Atitude Popular

“Agroecologia é um compromisso com a vida”

Presidente da Fundação Cepema, Adalberto Alencar anuncia criação da primeira cooperativa estadual de agroecologia do Ceará e destaca papel da produção sem agrotóxicos no enfrentamento da crise climática


A criação da primeira cooperativa estadual de agroecologia do Ceará foi o tema central da entrevista concedida por Adalberto Alencar, presidente da Fundação Cepema, ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na TV Atitude Popular. Durante a conversa, o dirigente detalhou o processo de organização de produtores, consumidores e pesquisadores em torno de um modelo de produção agrícola sustentável, capaz de ampliar o acesso da população a alimentos saudáveis e fortalecer a economia solidária no estado.

A entrevista foi transmitida ao vivo pela TV Atitude Popular e abordou tanto os fundamentos da agroecologia quanto os passos institucionais para a criação da cooperativa, considerada um marco para o fortalecimento da agricultura familiar e da produção orgânica no Ceará.

Logo no início da conversa, Adalberto Alencar apresentou uma definição ampla da agroecologia, destacando que ela vai muito além de uma técnica agrícola. Segundo ele, trata-se de uma visão integrada que envolve ciência, cultura, produção e compromisso social.

“Você pode definir a agroecologia do ponto de vista científico, como um campo de pesquisa com mais de cinquenta anos no mundo inteiro. Pode definir como um modo de vida de agricultores e agricultoras. Mas, para mim, que milito há quase quarenta anos nessa área, agroecologia é um compromisso com a vida, com a biodiversidade, com as águas, com o ar e com o direito das pessoas de terem acesso a alimentos saudáveis”, afirmou.

O dirigente ressaltou que esse modelo de produção ganha ainda mais relevância diante da crise climática e ambiental global. Para ele, a agricultura baseada em agrotóxicos e fertilizantes químicos contribui significativamente para o agravamento do aquecimento global.

“A agricultura responde por cerca de 30% das emissões de gases de efeito estufa. Quando se utiliza agrotóxico e adubação química, essa emissão aumenta muito. A agroecologia diminui em até 90% essas emissões”, explicou.

Segundo Alencar, a construção da cooperativa é resultado de um processo coletivo iniciado há anos no estado. A Fundação Cepema, que atua há 36 anos no Ceará, desenvolve projetos de assistência técnica, formação e organização de agricultores familiares.

Um marco importante nesse processo foi a criação da Rede Ecoceará, há cerca de oito anos, durante um encontro realizado em Ubajara com aproximadamente cem participantes.

A rede reúne produtores, consumidores, pesquisadores e apoiadores da agroecologia, com o objetivo de fortalecer a produção e ampliar o acesso da população a alimentos orgânicos. Desde então, a iniciativa realizou congressos estaduais e ampliou sua atuação para diversas regiões do Ceará.

Atualmente, existem núcleos da rede na Serra da Ibiapaba, Serra de Baturité, litoral leste, litoral oeste e sertão central, além de novos grupos em formação em municípios como Ocara e Canindé.

Dentro desse processo de organização, outro passo importante foi a criação de um organismo de certificação participativa, reconhecido pelo Ministério da Agricultura. Esse sistema garante que os produtos agroecológicos sejam devidamente certificados, permitindo maior confiança por parte dos consumidores.

“O Brasil criou um modelo inovador de certificação participativa, regulamentado nos governos do presidente Lula e que hoje já foi exportado para mais de 25 países”, destacou.

Segundo ele, a certificação é fundamental para garantir a qualidade dos alimentos e permitir que produtores tenham acesso a novos mercados.

A nova cooperativa surge justamente como um instrumento para ampliar a comercialização desses produtos. A proposta é reduzir a dependência de intermediários e aumentar a renda dos agricultores.

“Hoje muitos produtores vendem para atravessadores e recebem muito menos do que poderiam ganhar. A cooperativa vai permitir acesso direto a mercados, feiras e programas públicos”, explicou.

Entre os objetivos da iniciativa estão a participação em políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além da ampliação das feiras agroecológicas e da presença em supermercados.

Um dos desafios apontados por Alencar é justamente o acesso da população aos produtos orgânicos, que muitas vezes acabam restritos a um público de maior renda.

Ele observou que atualmente os supermercados concentram a maior parte das vendas de alimentos orgânicos na região metropolitana de Fortaleza, mas com preços elevados.

“O tomate cereja pode chegar a trinta reais o quilo em um supermercado. Isso impede o acesso da maioria da população. A ideia da cooperativa é justamente ampliar a produção e baratear os preços”, afirmou.

Outro eixo importante do projeto envolve a formação de novos agricultores e agricultoras interessados em migrar para o modelo agroecológico. A Fundação Cepema oferece cursos gratuitos, capacitações e assistência técnica para famílias rurais.

Entre os temas abordados estão agroecologia, agrofloresta, mudanças climáticas, manejo de pragas sem veneno, carbono social comunitário e beneficiamento de alimentos.

Segundo Alencar, a transição da agricultura convencional para a agroecológica pode ocorrer de forma relativamente rápida quando há apoio técnico adequado.

“Em três a seis meses uma família já consegue fazer a transição para produzir sem agrotóxicos, com segurança e produtividade”, explicou.

Além do trabalho no campo, o projeto também prevê iniciativas de agroecologia urbana em Fortaleza. Entre elas está a criação de hortas comunitárias e a instalação de uma cozinha regenerativa comunitária, voltada para a produção de alimentos saudáveis.

A proposta envolve parcerias com organizações comunitárias e com a Secretaria de Mulheres do município.

Outro projeto apresentado durante a entrevista é o Rota da Sustância, iniciativa do Observatório da Cultura Alimentar que promoverá visitas a feiras, mercados e espaços gastronômicos de Fortaleza para valorizar a cultura alimentar local.

Para Alencar, todas essas iniciativas fazem parte de um esforço mais amplo de transformação da forma como os alimentos são produzidos, distribuídos e consumidos.

“A agroecologia não é apenas uma alternativa agrícola. Ela é uma necessidade civilizatória. Precisamos produzir alimentos saudáveis, preservar a água, o solo e a biodiversidade e garantir que todos tenham acesso a comida de verdade”, concluiu.


📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular

💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 33.829.340/0001-89

📲✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O

compartilhe: