Jornalista analisa o uso eleitoral da insegurança pública, critica a exploração midiática do medo e afirma que a esquerda precisa disputar a narrativa sobre segurança sem negar os avanços obtidos no Ceará
A edição mais recente do programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, recebeu o jornalista Ricardo Moura, editor do blog Escrivania, para uma análise aprofundada sobre o impacto político da violência urbana e o papel da insegurança pública nas disputas eleitorais brasileiras. A entrevista, conduzida por Sara Goes com comentários de Sandra Helena, discutiu como medo, criminalidade e cobertura midiática passaram a ocupar um espaço central na formação da opinião pública e nas campanhas eleitorais.
Ao longo da conversa, Ricardo Moura argumentou que a violência deixou de ser apenas uma questão policial e passou a funcionar como um instrumento permanente de mobilização política. Para ele, existe hoje uma “superprodução de imagens de violência”, alimentada tanto pelos programas policiais quanto pelas redes sociais, o que amplia a sensação coletiva de insegurança.
“A violência tem várias camadas. Existe o fato violento em si e existe a representação desse fato. Essas duas coisas nem sempre estão ligadas”, afirmou o jornalista.
Segundo ele, a multiplicação de vídeos de assaltos, homicídios e agressões produz um ambiente emocional contínuo de medo, mesmo em momentos em que indicadores criminais apresentam queda. Moura lembrou que o Ceará registrou redução nos homicídios nos últimos anos, mas destacou que a percepção social nem sempre acompanha os dados.
“O que ocupa espaço na mídia passa a parecer dominante. E hoje temos uma produção quase infinita de imagens de violência circulando o tempo inteiro”, explicou.
Durante o debate, Sandra Helena chamou atenção para o peso que os telejornais locais exercem na formação dessa percepção. Ela citou a repetição constante de cenas de crimes violentos e questionou os limites éticos da cobertura policial transformada em espetáculo.
Ricardo Moura afirmou que a exploração emocional da violência se tornou parte de uma lógica política e econômica. Para ele, o medo gera consumo de serviços de segurança privada, fortalece discursos autoritários e influencia diretamente escolhas eleitorais.
“As pessoas querem se agarrar a alguém que lhes prometa segurança. Isso abre espaço para figuras que se apresentam como salvadores da pátria”, afirmou.
Ao analisar o cenário político do Ceará, o jornalista comentou o retorno frequente de figuras como Ciro Gomes ao debate sobre segurança pública e criticou a simplificação do tema em discursos eleitorais.
“Não existe uma pessoa sozinha capaz de resolver a segurança pública. Segurança funciona em rede. O Estado participa, mas a sociedade também participa quando espalha pânico, medo e desinformação”, disse.
A entrevista também abordou a expansão das facções criminosas no Brasil e o processo de reorganização territorial do crime organizado. Ricardo Moura defendeu que o fenômeno deve ser compreendido para além do senso comum.
“O crime organizado funciona como empresa. Ele precisa de mercado, clientela e continuidade. A violência excessiva, inclusive, atrapalha o funcionamento econômico dessas organizações”, explicou.
Ele ressaltou que grupos criminosos passaram a ampliar sua atuação para setores formais da economia, como empresas de internet, postos de combustíveis, fintechs e serviços clandestinos de proteção territorial.
“O problema deixa de ser apenas o tráfico e passa a contaminar o mercado formal, o sistema financeiro e estruturas institucionais”, alertou.
A conversa dedicou atenção especial ao avanço do PCC e do Comando Vermelho pelo país. Moura lembrou que São Paulo viveu um processo semelhante ao que o Ceará enfrenta atualmente, com redução de homicídios após a consolidação territorial das facções.
“O Ceará vive hoje algo parecido com o que São Paulo viveu há vinte anos. Isso não significa que o crime acabou. Significa que houve reorganização das disputas territoriais”, afirmou.
O jornalista criticou o que considera uma leitura seletiva sobre segurança pública no debate político nacional. Segundo ele, governos de esquerda raramente recebem reconhecimento por resultados positivos na área, enquanto administrações conservadoras costumam monopolizar o discurso da eficiência policial.
“Nunca governos de esquerda têm responsabilidade pelas melhorias na segurança. Quando piora, a culpa é deles. Quando melhora, dizem que foi obra do crime organizado”, observou.
Ricardo Moura também comentou a dificuldade histórica da esquerda em lidar politicamente com crimes cotidianos, como furtos e roubos de celulares, que afetam diretamente a população trabalhadora.
“A esquerda muitas vezes desconsiderou o impacto do roubo do celular na vida das pessoas. Isso produz indignação legítima e essa dor precisa ser acolhida”, disse.
Nos minutos finais da entrevista, o jornalista avaliou o cenário eleitoral de 2026 no Ceará e afirmou que o governador Elmano de Freitas precisará assumir protagonismo político na defesa das ações de segurança realizadas pelo governo estadual.
“O Elmano precisa encarnar essa mudança. As pessoas precisam associar os resultados a uma liderança política concreta”, afirmou.
Apesar das dificuldades comunicacionais da esquerda diante das fake news e da exploração emocional do medo, Ricardo Moura rejeitou o pessimismo político.
“A campanha nem começou ainda. A esquerda não pode cair nessa melancolia permanente. Se os homicídios diminuíram, isso é bom. E precisa ser dito com clareza”, declarou.
Ao encerrar sua participação, o jornalista defendeu que o debate sobre violência seja tratado com racionalidade e não apenas como instrumento eleitoral.
“A violência é uma chave para compreender a sociedade brasileira. Mas a gente não pode naturalizar o medo como linguagem permanente da política.”
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