terroristas nos moldes em que os próprios Estados Unidos costumam definir o termo.

Ele destacou que o terrorismo, em sua formulação clássica, aparece ligado a finalidades políticas, ideológicas ou religiosas, o que, segundo sua leitura, não se aplica ao PCC nem ao Comando Vermelho.

A palavra “terrorismo” como instrumento de poder

Ao longo da entrevista, Nelson insistiu que o uso dessa nomenclatura pela extrema direita não é casual. Para ele, há uma funcionalidade estratégica na tentativa de rotular facções criminosas como organizações terroristas: criar uma justificativa para ampliação da presença norte-americana sobre a América Latina.

A extrema direita faz uso desse tipo de terminologia, dizendo que é terrorismo, para justificar a presença norte-americana, inclusive militarmente”, disse.

Segundo ele, essa operação discursiva se baseia em mentiras, exageros e fabricação de ameaças, numa lógica semelhante à utilizada em outros episódios da política externa dos Estados Unidos. O professor citou o caso do Iraque, lembrando que a invasão foi sustentada pela falsa alegação de existência de armas de destruição em massa.

Com base numa mentira eles bombardearam o Iraque, invadiram o Afeganistão, mataram milhares de pessoas e ficou por isso mesmo”, afirmou.

A analogia serve para sustentar sua tese de que o rótulo de terrorismo pode funcionar como pretexto geopolítico, e não como diagnóstico rigoroso da natureza de determinados grupos criminosos.

Expansão internacional não altera a natureza das facções

Durante o programa, Luiz Regadas lembrou que relatórios de segurança apontam a presença do PCC em países da América do Sul e da Europa, especialmente nas rotas do narcotráfico. Para Nelson, essa expansão internacional tampouco autoriza, por si só, a classificação como terrorismo.

Ele argumentou que a atuação fora do território brasileiro deve ser compreendida dentro da lógica do crime organizado transnacional, e não como evidência automática de terrorismo.

Não é só aqui no Brasil que eles estão atuando. Estão atuando onde possam auferir lucros. Eles estão atuando com essa finalidade. Não é para fazer terrorismo”, disse.

Nessa perspectiva, a internacionalização do crime não deve ser confundida com internacionalização do terror político. O que existe, segundo o professor, é o alargamento de redes ilícitas em busca de dinheiro, poder econômico e circulação de mercadorias ilegais.

Extrema direita, corrupção e manipulação do medo

Em vários momentos da entrevista, Nelson conectou o debate sobre facções à atuação da extrema direita brasileira e à forma como esse campo político mobiliza medo, religião, escândalo e desinformação.

Uma das características da extrema direita é a mentira, o fake news, espalhar o terror através das mentiras”, declarou.

Para ele, a retórica sobre terrorismo convive com práticas muito concretas de corrupção, conluio político e associação entre poder econômico e instituições estatais. O professor mencionou casos de governadores, parlamentares e lideranças conservadoras para sustentar que há, no campo da extrema direita, uma relação recorrente entre discurso moralista e práticas ilícitas.

Também chamou atenção para o modo como grupos criminosos buscam influência institucional por meio do financiamento de campanhas, inclusive em disputas locais.

Ao comentar casos de vereadores acusados de vínculo com facções, Nelson observou que esse tipo de infiltração não é isolado e integra uma lógica mais ampla de captura de espaços públicos por interesses ilegais.

Financia os candidatos para entrar mesmo na campanha e defender os interesses deles”, resumiu.

Corrupção, facções e infiltração no poder público

Um dos pontos importantes levantados no debate foi a diferença entre usar a violência para lucrar e usar a violência com finalidade terrorista. Nelson não negou a brutalidade das facções nem seus laços com estruturas políticas locais, mas insistiu que isso deve ser tratado como corrupção, crime organizado e cooptação institucional, não como terrorismo.

Isso não é terrorismo, isso é corrupção”, afirmou em resposta a uma pergunta sobre a presença de grupos criminosos no financiamento de políticos.

O professor destacou ainda que licitações, emendas, estruturas municipais e mandatos podem ser usados como instrumentos de reprodução de interesses criminosos, o que exige investigação séria, controle público e combate à corrupção estrutural.

Ao mesmo tempo, advertiu contra a manipulação desse quadro por setores que, segundo ele, tentam apresentar a intervenção estrangeira como solução para problemas internos do Brasil.

Soberania nacional e pressão dos Estados Unidos

A conversa avançou para a dimensão internacional da questão. Nelson criticou duramente o intervencionismo norte-americano e defendeu a soberania brasileira como princípio inegociável.

A postura do Lula como presidente é a defesa da soberania nacional. É inegociável”, disse.

Para ele, aceitar passivamente a imposição de narrativas externas sobre segurança, terrorismo e crime organizado significaria abrir espaço para uma tutela estrangeira sobre decisões nacionais.

Nesse ponto, o professor citou a instalação de bases militares no Paraguai e os movimentos dos Estados Unidos na região como sinais de uma política mais ampla de cercamento e pressão sobre a América do Sul.

Sua avaliação é de que o Brasil precisa resistir a esse tipo de interferência e recusar leituras fabricadas para legitimar operações políticas e militares estrangeiras.

O papel da imprensa e a disputa pela narrativa

Nelson também criticou a cobertura da grande imprensa, acusando parte dos veículos de reforçar narrativas convenientes à direita e de funcionar mais como engrenagem de propaganda do que como jornalismo independente.

Sem poupar nomes, o professor afirmou que boa parte da mídia corporativa opera segundo interesses empresariais e políticos, exaltando certos personagens e blindando outros.

A crítica se insere no centro do debate porque, na sua leitura, a tentativa de associar facções ao terrorismo também depende de um ambiente de comunicação baseado em pânico moral, simplificação conceitual e naturalização da intervenção externa.

Filosofia crítica e desmascaramento da ideologia

Nas considerações finais, Nelson sintetizou sua abordagem afirmando que o papel da análise crítica é romper com as aparências e examinar os fatos como eles são, sem submissão ao senso comum produzido por interesses de poder.

O papel da filosofia crítica é o de desmascarar a ideologia”, afirmou.

Para ele, isso significa retirar a máscara de discursos que se apresentam como defesa da ordem ou da segurança, mas escondem objetivos de dominação, manipulação política e submissão nacional.

Ao fim, a entrevista deixou uma linha clara de interpretação: PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas violentas e transnacionais, mas sua equiparação automática ao terrorismo, segundo Nelson Campos, responde menos a critérios técnicos do que a uma operação política da extrema direita para fabricar ameaças, ampliar o medo e justificar agendas de intervenção sobre a América Latina.


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