Atitude Popular

“A única saída para a paz é a revolução”, diz Mônica Martins

No Café com Democracia, professora relaciona guerra no Sudão à disputa imperialista por rotas e riquezas e critica o silêncio global diante da maior crise de deslocamento do planeta

A guerra civil no Sudão, que explodiu em abril de 2023, tornou-se um dos conflitos mais devastadores e menos acompanhados do mundo, apesar do impacto humanitário em escala continental. O tema foi debatido no programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, em entrevista do apresentador Luiz Regadas com a socióloga Mônica Martins, a partir de uma chave interpretativa direta: sem encarar o imperialismo e a disputa internacional por recursos e posições estratégicas, não há como entender por que a violência se prolonga e se aprofunda.

Esta matéria foi produzida com base na entrevista exibida no Café com Democracia, da Atitude Popular, a partir da transcrição fornecida.

Um conflito “invisível” e uma crise humanitária recorde

Logo no início, a entrevistada destacou o contraste entre a gravidade do conflito e o baixo nível de atenção internacional. Para Mônica, persiste um filtro colonial na forma como a África é narrada, reduzida a estereótipos de fome, barbárie e “guerras sem causa”, o que ajuda a normalizar a catástrofe.

O que está em jogo, porém, é mensurável e brutal. O conflito entre as Forças Armadas sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) produziu uma crise de deslocamento que já é descrita por organismos humanitários como a maior emergência desse tipo no mundo, com dezenas de milhões necessitando de assistência e milhões expulsos de suas casas. (ACNUR)

A degradação das condições de sobrevivência tem se refletido no avanço da fome e da desnutrição em áreas especialmente atingidas, como Darfur, com alertas recentes de monitores internacionais para níveis compatíveis com fome em localidades do norte da região. (Reuters)

Mar Vermelho, riquezas minerais e a lógica da guerra como negócio

Provocada por Regadas sobre o papel do Mar Vermelho e da disputa internacional por recursos naturais, Mônica sustentou que a guerra não pode ser lida apenas como “fragmentação interna”. Em sua análise, potências estrangeiras alimentam o conflito porque a guerra cumpre funções econômicas e geopolíticas: abre mercados para armas, favorece redes de extração e contrabando, e reconfigura controle territorial de riquezas.

Essa dimensão aparece, por exemplo, na discussão sobre a economia da guerra em torno do ouro sudanês e de sua militarização, frequentemente apontada por analistas como um fator que atrai atores externos e reforça a capacidade de financiamento dos grupos em disputa. (ISPI)

A entrevistada descreveu, ainda, como narrativas simplificadoras — “guerras tribais”, “ódios ancestrais” — obscurecem a longa história de dominação e disputa sobre corredores e recursos, uma chave que ela reconstrói ao lembrar que o Sudão foi moldado por sucessivas interferências externas, do domínio turco-egípcio ao condomínio anglo-egípcio sob hegemonia britânica.

Do colonialismo às guerras civis e ao colapso do Estado

Mônica organizou a cronologia recente do país lembrando que, após a independência em 1956, o Sudão atravessou duas longas guerras civis (1955–1972 e 1983–2005), até que o acordo de paz levou ao referendo e, finalmente, à independência do Sudão do Sul em 2011. Desde então, a instabilidade seguiu: o golpe de 2021 e a ruptura entre forças antes aliadas pavimentaram o cenário para a explosão da guerra em 2023, com colapso de serviços essenciais, violência generalizada e ataques contra civis e trabalhadores humanitários — uma dinâmica que tem se agravado em regiões sob cerco e sem acesso regular a ajuda. (Reuters)

O ponto central do argumento é que, para ela, não se trata de “um desvio”, mas de uma engrenagem. “Cenário de guerra civil é excelente para a indústria armamentista”, afirma a socióloga na entrevista, destacando o incentivo estrutural para a permanência do conflito.

“Não há solução negociada”: a tese e a polêmica

Ao ser questionada sobre caminhos diplomáticos e sobre como elites e facções internas dificultam soluções negociadas, Mônica respondeu com uma posição contundente: “Não há solução negociada para o conflito, porque as potências europeias, o imperialismo estadunidense não permite que isso se resolva”.

A fala, de tom militante, culmina em sua frase mais forte no programa: “A única saída para a paz é a revolução, é a luta de classes, é derrubar esses ricos e poderosos. Não existe outra”. A professora defende que o internacionalismo é indispensável e que nenhum povo se liberta isoladamente — nem o Sudão, nem a Palestina — porque o sistema que produz a guerra é transnacional.

Para sustentar a tese sobre a concentração crescente de poder econômico, a entrevistada mencionou dados do World Inequality Report 2026, que aponta o grau extremo de concentração de riqueza no topo da pirâmide global — um cenário em que uma fração minúscula de ultrarricos concentra riqueza comparável (ou superior) à metade mais pobre da humanidade. (World Inequality Report 2026)

Um debate que mira o silêncio e disputa narrativa

A entrevista termina com um chamado à organização “além das fronteiras” e à conexão entre lutas sociais diversas: salário, combate à violência, justiça climática e serviços públicos, articuladas numa estratégia internacionalista.

Num ambiente informativo em que o Sudão aparece, muitas vezes, apenas como nota periférica — quando aparece —, o programa aposta no inverso: reconstruir causas históricas, evidenciar interesses externos e tratar a guerra como produto de uma ordem econômica global. Ao fazer isso, Mônica Martins e Luiz Regadas colocam o Sudão no lugar que a agenda internacional frequentemente recusa: o de tema central para entender como o mundo funciona quando a guerra vira método e mercado.

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