Atitude Popular

“A solução é preservar, não tem outra solução”

Em entrevista ao Café com Democracia, Napoleão Ferreira afirma que os problemas ambientais de Fortaleza estão ligados à desigualdade urbana, à ausência de planejamento metropolitano e à destruição histórica de lagoas, áreas verdes e cursos d’água

Os problemas ambientais de Fortaleza não podem ser compreendidos como fenômenos isolados, nem reduzidos a episódios sazonais de chuva, acúmulo de lixo ou calor excessivo. Em entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, exibida em 26 de março e conduzida por Luiz Regadas, o arquiteto e urbanista Napoleão Ferreira defendeu que a crise ambiental da capital cearense é resultado de um processo histórico de urbanização desigual, marcado pela concentração de riqueza, pela falta de saneamento integrado e pela ausência de planejamento para a cidade e sua região metropolitana.

Ao longo da conversa, Napoleão sustentou que o debate sobre lixo, enchentes, desaparecimento de lagoas, desmatamento, ilhas de calor, poluição do ar e poluição sonora precisa ser tratado como parte de uma mesma lógica urbana. Para ele, Fortaleza cresceu aprofundando desigualdades sociais e territoriais, e isso aparece de forma concreta na paisagem e na distribuição dos impactos ambientais.

Segundo o arquiteto, o problema do lixo, frequentemente tratado apenas como questão de limpeza urbana, é na verdade consequência de uma estrutura mais ampla e precária de saneamento. Ele lembrou que esse campo envolve abastecimento de água, drenagem, esgotamento sanitário e manejo de resíduos sólidos, e que essas dimensões não podem ser enfrentadas de forma fragmentada. Na avaliação do entrevistado, o fato de toneladas de resíduos serem retiradas dos bueiros da cidade é apenas o sintoma mais visível de uma engrenagem urbana desorganizada, incapaz de prevenir o acúmulo e de estruturar uma política eficaz de coleta seletiva, reciclagem e reaproveitamento.

Napoleão também chamou atenção para o contraste entre a pujança econômica de Fortaleza e a precariedade de grande parte do seu tecido urbano. Ao observar que a cidade concentra riqueza em áreas valorizadas, sobretudo em trechos da orla ocupados por empreendimentos de alto padrão, ele argumentou que a desigualdade econômica se materializa no espaço e se converte, também, em desigualdade ambiental. Bairros e territórios historicamente abandonados convivem com falta de infraestrutura, saneamento insuficiente, drenagem precária e maior exposição a enchentes, calor e degradação.

Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica à ausência de planejamento metropolitano. Para Napoleão, Fortaleza não pode mais ser pensada como se estivesse dissociada dos municípios vizinhos. A dinâmica urbana, populacional e ambiental já ultrapassou há muito tempo os limites administrativos da capital, mas o poder público segue tratando problemas estruturais de forma compartimentada. Na visão dele, essa lacuna agrava desde a gestão do lixo até a ocupação do solo, o sistema de drenagem e a preservação de recursos hídricos.

Ao tratar das enchentes urbanas, o arquiteto rejeitou explicações simplistas. O lixo acumulado, segundo ele, é apenas um dos fatores. O alagamento recorrente em diferentes áreas da cidade envolve também ocupações irregulares, impermeabilização excessiva do solo, aterramento de lagoas, canalização ou soterramento de riachos e destruição de áreas naturais que antes absorviam água. Napoleão lembrou que muitos alagamentos atuais ocorrem justamente em locais onde antes havia espelhos d’água, lagoas ou áreas de escoamento natural, posteriormente ocupadas por loteamentos e obras urbanas.

Nesse contexto, ele citou a história do riacho Pajeú, curso d’água fundante da cidade, hoje em boa parte escondido sob o tecido urbano. Também mencionou o Jacarecanga e recordou que já no século XIX havia propostas urbanísticas prevendo parques lineares às margens desses riachos, o que indica que a preocupação com os limites ambientais da expansão urbana não é nova. O que houve, na prática, foi a opção reiterada por um modelo de crescimento que suprimiu água, vegetação e áreas de drenagem em nome da valorização imobiliária e da ocupação intensiva do solo.

O entrevistado abordou ainda o caso do Jangurussu, diferenciando o açude do passivo ambiental ligado ao antigo acúmulo de resíduos. Para ele, o problema maior está na forma como o território foi tratado ao longo das décadas, por meio de soluções paliativas e insuficientes. Em vez de enfrentar de maneira estrutural a herança do lixo acumulado, optou-se por isolar e conter a área, sem resolver completamente suas consequências. Já no caso do açude, Napoleão defendeu outra perspectiva: a de recuperação paisagística, ambiental e social, transformando-o em espaço de convivência, lazer e integração urbana, e não em área degradada e ameaçadora para a população do entorno.

Ao comentar a situação das lagoas de Fortaleza, Napoleão foi enfático ao afirmar que o desaparecimento ou a degradação desses corpos d’água cobra um preço alto da cidade. Ele lembrou que a capital já contou com um sistema de lagoas interligadas, importante para sua própria consolidação urbana, especialmente num território de clima semiárido. Com a urbanização predatória, a especulação imobiliária e o adensamento, esse patrimônio hídrico foi sendo comprometido. A consequência não é apenas ecológica. Ela aparece no cotidiano, quando regiões inteiras passam a alagar sem que parte da população compreenda que ali, antes, existia uma lagoa ou uma área de retenção natural de água.

Outro aspecto destacado foi o enfraquecimento da mobilização ambiental na cidade. Para o arquiteto, as entidades civis e os movimentos voltados à pauta ambiental perderam força ao longo do tempo, o que facilita a continuidade de intervenções agressivas sem resistência social proporcional. Ele citou, por exemplo, disputas recentes em torno de áreas verdes próximas ao aeroporto, onde houve mobilização, mas não o suficiente para impedir o avanço de novas supressões.

Napoleão também criticou a escassez de arborização urbana e a lógica de obras públicas que substituem áreas verdes por superfícies áridas, pavimentadas e reflexivas. Na entrevista, afirmou que Fortaleza segue uma tradição de “transformar tudo em clareira”, eliminando árvores e vegetação sem recomposição equivalente. O problema, segundo ele, aparece tanto em grandes intervenções urbanas quanto no cotidiano dos bairros, muitos deles marcados por ruas, avenidas e canteiros quase sem sombra.

Esse padrão, afirmou, está diretamente ligado à formação de ilhas de calor, já identificadas em diferentes pontos da cidade, inclusive em regiões nobres e turísticas. Para o urbanista, não há mistério nem solução mágica. “A solução é preservar. Não tem outra solução”, resumiu. Na avaliação dele, retirar vegetação, impermeabilizar o solo e degradar recursos hídricos empurra Fortaleza para um processo progressivo de agravamento climático, num cenário em que o aquecimento global já pressiona ainda mais as cidades.

A crítica alcançou também a Beira-Mar. Napoleão observou que intervenções urbanísticas recentes ampliaram a sensação de aridez, afastaram a população do mar e criaram extensas superfícies duras, pouco amigáveis do ponto de vista climático. Ao recuperar a história da orla, ele lembrou ainda o impacto do Porto do Mucuripe sobre a dinâmica costeira, classificando a obra como um marco de degradação ambiental com efeitos históricos sobre a erosão, os aterros e a transformação da linha de costa.

Na parte final da entrevista, o arquiteto relacionou a poluição atmosférica ao modelo de mobilidade dominante nas grandes cidades. Segundo ele, a maior parte da poluição do ar está associada ao uso intensivo de automóveis movidos a combustão, o que exige pensar transporte, distâncias urbanas e prioridade ao transporte coletivo. Já a poluição sonora foi vinculada por ele a uma combinação de desorganização urbana, ausência de educação coletiva e deterioração de referências comunitárias, em meio a uma sociabilidade cada vez mais marcada por excesso, individualismo e desrespeito à vizinhança.

Mais do que elencar problemas, a entrevista de Napoleão Ferreira expôs a necessidade de repensar Fortaleza a partir de uma visão integrada entre cidade, meio ambiente e justiça social. A degradação não aparece, em sua leitura, como fatalidade da natureza nem como mero efeito colateral do crescimento. Ela é produto de escolhas políticas, econômicas e urbanísticas acumuladas no tempo. E, justamente por isso, pode e deve ser enfrentada com planejamento, participação social e compromisso real com a preservação do território.

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