Programa Bancos da Democracia debateu as relações entre o modelo chinês, soberania nacional e os desafios da economia solidária no Brasil
Em edição do programa Bancos da Democracia, transmitido pela TV Atitude Popular nesta segunda-feira (25), os professores Renato Dagnino e Delso Oliveira discutiram as relações entre o modelo econômico chinês, o capitalismo periférico brasileiro e as possibilidades de construção de uma economia solidária de caráter estratégico no país. A mediação foi de Sara Goes.
O debate partiu de uma provocação central: seria possível pensar elementos da experiência chinesa a partir da perspectiva da economia solidária brasileira? A conversa reuniu análises históricas, críticas ao neoliberalismo e reflexões sobre soberania econômica, papel do Estado e autogestão popular.
Logo na abertura, Sara Goes chamou atenção para o aprofundamento da crise do capitalismo financeiro e para a urgência do debate sobre alternativas econômicas. “Esse sistema financeiro bancário que a gente vive já ruiu. Isso que a gente está vivendo agora é uma completa falência desse sistema capitalista desumano”, afirmou a apresentadora ao comentar os impactos da financeirização sobre a vida cotidiana.
Renato Dagnino, professor da Unicamp e referência nos estudos sobre tecnologia social e economia solidária, iniciou sua análise diferenciando “estilos” e “modelos” de desenvolvimento. Segundo ele, o Brasil foi historicamente estruturado por dois estilos dominantes: o extrativista e o desenvolvimentista. Ambos, na sua avaliação, mantiveram intacta a lógica de concentração de renda e dependência econômica.
“O Brasil é um dos países mais injustos do mundo. Temos uma das maiores concentrações de renda e um dos salários mínimos mais baixos do planeta”, afirmou. Para Dagnino, a elite econômica brasileira jamais rompeu com a lógica colonial e continua organizada em torno da extração de riqueza, agora combinada à financeirização e à desindustrialização.
Ao analisar o chamado “modelo coreano”, frequentemente citado como referência para países periféricos, o professor argumentou que existe uma leitura superficial sobre o desenvolvimento da Coreia do Sul. Segundo ele, o país asiático tornou-se uma “vitrine do capitalismo” em meio à Guerra Fria, impulsionado por forte intervenção dos Estados Unidos após a ocupação japonesa e a Guerra da Coreia.
Dagnino também apontou que o fascínio contemporâneo pela Coreia do Sul é alimentado por uma poderosa indústria cultural. Sara Goes mencionou que muitos jovens enxergam o país como uma espécie de “paraíso tecnológico”, influenciados pela expansão global do K-pop e dos doramas, enquanto problemas sociais e desigualdades permanecem invisibilizados.
Sobre a China, o professor destacou que o país construiu uma experiência singular, marcada por planejamento estatal, soberania financeira e controle estratégico sobre setores fundamentais da economia. Ainda assim, rejeitou leituras idealizadas.
“O que existe na China hoje é uma sociedade baseada no planejamento, mas com mercado”, explicou. Para ele, embora haja empresas privadas e concentração de renda, o poder político permanece subordinando o capital aos interesses do Estado e do Partido Comunista Chinês.
Dagnino citou o debate público travado entre intelectuais brasileiros como Elias Jabbour e Valério Arcary sobre a natureza do modelo chinês. Enquanto parte da esquerda interpreta a China como uma forma de “capitalismo de Estado”, outra corrente sustenta que o país vive uma experiência própria de socialismo em desenvolvimento.
Já Delso Oliveira, escritor e consultor em gestão e acesso a mercados, defendeu que há pontos de convergência entre a experiência chinesa e a economia solidária. Segundo ele, tanto o socialismo chinês quanto as iniciativas autogestionárias brasileiras compartilham críticas ao liberalismo econômico e ao domínio absoluto do capital financeiro.
“O mercado não é um sujeito invisível. Ele é uma estrutura que pode ser dirigida politicamente”, afirmou. Para Delso, a China demonstra que o mercado pode funcionar subordinado a um projeto nacional de desenvolvimento e não apenas aos interesses privados.
Ao longo da entrevista, o debatedor insistiu que a economia solidária brasileira precisa superar o “localismo” e deixar de ocupar apenas espaços de sobrevivência comunitária. Segundo ele, sem escala, planejamento nacional e articulação política ampla, o setor continuará restrito ao que chamou de “economia da pobreza”.
“A economia solidária precisa se tornar um projeto estratégico de desenvolvimento”, argumentou.
O programa também abordou os limites do governo Lula diante da hegemonia neoliberal. Sara Goes relembrou uma declaração recente do Presidente Lula em encontro internacional de lideranças progressistas.
“Foi muito honesta a fala dele quando disse: ‘Nós estamos apenas administrando o neoliberalismo. Estamos administrando a barbárie’”, comentou a jornalista.
Na avaliação de Renato Dagnino, a ausência de coesão social e de um projeto nacional consistente impede transformações estruturais no Brasil. Para ele, a economia solidária pode assumir, nas condições brasileiras atuais, um papel semelhante ao desempenhado historicamente pelas revoluções socialistas clássicas.
“Já que a revolução socialista não está no horizonte imediato, a economia solidária pode cumprir esse papel histórico”, afirmou.
Delso Oliveira encerrou defendendo que a esquerda brasileira precisa formular um projeto estratégico capaz de articular soberania nacional, planejamento econômico e democratização radical da economia.
“O Estado organiza as condições estruturais e a sociedade democratiza a produção e a riqueza”, resumiu.
A entrevista integrou a série de debates promovida pelo Bancos da Democracia, iniciativa voltada à reflexão sobre finanças solidárias, bancos comunitários e alternativas econômicas populares.
Referências
- Domenico De Masi. O ócio criativo. Sextante, 2000
- Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere. Civilização Brasileira
- Paulo Freire. Pedagogia do oprimido. Paz e Terra, 1968
- Elias Jabbour e Alberto Gabriele. China: o socialismo do século XXI. Boitempo, 2021
- Bong Joon-ho (direção). Parasita. Coreia do Sul, 2019
- Valério Arcary. A excepcionalidade chinesa e O enigma China, A Terra é Redonda.
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