A travessia de Ciro rumo ao bolsonarismo religioso

Por Sara Goes

Teimo em falar sobre Ciro Gomes há quase dez anos na mídia progressista. Nesse período, percebi que a dificuldade de enxergar sua trajetória não estava restrita a uma parcela de jornalistas, que abraçaram com fervor e credulidade que estavam diante de um gênio. São homens que frequentemente se consideram mais à esquerda que Lula, mais modernos que Lula, mais esclarecidos que Lula ou mais preparados para compreender os desafios do país do que Lula. Alguns votam no PT. Outros toleram com respeito sua existência. Muitos dedicaram anos a criticar o partido e continuam procurando argumentos para justificar essa posição. O que os aproxima não é uma identidade ideológica rígida, mas a busca permanente por alguém que possa ocupar o lugar simbólico de Lula sem carregar aquilo que Lula representa. Querem um líder popular, mas menos popular. Um líder de massas, mas menos vinculado às massas. Um líder progressista, mas menos petista. Um líder nacional, mas menos nordestino. Ou, para ser mais preciso, alguém que carregue um Nordeste higienizado e confortável, desses que costumam aparecer nas biografias de políticos apresentados como “filhos de nordestinos”.

Por isso a mídia progressista passou anos sendo menos rigorosa com Ciro Gomes do que foi com Lula, porque Ciro ocupava uma função simbólica importante: representava a esperança de encontrar finalmente um substituto que parecesse mais compatível com a imagem que esses setores fazem de um líder político ideal.

Por isso, acompanhar sua trajetória política produziu uma experiência curiosa. Enquanto alianças mudavam, discursos se transformavam e aproximações antes impensáveis passavam a ocorrer diante dos olhos de todos, muitos observadores continuavam enxergando não o personagem concreto, mas a imagem idealizada que haviam construído para ele. Houve momentos em que minhas observações sobre esse processo foram recebidas com impaciência, condescendência e até hostilidade. O problema não era a ausência de fatos. O problema era a resistência em aceitar o significado daqueles fatos.

Os acontecimentos recentes em Barbalha ajudam a compreender por quê. A reprimenda feita por um padre durante a tradicional festa de Santo Antônio não pode ser tratada como um episódio menor do calendário político cearense. Quando um sacerdote interrompe uma celebração religiosa para pedir respeito ao ambiente litúrgico diante de manifestações políticas que provocam tumulto entre os fiéis, a discussão ultrapassa os limites da disputa partidária. O que aparece ali é o resultado visível de movimentos políticos que vêm se acumulando há anos e que, até recentemente, muitos preferiram ignorar.

Os relatos de católicos incomodados com gritos, provocações e demonstrações de militância durante a celebração não surgem do nada. O Ceará já conheceu situações semelhantes. Em 2010, durante os festejos de São Francisco, em Canindé, um padre criticou o uso político de símbolos religiosos e advertiu que ninguém poderia falar em nome da Igreja. José Serra e Tasso Jereissati estavam presentes. O sacerdote classificou aquela instrumentalização da religiosidade popular como uma forma de profanação. O episódio produziu repercussão nacional e deixou uma advertência que permanece atual ao expulsar um ex-governador e um então candidato a presidência de uma missa. Quando a política invade o altar para subordinar a experiência religiosa aos seus interesses imediatos, deteriora simultaneamente a política e a própria vivência da fé.

A lembrança daquele episódio ganha relevância porque ajuda a iluminar os acontecimentos atuais. Em Barbalha, não estava presente apenas Ciro Gomes. Também estavam visíveis algumas das alianças e reaproximações que vêm redesenhando sua posição política nos últimos anos. Tasso Jereissati foi o principal responsável pela ascensão política de Ciro. Sob sua liderança, o então jovem político chegou ao centro do poder cearense. Depois vieram as rupturas, as acusações mútuas, os rompimentos públicos e a construção de uma narrativa segundo a qual ambos representariam projetos incompatíveis para o Ceará. Os acontecimentos recentes indicam que essa distância finalmente acabou.

Na celebração de Santo Antônio que acabaria marcada pela intervenção do sacerdote, Ciro Gomes estava acompanhado justamente de algumas das principais lideranças desse campo político. Ao seu lado encontravam-se o pastor Alcides Fernandes e Capitão Wagner, político evangélico conservador cuja trajetória, marcada por sucessivas metamorfoses ideológicas e candidaturas frustradas, guarda semelhanças que dificilmente passariam despercebidas a observadores menos generosos.

A presença conjunta dessas lideranças numa das mais tradicionais manifestações do catolicismo popular nordestino possui significado político próprio. Ela evidencia uma convergência que vai muito além de alianças eleitorais circunstanciais. E o bolsonarismo produziu exemplos eloquentes desse comportamento. Em 2022, durante as celebrações de Nossa Senhora Aparecida, militantes bolsonaristas promoveram tumultos, hostilizaram funcionários da TV Aparecida e transformaram um dos principais símbolos do catolicismo brasileiro em palco de confronto político. O episódio não dizia respeito apenas à disputa eleitoral daquele momento. Revelava uma concepção segundo a qual espaços religiosos deveriam ser incorporados à lógica da militância e submetidos às necessidades da guerra política cotidiana.

A reação observada em Barbalha precisa ser compreendida dentro desse contexto. Muitos católicos identificam nesses comportamentos uma tentativa de transportar para o interior das celebrações religiosas práticas que se tornaram comuns em determinados setores do bolsonarismo. O desconforto não nasce apenas da divergência política. A festa de Santo Antônio de Barbalha não é uma celebração qualquer, ela marca simbolicamente a abertura do ciclo junino e ocupa um lugar central na cultura popular da região, combinando religiosidade, tradição e identidade coletiva.

Neste ano, a celebração recebeu atenção nacional incomum. A presença de artistas, personalidades públicas e figuras como o ex-jogador Raí despertou o interesse da imprensa do Sudeste e ampliou a visibilidade do evento muito além do Cariri. Foi nesse ambiente que a presença de Ciro Gomes acompanhado por lideranças do bolsonarismo religioso foi interpretada por muitos participantes como algo mais grave do que uma manifestação partidária comum: uma demonstração de desrespeito a uma das mais importantes expressões culturais e religiosas do Nordeste.

Nesse cenário, a recente declaração de Ciro Gomes em defesa de seus aliados bolsonaristas possui um peso político considerável. Ao afirmar que seus bolsonaristas seriam homens honrados e diferentes daqueles associados a escândalos ou investigações, ele não apenas protegeu aliados circunstanciais. Demonstrou que a associação com esse campo político deixou de representar um constrangimento e passou a integrar sua estratégia de reposicionamento.

Barbalha se torna simbólica porque condensou, em poucas horas, processos que vinham se desenvolvendo há anos diante dos olhos de todos. A reaproximação com lideranças do bolsonarismo religioso e a crescente convergência com setores conservadores deixaram de ser movimentos dispersos para compor um quadro coerente. E recordo uma frase atribuída a Santo Agostinho: “Senhor, faz-me bom, mas não agora”. A força dessa frase reside no reconhecimento de uma fraqueza humana bastante comum. Nem sempre recusamos uma evidência porque ela seja insuficiente. Muitas vezes a recusamos porque suas consequências são desconfortáveis. Aceitar determinados fatos exige revisar convicções, abandonar expectativas e admitir que algumas interpretações estavam erradas.

Foi exatamente isso que ocorreu ao longo dos últimos anos em relação a Ciro Gomes. Os sinais estavam presentes. As alianças eram públicas. As declarações estavam registradas. Os movimentos podiam ser acompanhados por qualquer observador atento. Nunca houve escassez de evidências. O que existiu foi uma dificuldade persistente em reconhecer para onde apontavam.

Durante muito tempo, uma parte da mídia progressista e homens tão tão inteligentes deste campo pareceu repetir uma versão política da oração de Santo Agostinho: “Mostra-me quem é Ciro Gomes, mas não agora.”

O agora, contudo, chegou. Quanto tempo mais será necessário para que seus admiradores aceitem que não estavam diante de um homem traído pelo próprio temperamento, mas de alguém que, passo a passo, caminhou exatamente para onde desejava chegar?

Ao final da vida, Santo Agostinho escreveu uma das mais belas confissões da tradição cristã: “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei”. Era o reconhecimento de quem finalmente admitia que ela estivera diante de seus olhos o tempo inteiro. Talvez parte do campo progressista precise fazer sua própria versão dessa confissão. Quanto tempo mais será necessário para que reconheçam que passaram décadas procurando um substituto para um lugar que julgavam vago, enquanto a resposta para essa inquietação política esteve o tempo inteiro diante deles?

Talvez um dia também precisem dizer, à sua maneira: tarde compreendemos. Tarde enxergamos.

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