No Café com Democracia, a historiadora e arquivologista Marcília Gama afirma que o Brasil ainda falha em abrir plenamente os arquivos da ditadura, denuncia o peso do negacionismo sobre o golpe de 1964 e cobra memória, verdade e reparação
Em entrevista ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, exibido em 8 de abril e apresentado por Luiz Regadas, a professora doutora em História e especialista em Arquivologia Marcília Gama fez uma análise contundente sobre os 62 anos do golpe de 1964, defendendo a abertura ampla dos arquivos da repressão, criticando o negacionismo em torno da ditadura militar e afirmando que o Brasil ainda não construiu uma política adequada de memória e justiça sobre o período.
Ao longo da conversa, Marcília destacou que uma das distorções mais persistentes sobre 1964 é a tentativa de apresentar o golpe como “revolução” e os militares como restauradores da democracia. Para ela, essa narrativa falseia deliberadamente a história e encobre a dimensão autoritária do regime que se instalou no país por 21 anos. “Alguns segmentos da sociedade e inclusive parte significativa das Forças Armadas insistem em dizer que não houve golpe, mas sim uma revolução”, afirmou. Em seguida, rebateu essa versão ao lembrar que o processo foi resultado de uma articulação política e militar voltada a barrar reformas, reprimir forças populares e eliminar toda influência identificada como socialista ou comunista.
Segundo a professora, o golpe não começou propriamente em abril de 1964, mas vinha sendo gestado desde a crise de 1961, quando setores conservadores já tentavam impedir a posse de João Goulart. “O Estado brasileiro foi tomado de surpresa, numa articulação tremenda que foi feita e já começou nos bastidores em 61 para impedir a posse de João Goulart”, disse. Na sua leitura, o desfecho de 1964 consolidou um projeto autoritário que produziu sequelas profundas e ainda mal resolvidas. “Levou o país a 21 anos de um regime autoritário que trouxe enormes sequelas para a história do Brasil, sobretudo mortos e desaparecidos políticos que até hoje ninguém sabe o paradeiro.”
Um dos eixos centrais da entrevista foi o papel dos arquivos públicos e privados na reconstrução da verdade histórica sobre a ditadura. Marcília, que atua diretamente com esse tipo de acervo, sustentou que o acesso amplo à documentação da repressão poderia mudar de forma significativa a percepção social sobre o período. “Se o acesso aos arquivos do DOPS fosse amplo, a sociedade estaria com outra visão”, afirmou. Ela se referia ao acervo produzido pela antiga Delegacia de Ordem Política e Social, estrutura criada ainda na Era Vargas e depois integrada à engrenagem de vigilância, repressão e censura que atravessou décadas da história republicana brasileira.
Para a professora, esse conjunto documental é decisivo porque reúne provas concretas da violência de Estado. “É um manancial de informações riquíssimas de todos os níveis, mas sobretudo das violações gravíssimas praticadas contra a sociedade civil”, declarou. Em sua avaliação, os documentos do DOPS e de outros órgãos repressivos são fundamentais para desmontar a tese de que a ditadura brasileira teria sido “branda” ou menos violenta do que outras ditaduras sul-americanas.
Marcília chamou atenção para o fato de que parte expressiva desses arquivos segue inacessível ou em condições precárias de consulta. Segundo ela, ainda há documentação essencial sob sigilo, especialmente nos arquivos das Forças Armadas, além de problemas físicos e administrativos que dificultam o trabalho de pesquisadores e servidores. Ao relatar a situação do arquivo público de Pernambuco, ela afirmou que parte da documentação está guardada em um anexo interditado, sem condições adequadas de acesso. “É uma documentação inédita, riquíssima e que as pessoas não teve ainda acesso”, lamentou.
Ao falar sobre o conteúdo desses acervos, a professora destacou que eles poderiam revelar em maior profundidade o funcionamento da máquina repressiva e ajudar a esclarecer episódios ainda envoltos em sombras. Um dos exemplos citados foi a Guerrilha do Araguaia. “Até hoje é um mistério a Guerrilha do Araguaia, onde estão os corpos das pessoas que foram assassinadas”, disse. Para ela, o bloqueio à informação não é casual, mas parte de uma estratégia histórica de ocultação. “A essência dessa documentação ainda está sobre sigilo, sobretudo nos arquivos das Forças Armadas.”
Questionada sobre os números oficiais da repressão, Marcília concordou que eles podem ser maiores do que o reconhecido publicamente, justamente porque muitos registros foram destruídos ou ocultados. “Parte desses registros foram apagados, foram queimados, foram eliminados”, afirmou. Na sua análise, a destruição documental integra o próprio mecanismo de impunidade, ao impedir que a sociedade conheça plenamente a extensão dos crimes de Estado.
A entrevista também destacou a importância de Pernambuco na estrutura repressiva da ditadura. Segundo Marcília, o Recife ocupava posição estratégica numa rede de vigilância e informação que articulava o Norte e o Nordeste do país. “Aqui era uma unidade que referenciava essa vigilância do Norte e Nordeste”, explicou. Por isso, os arquivos pernambucanos concentram prontuários e documentos sobre pessoas perseguidas em diferentes estados, inclusive do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba e de Alagoas.
A professora descreveu a engrenagem repressiva como um sistema permanente de espionagem, interrogatórios e monitoramento. “É um sistema de vigilância e controle permanente”, disse. Em sua fala, destacou que essa estrutura não era improvisada nem pontual, mas onerosa e sofisticada, envolvendo arapongas, policiais, interrogadores e colaboração entre diferentes órgãos estatais. Ela citou, por exemplo, a atuação do delegado Sérgio Fleury em Pernambuco e mencionou a ação de Cabo Anselmo na emboscada que vitimou militantes da VPR e outras organizações de resistência na chamada Chacina da Granja São Bento, inclusive Soledad Barrett, então grávida de quatro meses.
Marcília lembrou que a versão oficial sobre muitos desses episódios foi construída para encobrir a violência direta do Estado. “A polícia ainda forja que houve um tiroteio, não houve, foi chacina mesmo”, ressaltou o apresentador Luiz Regadas, numa observação acompanhada pela entrevistada. Ela afirmou que as fotos e os registros documentais ajudam justamente a desmontar essas simulações e a revelar a vulnerabilidade das vítimas e a falsificação montada pelos órgãos de repressão.
Ao responder sobre a contribuição da arquivologia no combate ao negacionismo, Marcília defendeu que a área tem papel estratégico porque organiza, cataloga, higieniza e torna acessível a documentação que pode ser usada em pesquisas, investigações e produções historiográficas. “A importância da arquivologia é que ela cataloga, organiza, higieniza, trata essa documentação e deixa ela acessível”, afirmou. Ao mesmo tempo, lamentou que Pernambuco ainda não tenha um curso de graduação em Arquivologia e que os arquivos públicos dependam do esforço de profissionais de áreas diversas, como História, Educação e Sociologia, que assumem esse trabalho de forma abnegada.
A professora também vinculou a repressão brasileira ao papel dos Estados Unidos na formação e treinamento de agentes da ditadura. “Os tiranos, os investigadores, os interrogadores, os espiões, eles ficavam recebendo treinamento dos Estados Unidos, da CIA”, afirmou. Segundo ela, isso não ocorreu apenas no Brasil, mas se inscreveu numa lógica continental de combate às esquerdas e de apoio a regimes autoritários na América do Sul. Marcília acrescentou que existem apostilas e registros documentais que mostram inclusive métodos de interrogatório e tortura ensinados a serviço dessa política de repressão.
Um dos trechos mais fortes da entrevista veio quando a historiadora relatou casos investigados atualmente pela Comissão da Verdade e Memória da Universidade Federal Rural de Pernambuco, da qual é presidente. Ela citou o caso do estudante de Agronomia Odias Carvalho de Souza, morto após sessões de tortura. Segundo Marcília, a versão oficial afirmava que ele teria morrido de embolia pulmonar, mas a investigação posterior revelou outro quadro. “Na realidade ele teve ruptura múltipla dos órgãos, baço, fígado, pulmão, intestino, rim, de tanto espancamento”, disse. Em seguida, reforçou a necessidade de romper o silêncio histórico. “Isso a gente não pode silenciar. A gente tem que trazer à tona.”
Ao ser perguntada se o Brasil conseguiu construir uma política de memória e justiça adequada sobre a ditadura, a resposta foi taxativa. “Não conseguiu”, afirmou. Na avaliação da professora, o país segue em dívida com o passado porque interrompeu ou enfraqueceu mecanismos importantes da chamada justiça de transição, que envolve direito à verdade, reparação moral e material, reconhecimento das vítimas e construção de políticas de memória. Para ela, o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 representou mais um golpe sobre esse processo, ao comprometer uma agenda que tentava escancarar as estruturas de violência herdadas da ditadura.
Marcília elogiou a criação da Comissão Nacional da Verdade, instituída em 2011, mas observou que ela não conseguiu rastrear plenamente as informações necessárias justamente por causa da opacidade documental e da resistência institucional em abrir os arquivos. Ainda assim, considerou que a iniciativa foi fundamental ao menos para romper o silêncio e organizar parte das provas. “Dilma foi uma gigante ao implementar todos os mecanismos para trazer à tona esse passado”, afirmou.
Para a professora, o Brasil precisa avançar na construção de um ordenamento jurídico e político que consolide a reparação histórica. Ela citou iniciativas como Marcas da Memória, Caravanas da Anistia e o Memorial da Anistia Política do Brasil, mas sustentou que ainda falta transformar essas ações em política de Estado robusta e duradoura. Em sua leitura, a memória das vítimas precisa ser compartilhada com toda a sociedade e não restrita a círculos acadêmicos ou militantes.
A entrevista terminou com uma defesa enfática da memória como instrumento democrático. “A verdade precisa vir à tona com a documentação, com as fotos, com os registros”, afirmou Marcília. Em seguida, classificou como falseamento histórico a insistência em negar o caráter ditatorial do regime implantado em 1964. “A narrativa que se cria depois disso para dizer que não houve ditadura aqui, ela, infelizmente, é uma terrível mentira”, disse. Para ela, insistir na denúncia e na abertura dos arquivos é uma tarefa permanente para impedir que o país repita sua própria história de violência e apagamento.
Ao final da conversa, a professora também indicou obras e filmes que ajudam a compreender o período. Entre os livros, citou Brasil: nunca mais, associado a Dom Paulo Evaristo Arns, os relatórios das comissões da verdade e a coletânea Pernambuco na mira do golpe. Entre os filmes, recomendou Cabra marcado para morrer, O agente secreto e Ainda estou aqui, obras que, segundo ela, ajudam a trazer à tona esse passado de violação, vigilância e repressão.
A entrevista no Café com Democracia recolocou em primeiro plano uma questão que o Brasil ainda não resolveu. Mais de seis décadas depois do golpe de 1964, o país segue disputando não apenas interpretações sobre o passado, mas o próprio direito social à verdade. Para Marcília Gama, enquanto os arquivos seguirem fechados, a memória continuar fragmentada e a reparação permanecer incompleta, a democracia brasileira seguirá assombrada por um passado que nunca foi integralmente enfrentado.
Referências
Livros e relatórios
Brasil: nunca mais (1985), organização de Dom Paulo Evaristo Arns e Jaime Wright
Relatório da Comissão Nacional da Verdade (2014), produzido pela Comissão Nacional da Verdade
Relatório da Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara (2017), produzido pela Comissão Estadual de Pernambuco
Pernambuco na mira do golpe (2021), organização de Marcília Gama da Silva e Thiago Nunes Soares
Filmes
Cabra marcado para morrer (1984), direção de Eduardo Coutinho
O agente secreto (2025), direção de Kleber Mendonça Filho
Ainda estou aqui (2024), direção de Walter Salles
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