Jovem usou dados verdadeiros do Presidente Lula, deixou o próprio telefone e e-mail no cadastro e afirmou que pretendia demonstrar a fragilidade do procedimento; partido bloqueou a filiação antes que ela chegasse ao sistema do TSE
Da Redação
Um adolescente de 16 anos assumiu ter sido o responsável pela tentativa de filiar o Presidente Lula ao Missão, partido ligado ao MBL. Segundo o jovem, a iniciativa foi uma “brincadeira” destinada a demonstrar que o sistema utilizado para filiações partidárias permitiria que uma pessoa se passasse por outra.
O caso ocorreu na quinta-feira (13), pouco depois de Flávio Bolsonaro (PL) aparecer no sistema da Justiça Eleitoral como filiado ao mesmo partido sem ter solicitado a mudança. Diferentemente do episódio envolvendo Flávio, a tentativa de filiação de Lula foi identificada e cancelada pelo Missão antes que o registro fosse processado no sistema Filia, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
As informações foram publicadas originalmente pelo Metrópoles e reproduzidas pela RT Brasil nesta sexta-feira (14).
Adolescente deixou o próprio telefone no cadastro
O autor da tentativa não tomou grandes precauções para esconder sua identidade. No formulário preenchido em nome de Lula, o adolescente informou seu próprio número de celular, que também funciona como sua chave Pix.
O e-mail utilizado também continha elementos que permitiam chegar ao jovem, incluindo seu nome, o número 2019 e uma referência ao Flamengo. Segundo o Missão, o cadastro em nome de Lula foi realizado às 14h46 de quinta-feira.
Para preencher a solicitação, foram utilizados dados verdadeiros do Presidente Lula, entre eles CPF, número do título eleitoral e data de nascimento. Como endereço, foi informado o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
“Só para mostrar que o sistema do TSE é falho”
O adolescente admitiu ter realizado o procedimento e afirmou que pretendia demonstrar uma vulnerabilidade no processo de filiação.
“O TSE tem um sistema que qualquer pessoa pode ‘se passar pela outra’, e o errado aqui sou eu? Não seria mais fácil colocar uma dificuldade maior no sistema?”, questionou.
O jovem também disse que não imaginava que a iniciativa produziria consequências mais sérias. Segundo seu relato, seus pais sequer tinham conhecimento do que havia feito.
“Eles não sabem que eu fiz isso. Desculpa se fiz algo muito errado, não achei que ia ser algo sério”, declarou.
Lula nunca chegou a ser registrado como filiado ao Missão
Apesar de o adolescente ter conseguido preencher o formulário com informações verdadeiras do Presidente Lula, a tentativa não alterou sua situação partidária.
O Missão identificou o cadastro e cancelou o procedimento antes que qualquer registro automatizado fosse processado no sistema Filia do TSE. Lula permaneceu regularmente filiado ao PT.
Depois da ocorrência, o Missão decidiu suspender seu sistema de filiação pela internet. A legenda também encaminhou as informações sobre o adolescente à Justiça Eleitoral.
Caso ocorre depois de fraude contra Flávio Bolsonaro
A iniciativa do adolescente ocorreu após a repercussão de um episódio semelhante envolvendo Flávio Bolsonaro. Nesse caso, a filiação irregular avançou até o sistema eleitoral e provocou consequências para o candidato do PL.
Flávio apareceu como integrante do Missão apesar de afirmar que nunca solicitou ingresso na legenda. A alteração comprometeu temporariamente sua situação partidária e atrasou o registro de sua candidatura à Presidência pelo PL.
A Justiça Eleitoral posteriormente restabeleceu sua filiação ao PL. O caso passou a ser investigado para identificar quem utilizou as credenciais partidárias para realizar a operação.
Não há indicação de que o adolescente que tentou filiar Lula seja responsável pelo registro irregular de Flávio.
Missão entrega informações à Justiça Eleitoral
Os dados sobre a tentativa envolvendo Lula foram encaminhados pelo Missão à Justiça Eleitoral no mesmo processo em que a legenda denuncia falsidade ideológica no caso de Flávio Bolsonaro.
O presidente do Missão e candidato à Presidência, Renan Santos, afirmou que o partido colaborará com as investigações para que os responsáveis pelas irregularidades sejam identificados.
A tentativa feita pelo adolescente também expõe uma diferença importante entre os dois episódios. No caso de Lula, o formulário preenchido pela internet ainda dependia de processamento e foi bloqueado pelo partido. No de Flávio, a alteração chegou efetivamente ao sistema da Justiça Eleitoral.
A facilidade com que um adolescente conseguiu reunir informações suficientes para iniciar uma filiação em nome do Presidente da República, porém, acrescenta um elemento concreto à discussão sobre os mecanismos utilizados para confirmar a identidade de quem solicita ingresso em um partido político.
