Coordenador da Frente IA com Direitos Sociais, José Vital alerta para os impactos da revolução tecnológica sobre o trabalho, a soberania digital, a democracia e a capacidade do Brasil de controlar seus próprios dados
Da Redação
A disputa em torno da inteligência artificial deixou de ser um debate restrito a laboratórios, empresas de tecnologia e especialistas. Hoje, ela atravessa questões centrais da vida nacional, como emprego, educação, comunicação, soberania tecnológica e democracia. Foi esse o tema central da edição especial do programa Trilhas da Soberania, que recebeu José Vital, coordenador da Frente IA com Direitos Sociais, para analisar os resultados da II Conferência de Inteligência Artificial com Direitos Sociais, realizada no Ceará.
A entrevista reuniu ainda comentários da advogada Ludmila Cindra, da Rede Lawfare Nunca Mais, e do pesquisador Reynaldo Aragon, editor do site Código Aberto. Ao longo da conversa, os participantes discutiram os desafios impostos pela rápida expansão da inteligência artificial e os caminhos para que o Brasil desenvolva uma política tecnológica comprometida com os direitos sociais e o interesse público.
Segundo José Vital, a conferência foi organizada em um contexto marcado pela aceleração sem precedentes da transformação tecnológica global. Para ele, o país precisa compreender que a inteligência artificial não representa apenas uma inovação técnica, mas uma profunda mudança nas estruturas econômicas, políticas e sociais.
“A própria democracia, as instituições democráticas estão em risco diante da inteligência artificial e diante do que as Big Techs estão fazendo hoje no Brasil e no mundo.”
O coordenador da Frente IA com Direitos Sociais lembrou que a conferência adotou como lema a frase “Tempestades estão chegando”, numa referência aos impactos já observados sobre o mercado de trabalho, as universidades, as empresas e as instituições públicas. Na avaliação dele, trata-se da maior e mais rápida revolução tecnológica já vivida pela humanidade.
Disputa política e poder das Big Techs
Um dos pontos centrais da entrevista foi a influência crescente das grandes plataformas digitais sobre os processos políticos e legislativos.
Vital citou a atuação de gigantes como Google, Amazon, Meta, Microsoft e Apple na defesa de seus interesses junto ao Congresso Nacional e alertou para a dificuldade de construir uma regulação democrática da inteligência artificial em um ambiente fortemente pressionado por interesses econômicos internacionais.
Segundo ele, parte significativa dos parlamentares que acompanham o tema da regulamentação das plataformas digitais e da inteligência artificial está alinhada a posições conservadoras ou diretamente influenciada pelo lobby empresarial.
“Hoje 80% é gente de direita conservadora e de extrema direita. E mesmo nos 20% do campo progressista são pouquíssimos os deputados e deputadas que chegaram na agenda do século XXI.”
Para Vital, a sociedade brasileira ainda não compreendeu plenamente a dimensão política da disputa tecnológica em curso.
Inteligência artificial e eleições
Outro tema que despertou preocupação durante a entrevista foi o impacto da inteligência artificial sobre os processos eleitorais.
José Vital observou que as ferramentas atuais já conseguem produzir vídeos, imagens e áudios extremamente convincentes, dificultando a identificação de conteúdos falsos por parte da população.
“Hoje nós temos vídeos de um nível de qualidade que milhões de brasileiros não sabem estabelecer se é uma fala real ou uma criação feita por inteligência artificial.”
Na avaliação dele, a eleição de 2026 exigirá uma vigilância ainda maior da sociedade civil, dos partidos políticos e das instituições democráticas para combater campanhas de desinformação produzidas com auxílio de tecnologias avançadas.
O avanço da automação e o futuro do trabalho
A conferência também discutiu os efeitos da inteligência artificial sobre o emprego.
Vital relatou casos concretos de empresas que já estão substituindo profissionais por sistemas automatizados. Um exemplo citado foi o de uma empresa que eliminou dezenas de vagas de designers iniciantes após incorporar ferramentas de IA aos seus processos produtivos.
“Quem está se lascando nisso é a juventude que dedica quatro ou cinco anos à universidade e encontra um mercado de trabalho cada vez mais fechado.”
Segundo ele, a lógica predominante nas empresas é utilizar a inteligência artificial para reduzir custos e ampliar lucros, sem qualquer compromisso com a proteção dos trabalhadores.
“Eu quero a inteligência artificial para demitir funcionário. Porque com a inteligência artificial eu não vou pagar férias, décimo terceiro, aposentadoria.”
Diante desse cenário, Vital defendeu o debate sobre novas formas de distribuição de renda, redução da jornada de trabalho e tributação dos ganhos gerados pela automação e pela inteligência artificial.
Soberania digital e controle dos dados
A entrevista dedicou atenção especial à questão da soberania digital brasileira.
José Vital criticou duramente a presença crescente de empresas estrangeiras em áreas estratégicas do Estado brasileiro, incluindo setores ligados à educação e à gestão de dados públicos.
O coordenador mencionou preocupações com a utilização de sistemas desenvolvidos por grandes corporações internacionais em instituições brasileiras e alertou para os riscos associados à transferência de dados sensíveis para plataformas estrangeiras.
“Quando nós falamos em soberania digital, estamos falando de manter os dados dos brasileiros protegidos e sob controle nacional.”
Na avaliação dele, permitir que empresas estrangeiras tenham acesso massivo a informações estratégicas pode comprometer a autonomia tecnológica do país e ampliar a dependência brasileira em relação aos centros globais de poder digital.
Data centers e desenvolvimento nacional
Outro ponto debatido foi a expansão dos data centers no Brasil.
Embora reconheça a importância da infraestrutura digital para o desenvolvimento tecnológico, Vital questionou projetos que oferecem benefícios públicos significativos sem contrapartidas concretas para a população.
Segundo ele, muitos empreendimentos prometem inovação e progresso, mas geram poucos empregos permanentes e apresentam elevado consumo de energia e recursos hídricos.
O coordenador defendeu que a instalação de centros de dados esteja vinculada a políticas de transferência tecnológica, formação de profissionais brasileiros e fortalecimento da capacidade nacional de produção científica e tecnológica.
Construindo uma inteligência artificial com direitos sociais
Ao longo dos seis dias de atividades realizados em Fortaleza e em cidades do interior cearense, a II Conferência de Inteligência Artificial com Direitos Sociais reuniu sindicalistas, pesquisadores, professores, estudantes e representantes da sociedade civil.
O objetivo foi construir uma agenda capaz de articular tecnologia, democracia, trabalho digno, inclusão digital e soberania nacional.
Para José Vital, o desafio agora é ampliar essa articulação para todo o país, fortalecendo núcleos estaduais e preparando a realização da II Conferência Brasil por Inteligência Artificial com Direitos Sociais, prevista para ocorrer em Brasília.
“Nós queremos uma inteligência artificial a favor dos direitos da sociedade, a favor da redução da jornada de trabalho, da dignidade das pessoas e da soberania do Brasil.”
Ao encerrar a entrevista, ele fez um alerta sobre a velocidade das transformações em curso.
“Se hoje a inteligência artificial já impressiona, em apenas um ano ela estará dezesseis vezes mais poderosa.”
A afirmação resume o espírito que marcou toda a conversa: o futuro da inteligência artificial não será definido apenas por algoritmos ou empresas de tecnologia, mas pelas escolhas políticas e sociais feitas pela sociedade brasileira nos próximos anos.
Referências
- Guerra Total — Guerra Total — Sérgio Amadeu
- Obras sobre economia digital e transformação tecnológica — Ladislau Dowbor
- Debates sobre renda básica universal — Eduardo Suplicy
Assista à entrevista completa:
https://www.youtube.com/live/hlHmO9pkecw?si=edY3SnzO2fTQZPc1
📺 Código Aberto
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/@TVCodigoAberto
📲 Pix: codigoaberto.net@gmail.com
🌐 https://www.codigoaberto.net/
📲✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O












