Adalberto Alencar alerta para o Super El Niño: “Não tem irrigação que resolva”

Adalberto Alencar alerta para os efeitos de um possível Super El Niño sobre a produção de alimentos, os recursos hídricos e as cidades brasileiras

Da Redação

A possibilidade de formação de um Super El Niño exige preparação antecipada do poder público para enfrentar períodos mais severos de seca, ondas de calor, enchentes e pressão sobre a produção de alimentos. O alerta foi feito pelo presidente da Fundação Cepema, Adalberto Alencar, durante entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas nesta terça-feira, 7 de julho.

Na entrevista à TV Atitude Popular, Alencar explicou que o El Niño é um fenômeno natural associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico, mas chamou atenção para a interação entre seus episódios mais intensos e um planeta que já registra aumento da temperatura média, alterações nos regimes de chuva e maior frequência de eventos climáticos extremos.

Segundo o ambientalista, a discussão sobre um possível Super El Niño não deve ficar restrita às previsões meteorológicas. Os efeitos podem alcançar a produção agrícola, o abastecimento de água, os preços dos alimentos, a saúde pública e os orçamentos dos governos.

“O El Niño é um processo normal. Você tem o aquecimento das águas do Pacífico, um processo histórico, e isso interfere nos territórios de diferentes formas ao longo dos séculos. Só que, nos últimos anos, os cientistas vêm acompanhando a relação disso com o aquecimento global e as mudanças climáticas”, explicou.

Um fenômeno natural em um planeta mais quente

Adalberto Alencar destacou que as alterações climáticas já podem ser observadas em diferentes regiões do planeta. Ele citou as ondas de calor registradas na Europa e as transformações percebidas nos Alpes suíços, onde o derretimento do gelo afeta paisagens e atividades econômicas relacionadas ao turismo.

Para o presidente da Fundação Cepema, os efeitos não se limitam aos países diretamente atingidos por determinado evento climático. A elevação das temperaturas e as mudanças nos regimes de chuva interferem na agricultura, pressionam os sistemas de saúde e podem provocar impactos econômicos em diferentes regiões.

No Brasil, explicou, os efeitos de um episódio intenso de El Niño podem variar de acordo com a região. O Sul e o Sudeste enfrentam maior risco de chuvas intensas e enchentes, enquanto o Nordeste pode sofrer com estiagens mais severas e crises de abastecimento.

“Na região do Sul e do Sudeste, a probabilidade de grandes enchentes aumenta significativamente. Na região do Nordeste semiárido, você terá mais probabilidade de grandes secas e de crise hídrica”, afirmou.

Na avaliação de Alencar, essas previsões precisam ser incorporadas desde já ao planejamento da Defesa Civil e das instituições responsáveis pela gestão de recursos hídricos, agricultura e saúde.

Produção de alimentos sob pressão

Um dos principais alertas apresentados pelo ambientalista diz respeito à produção agrícola. O aumento da temperatura do solo e da atmosfera pode reduzir a produtividade de determinadas culturas e, em algumas regiões, comprometer a capacidade de produção de alimentos.

Alencar citou estudos desenvolvidos por instituições de pesquisa, universidades e pela Embrapa que acompanham a necessidade de adaptação da agricultura às mudanças climáticas.

O problema, explicou, não pode ser resolvido apenas com a ampliação da irrigação. Cada cultura agrícola necessita de condições específicas de temperatura, umidade e disponibilidade de água. Quando essas condições se alteram rapidamente, a produtividade pode cair mesmo em áreas irrigadas.

Ao comentar as dificuldades enfrentadas pela cafeicultura em regiões que estão se tornando mais quentes, ele resumiu:

“Não tem irrigação que resolva. Não é só o problema de botar água no pé. Isso não resolve.”

Segundo Alencar, os efeitos já podem ser observados em culturas agrícolas submetidas a temperaturas superiores às condições adequadas para seu desenvolvimento. A redução da produtividade pode afetar o preço do café, da carne, do leite e de outros alimentos importantes na composição dos índices de inflação.

“Os alimentos são fundamentais para o cálculo da inflação. Isso pressiona governos e pressiona a democracia”, avaliou.

Ceará já depende da importação de alimentos básicos

Durante a entrevista, Adalberto Alencar chamou atenção para a dependência crescente do Ceará em relação à produção de outros estados.

Segundo ele, o estado já importa produtos como milho, feijão, arroz, fécula de mandioca e óleo. Em um cenário de eventos climáticos mais severos, a vulnerabilidade pode aumentar, especialmente se outras regiões produtoras também enfrentarem perdas agrícolas.

O ambientalista lembrou que cerca de 92% do território cearense está inserido no bioma Caatinga e alertou para o avanço da desertificação, o desaparecimento de nascentes e o impacto do desmatamento em áreas ambientalmente estratégicas.

Entre os exemplos citados está a Chapada do Araripe, importante para o armazenamento e a distribuição de água em diferentes territórios.

“Quando você desmata, aumenta o processo de degradação e perde capacidade hídrica. Você não tem uma fábrica de água. É a natureza que entrega esses bens”, afirmou.

Alencar também mencionou episódios de enchentes e deslizamentos ocorridos no Rio Grande do Sul, na Bahia, em áreas de Mata Atlântica e em Guaramiranga. Para ele, esses acontecimentos demonstram o elevado custo social e econômico da falta de adaptação às novas condições climáticas.

A disputa pela água no litoral oeste do Ceará

Outro ponto abordado na entrevista foi a pressão crescente sobre os recursos hídricos do litoral oeste cearense. Alencar explicou que o crescimento urbano, a expansão do turismo, a atividade industrial, a construção civil e a agricultura disputam uma oferta limitada de água.

O ambientalista citou municípios como Itapipoca, Paracuru e Trairi como exemplos de territórios que passam por forte crescimento urbano e econômico. Segundo ele, a ampliação da ocupação do litoral exige planejamento hídrico compatível com a capacidade ambiental da região.

A produção de coco foi utilizada para demonstrar a dimensão do problema. O Ceará é um dos principais produtores nacionais, mas a atividade exige grandes volumes de água, especialmente em cultivos irrigados.

Para Alencar, o debate sobre a chamada água virtual, o volume utilizado para produzir mercadorias posteriormente exportadas, precisa fazer parte da discussão sobre desenvolvimento econômico no semiárido.

“Você tem economias ameaçadas. O Ceará hoje literalmente exporta água”, observou.

O problema se agrava quando produtores e empreendimentos recorrem simultaneamente à perfuração de poços profundos durante períodos de estiagem. Com a retirada intensiva de água subterrânea, o nível dos lençóis freáticos pode diminuir, aumentando a vulnerabilidade das comunidades e das atividades produtivas.

Desmatamento reduz capacidade de adaptação

O presidente da Fundação Cepema afirmou que as políticas de adaptação climática precisam enfrentar diretamente o desmatamento da Caatinga e de áreas de serra.

Ele citou a redução do desmatamento em partes da Amazônia Legal durante o governo do Presidente Lula e mencionou a criação de uma política nacional de proteção da Caatinga como avanços importantes, mas insuficientes diante da dimensão do problema.

Alencar criticou a lógica de substituição da vegetação nativa por monoculturas sem planejamento de longo prazo. Segundo ele, uma atividade pode produzir retorno econômico imediato e, posteriormente, sofrer com a própria degradação ambiental que ajudou a provocar.

“A curto prazo, isso é um ganho econômico significativo. A médio prazo, é uma tragédia para a própria produção que está ali estabelecida”, afirmou.

Para o ambientalista, fiscalização e repressão aos crimes ambientais são necessárias, mas precisam ser acompanhadas por políticas capazes de oferecer alternativas aos produtores rurais.

Ciência já oferece caminhos para adaptação

Adalberto Alencar defendeu maior utilização das tecnologias desenvolvidas pela Embrapa, universidades e centros de pesquisa.

Entre as alternativas mencionadas estão sistemas agroflorestais, sombreamento de determinadas culturas e modelos de produção que associam árvores, pastagem e criação de animais adaptados às condições do semiárido.

O convidado citou experiências com café sombreado e pesquisas desenvolvidas no Ceará para integrar produção animal e preservação ambiental.

Também destacou o potencial de espécies nativas da Caatinga, como sabiá e jurema, em sistemas produtivos adaptados ao clima regional. Essas plantas podem contribuir para alimentação animal, recuperação do solo, produção de biomassa e conservação da umidade.

Alencar citou ainda o caso da produção de manga em Petrolina, onde, segundo ele, agricultores enfrentaram redução da produtividade associada às temperaturas mais elevadas. A situação levou ao desenvolvimento de técnicas de proteção das plantas contra o excesso de calor.

O exemplo, segundo o ambientalista, demonstra que a irrigação, isoladamente, não garante a produtividade em um cenário de mudanças climáticas.

O debate sobre espécies exóticas

A entrevista também abordou a presença do nim indiano nas cidades cearenses. Questionado sobre os impactos da espécie, Alencar argumentou que o problema central está relacionado à forma de manejo.

Para ele, espécies exóticas não devem ser analisadas de maneira isolada. O risco aumenta quando prefeituras ou produtores substituem a diversidade vegetal por grandes concentrações de uma única espécie.

“Quando você faz uma monocultura, pega um prefeito, resolve tirar as espécies nativas e plantar só nim, você vai ter problema”, afirmou.

Alencar defendeu a diversificação da arborização urbana e afirmou que a retirada de árvores adultas precisa ser planejada. Em áreas com deficiência de cobertura vegetal, a remoção sem substituição adequada pode ampliar as ilhas de calor.

Segundo ele, quando houver necessidade de substituição, o processo deve ser gradual, permitindo que novas árvores se desenvolvam antes da retirada das antigas.

Nascentes precisam ser identificadas e protegidas

Na parte final da entrevista, Adalberto Alencar apresentou propostas de prevenção para o Ceará.

Uma das prioridades, segundo ele, deveria ser a realização de um inventário das nascentes existentes no estado. O levantamento permitiria identificar áreas prioritárias para proteção e recuperação.

“Como é que nós vamos proteger as nascentes que nós já temos? Como é que nós vamos recuperar uma nascente?”, questionou.

O ambientalista defendeu a implantação de programas de pagamento por serviços ambientais, nos quais agricultores recebem recursos para conservar nascentes e áreas importantes para o abastecimento de comunidades rurais e urbanas.

Também propôs uma articulação com os Ministérios Públicos Estadual e Federal para enfrentar o desmatamento, acompanhada de incentivos econômicos que demonstrem ao produtor rural as vantagens da conservação ambiental.

Defesa Civil e reuso de água

Alencar defendeu o fortalecimento das estruturas de monitoramento e prevenção de desastres no Ceará. Segundo ele, o estado dispõe de capacidade científica e tecnológica, mas precisa transformar o conhecimento disponível em políticas permanentes de preparação para eventos extremos.

O reuso de água foi apontado como uma medida indispensável para o semiárido. O ambientalista criticou o desperdício de água tratada em atividades que poderiam utilizar outras fontes.

Segundo ele, condomínios, empreendimentos turísticos e grandes consumidores deveriam ser estimulados, e em determinados casos obrigados, a implantar sistemas de reaproveitamento.

A proteção das sementes crioulas e o desenvolvimento de modelos agrícolas adaptados às condições climáticas regionais também foram apontados como medidas necessárias.

Para Alencar, a preparação para um possível Super El Niño precisa ser incorporada às políticas públicas antes da chegada dos efeitos mais severos. O Ceará possui centros de pesquisa, universidades e experiências produtivas capazes de orientar esse processo, mas ainda precisa ampliar a proteção das nascentes, reduzir o desmatamento e adaptar as atividades econômicas a uma realidade climática em transformação.

Ao concluir, o ambientalista defendeu que o conhecimento científico seja transformado em experiências concretas e políticas permanentes.

“Nós precisamos colocar em prática na educação básica e nas escolas. Precisamos fazer isso também na área rural, com sistemas adaptativos, proteção das nossas nascentes e investimento no combate à desertificação”, concluiu.

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