Da Redação
Berlim amplia gastos militares, aproxima-se da estratégia nuclear francesa e prepara uma Bundeswehr muito maior, enquanto Tóquio investe em mísseis de longo alcance, armas hipersônicas, drones e capacidade de contra-ataque; aproximação militar entre as duas antigas potências do Eixo revela transformação profunda da ordem internacional, mas tese russa de que ameaças de Moscou e Pequim são apenas “fabricadas” não explica todo o processo.
Oitenta e um anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Alemanha e Japão estão atravessando simultaneamente uma transformação que durante décadas pareceria politicamente improvável. Os dois países derrotados em 1945, reconstruídos sob forte limitação do poder militar e posteriormente integrados à arquitetura estratégica liderada pelos Estados Unidos, voltaram a ampliar rapidamente seus orçamentos de defesa, capacidades de ataque, indústrias militares e participação em estruturas de dissuasão. A coincidência histórica é extraordinária: em lados opostos da Eurásia, Berlim e Tóquio estão desmontando parte das restrições políticas que moldaram sua relação com a guerra durante praticamente todo o período pós-1945.
É esse processo que o analista Ladislav Zemánek, pesquisador associado ao China-CEE Institute e especialista ligado ao Valdai Discussion Club, examina em artigo publicado nesta quinta-feira pela RT. Seu argumento é contundente: Alemanha e Japão estariam “esquecendo as lições de 1945”, transformando Rússia e China em ameaças necessárias para legitimar uma nova corrida armamentista e contribuindo para recriar blocos militares cada vez mais rígidos. Trata-se de uma interpretação claramente inserida na leitura estratégica de Moscou e Pequim sobre o atual sistema internacional e, por isso, precisa ser confrontada com os documentos dos próprios governos alemão e japonês. O dado fundamental, porém, permanece: o rearmamento descrito pelo artigo não é imaginário. Ele está acontecendo, possui orçamento, doutrina, armas e crescente integração operacional.
No Japão, a transformação talvez seja ainda mais simbolicamente poderosa. O artigo 9º da Constituição promulgada no pós-guerra estabeleceu a renúncia à guerra como direito soberano e tornou a autolimitação militar parte central da identidade política japonesa. Essa arquitetura nunca significou ausência de força armada — o país desenvolveu poderosas Forças de Autodefesa e permaneceu protegido pela aliança com os Estados Unidos —, mas durante décadas estabeleceu limites importantes à capacidade ofensiva japonesa.
Esses limites estão sendo progressivamente reinterpretados.
O orçamento japonês de defesa para o ano fiscal de 2026 chegou a aproximadamente 9,04 trilhões de ienes, crescimento de 3,8% em relação ao exercício anterior. Mais revelador do que o número agregado é o destino do dinheiro. Documentos oficiais do Ministério da Defesa mostram cerca de 973 bilhões de ienes destinados às chamadas “stand-off defense capabilities”, capacidades destinadas a atacar alvos a grande distância. Tóquio está adquirindo versões aprimoradas do míssil Type-12, mísseis lançados de submarinos, projéteis de alta velocidade, armas hipersônicas, JSM e JASSM, além de adaptar navios para utilização de Tomahawks norte-americanos.
A linguagem oficial continua sendo defensiva: essas armas permitiriam enfrentar navios e forças invasoras antes que alcancem o território japonês. Mas a mudança estratégica é inequívoca. Um país cuja doutrina pós-guerra foi construída fundamentalmente ao redor da interceptação de uma agressão passa a possuir meios capazes de atingir alvos a centenas ou milhares de quilômetros de distância.
É a passagem da defesa territorial estrita para uma capacidade de contra-ataque em profundidade.
E ela não termina nos mísseis. O Japão está acelerando investimentos em sistemas não tripulados, inteligência artificial aplicada ao campo de batalha, interceptadores e infraestrutura digital militar. A modernização procura compensar inclusive um problema demográfico: uma sociedade envelhecida e com população em retração torna sistemas autônomos e drones particularmente atraentes para as Forças de Autodefesa.
A razão oficial dessa transformação está principalmente na mudança do equilíbrio militar asiático. A China construiu uma das maiores forças navais do planeta, ampliou rapidamente seu arsenal nuclear e de mísseis, aumentou a pressão militar ao redor de Taiwan e mantém disputas marítimas com países vizinhos. A Coreia do Norte desenvolveu armas nucleares e mísseis balísticos capazes de alcançar território japonês. Para Tóquio, portanto, o ambiente estratégico existente no início do século XXI é radicalmente diferente daquele das décadas imediatamente posteriores à Guerra Fria.
É justamente aqui que a interpretação publicada pela RT precisa ser relativizada.
O artigo sustenta que a ameaça chinesa é sistematicamente inflada e que o próprio crescimento militar de Pequim deve ser entendido como resposta ao cerco estratégico produzido pelos Estados Unidos e seus aliados. Há um elemento real nessa dinâmica: forças norte-americanas estão estacionadas no Japão, Washington mantém uma extensa arquitetura de alianças no Indo-Pacífico e a expansão das capacidades militares japonesas inevitavelmente influencia o cálculo estratégico chinês.
Mas a causalidade não funciona apenas numa direção.
A expansão militar chinesa também altera objetivamente a percepção de segurança de Japão, Filipinas, Taiwan, Coreia do Sul, Austrália e outros atores regionais. Quando cada lado interpreta suas próprias armas como defensivas e as armas do adversário como ofensivas, nasce aquilo que a teoria estratégica chama de dilema de segurança: uma medida destinada a aumentar a segurança de um Estado reduz a sensação de segurança do outro, que responde aumentando seu próprio poder militar, provocando uma nova resposta do primeiro.
Não é necessário que nenhum dos lados deseje originalmente uma guerra.
O mecanismo pode produzir escalada sozinho.
Na Alemanha ocorre uma transformação paralela, mas desencadeada sobretudo pela guerra na Ucrânia. A invasão russa de fevereiro de 2022 rompeu pressupostos fundamentais da política de segurança alemã e produziu a chamada Zeitenwende, a “mudança de época”. Quatro anos depois, aquilo que inicialmente parecia uma resposta emergencial está se convertendo em política estrutural de Estado.
O orçamento alemão mostra a velocidade dessa transformação. Os gastos federais destinados à defesa em 2026 estão na casa dos €82 bilhões, enquanto o governo já planeja aproximadamente €109,7 bilhões para 2027. Berlim pretende alcançar em 2029 o equivalente a 3,5% do PIB nas despesas centrais de defesa previstas pelos compromissos da OTAN. O governo também planeja ampliar significativamente o efetivo da Bundeswehr.
A Alemanha não está apenas comprando armas. Está reconstruindo capacidade militar industrial e humana em escala incompatível com a relativa acomodação estratégica das décadas anteriores.
E há uma transformação ainda mais profunda: a questão nuclear voltou à política estratégica alemã.
Em março deste ano, o chanceler Friedrich Merz e o presidente francês Emmanuel Macron estabeleceram formalmente um grupo franco-alemão de alto nível para tratar de dissuasão nuclear. A declaração oficial prevê diálogo doutrinário, coordenação entre capacidades convencionais, defesa antimísseis e forças nucleares francesas, visitas conjuntas a instalações estratégicas e até participação convencional alemã em exercícios nucleares franceses.
Em julho, França e Alemanha avançaram mais. O Conselho Franco-Alemão de Defesa e Segurança confirmou que militares alemães participarão de exercício nuclear francês e que os dois países pretendem integrar de maneira mais estreita defesa antimísseis, ataques convencionais de precisão de longo alcance e dissuasão nuclear.
Isso não significa que a Alemanha esteja construindo uma bomba atômica própria. Berlim continua vinculada ao Tratado de Não Proliferação Nuclear e participa do sistema de compartilhamento nuclear da OTAN. França e Alemanha afirmam expressamente que a nova cooperação complementará — e não substituirá — a dissuasão nuclear norte-americana e da Aliança Atlântica.
Mesmo com essa ressalva, a mudança histórica é extraordinária.
A Alemanha derrotada em 1945 passou décadas evitando qualquer associação política com poder nuclear nacional. Em 2026, participa institucionalmente de uma discussão sobre como combinar forças convencionais alemãs com a dissuasão nuclear francesa para proteger a Europa.
É difícil encontrar símbolo mais claro da erosão da ordem militar criada depois da Segunda Guerra.
A aproximação entre Alemanha e Japão torna o fenômeno ainda mais significativo. Em fevereiro, os ministros da Defesa Shinjiro Koizumi e Boris Pistorius declararam oficialmente que a segurança do Indo-Pacífico e a segurança euro-atlântica são “inseparáveis” e comprometeram-se a aprofundar a cooperação entre as forças terrestres, marítimas e aéreas dos dois países. O documento japonês menciona explicitamente a cooperação dentro do marco Japão-OTAN.
Em março, Pistorius foi ao Japão acompanhado por representantes da indústria de defesa. A relação começa a ultrapassar o diálogo diplomático e entrar no terreno industrial e operacional. Alemanha e Japão discutem cooperação em defesa aérea e antimísseis, tecnologias avançadas e cadeias industriais militares, enquanto Tóquio busca formas de participar dos novos mecanismos europeus de fortalecimento da indústria de defesa.
A ironia histórica é evidente.
As duas maiores potências derrotadas na Segunda Guerra Mundial não estão simplesmente se rearmando simultaneamente. Estão começando a construir pontes militares entre seus dois teatros estratégicos.
Isso ajuda a compreender uma mudança muito maior que está acontecendo no sistema internacional.
Durante grande parte da Guerra Fria, Europa e Ásia eram teatros estratégicos conectados pelos Estados Unidos, mas administrados por arquiteturas relativamente distintas. A OTAN organizava a contenção soviética na Europa. No Pacífico, Washington construiu alianças bilaterais com Japão, Coreia do Sul, Austrália e outros parceiros.
Hoje essas duas arquiteturas começam a se aproximar.
A OTAN olha crescentemente para o Indo-Pacífico. Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia aprofundam relações com a Aliança Atlântica. Países europeus enviam navios e aeronaves para exercícios asiáticos. Japão procura parceiros industriais militares europeus. A segurança contra a Rússia e a contenção estratégica da China deixam de ser percebidas como problemas completamente separados.
Essa integração possui uma lógica norte-americana evidente.
Washington enfrenta simultaneamente o desafio de conter a Rússia na Europa e preservar sua supremacia estratégica diante da ascensão chinesa no Indo-Pacífico. Fazer Alemanha assumir maior responsabilidade militar na Europa e Japão assumir maior responsabilidade na Ásia reduz a necessidade de os Estados Unidos sustentarem sozinhos os dois teatros.
É exatamente nesse ponto que o rearmamento alemão e japonês deixa de ser apenas política nacional.
Ele passa a fazer parte da redistribuição interna de poder militar dentro do sistema de alianças dos Estados Unidos.
Mas existe uma contradição importante. Quanto mais poder militar Washington transfere aos aliados para preservar sua própria arquitetura global, maior se torna a capacidade desses aliados de desenvolver interesses estratégicos relativamente autônomos no futuro.
Na Europa, esse dilema já aparece no debate sobre “autonomia estratégica”. França deseja uma indústria militar europeia menos dependente dos Estados Unidos. Alemanha continua profundamente integrada às estruturas norte-americanas da OTAN. As próprias divergências industriais entre Paris e Berlim já provocaram problemas em grandes programas conjuntos, incluindo o sistema de combate aéreo do futuro.
O mesmo paradoxo existe no Japão. O fortalecimento militar japonês ocorre dentro da aliança com Washington, mas uma potência japonesa com mísseis de longo alcance, indústria militar revitalizada, capacidade naval sofisticada e crescente autonomia tecnológica não será estrategicamente idêntica ao Japão altamente restrito das décadas posteriores a 1945.
O poder possui dinâmica própria.
Há também uma dimensão econômica que frequentemente desaparece sob a linguagem da segurança. Rearmamento significa uma transferência gigantesca de recursos públicos para a indústria militar.
O processo alemão já fortalece fabricantes europeus e norte-americanos de armamentos. A Europa tornou-se um mercado ainda mais importante para empresas militares dos Estados Unidos desde a invasão da Ucrânia, enquanto governos europeus tentam simultaneamente reconstruir sua própria base industrial de defesa.
No Japão, o governo também procura tornar a indústria de defesa economicamente sustentável e incentivar empresas privadas a permanecer ou retornar ao setor militar.
Portanto, a ameaça externa não produz apenas doutrina.
Produz orçamento, encomendas, fábricas, empregos, pesquisa tecnológica, cadeias produtivas e grupos empresariais que passam a possuir interesse material na continuidade dos investimentos militares.
É aqui que a crítica apresentada pela RT toca numa questão real, embora a leve longe demais ao sugerir que as ameaças russa e chinesa seriam essencialmente construções políticas. A existência de interesses econômicos na expansão militar não significa que as ameaças de segurança sejam fictícias. Rússia invadiu a Ucrânia; China ampliou substancialmente seu poder militar; Estados Unidos cercam ambos com redes de alianças e bases; OTAN expandiu-se para o leste; Japão amplia sua capacidade de ataque; Alemanha reconstrói sua força militar.
Todos esses fatos coexistem.
O erro está em escolher apenas metade da cadeia causal.
Moscou descreve o avanço da OTAN como ameaça e seu próprio comportamento como resposta defensiva. A OTAN descreve a Rússia como ameaça e seu próprio crescimento como resposta defensiva. Pequim vê a presença militar norte-americana e japonesa em seu entorno como cerco. Tóquio enxerga a expansão naval e de mísseis chinesa como razão para adquirir armas de maior alcance.
Cada potência encontra na ação da outra a justificativa para sua próxima expansão militar.
É justamente assim que corridas armamentistas historicamente se tornam sistemas autorreferentes.
Por isso, talvez a parte mais importante do argumento publicado pela RT não seja sua defesa da interpretação russa ou chinesa sobre a origem da crise, mas a pergunta colocada no final: em que momento uma política construída para impedir a guerra começa a tornar a própria guerra mais provável?
A resposta não é simples.
Dissuasão funciona justamente porque a capacidade militar pode impedir um adversário de atacar. Uma Alemanha incapaz de defender seus aliados pode incentivar cálculo de oportunidade em Moscou. Um Japão militarmente vulnerável poderia alterar os cálculos de Pequim em uma crise regional. Portanto, mais capacidade militar pode efetivamente reduzir determinados riscos.
Mas existe o movimento contrário.
Mísseis de longo alcance reduzem tempos de decisão. Sistemas hipersônicos dificultam interceptação. Inteligência artificial acelera ciclos de identificação e ataque. Armas nucleares elevam dramaticamente o custo de um erro de cálculo. Bases avançadas e forças posicionadas perto das fronteiras dos adversários comprimem o tempo disponível para interpretar corretamente uma movimentação militar.
Quanto maior a capacidade de destruição, mais importante se torna a diplomacia capaz de impedir que essa capacidade seja utilizada.
E é justamente a diplomacia estratégica que está enfraquecendo.
O mundo de 2026 não está simplesmente retornando à Guerra Fria. Algo potencialmente mais complexo está surgindo: múltiplas potências nucleares, tecnologias militares autônomas, armas hipersônicas, drones baratos, guerra cibernética, inteligência artificial, conflitos econômicos e redes de alianças que começam a conectar Europa e Indo-Pacífico numa mesma arquitetura de competição.
Nesse cenário, Alemanha e Japão são indicadores especialmente importantes.
Durante oito décadas, os dois países funcionaram como demonstração de que enormes potências industriais poderiam exercer influência internacional mantendo forte contenção sobre o uso do poder militar. Essa excepcionalidade está terminando.
Não significa que Alemanha esteja retornando ao militarismo nazista ou que Japão esteja reconstruindo o império militar que devastou grande parte da Ásia. Fazer essa equivalência seria historicamente irresponsável. Ambos são democracias constitucionais inseridas em alianças, tratados internacionais e sistemas institucionais completamente diferentes daqueles existentes na década de 1930.
Mas também seria ingênuo fingir que nada fundamental mudou.
Quando Japão adquire mísseis capazes de atacar a longa distância, Alemanha eleva drasticamente seus gastos militares, Berlim participa de exercícios ligados à dissuasão nuclear francesa e Tóquio e Berlim começam a institucionalizar sua cooperação militar, a arquitetura estratégica produzida pela derrota das potências do Eixo em 1945 está sendo profundamente transformada.
A grande questão do século XXI talvez não seja, portanto, se Alemanha e Japão “esqueceram” 1945, como afirma a RT.
É outra.
Se o trauma de 1945 ensinou que poder militar sem limites pode conduzir à catástrofe, o desafio atual será descobrir se essas sociedades conseguem reconstruir grande capacidade militar sem reconstruir também uma política internacional organizada pela inevitabilidade da guerra.
Porque Rússia, China, Estados Unidos, Alemanha e Japão apresentam suas próprias armas como necessárias para impedir o conflito.
E todos encontram nas armas do outro a prova de que precisam de ainda mais armas.
Esse é o mecanismo mais perigoso de uma corrida armamentista: cada lado pode acreditar sinceramente que está se defendendo enquanto, coletivamente, todos constroem as condições materiais para uma guerra que afirmam querer evitar.


