O poder já não disputa apenas o que pensamos ou fazemos: disputa as condições em que pensamos, escolhemos e agimos.
Por Reynaldo Aragon
Da inteligência artificial às operações psicológicas, das plataformas digitais à guerra híbrida, uma nova arquitetura de poder avança sobre o território mais decisivo do nosso tempo: o campo das possibilidades humanas. Ao antecipar comportamentos, reorganizar ambientes de decisão e transformar dúvida, conflito e hesitação em problemas de eficiência, sistemas algorítmicos começam a atuar antes mesmo que a escolha se apresente como escolha. Este ensaio investiga essa mutação a partir da psicologia comportamental e social, das ciências da complexidade e da disputa geopolítica contemporânea para sustentar uma hipótese inquietante: a fronteira mais avançada do poder não é obrigar alguém a seguir determinado caminho, mas tornar alguns caminhos cada vez mais prováveis — e outros progressivamente impensáveis.
Antes que a escolha exista
Durante boa parte da história das tecnologias digitais, a mediação ainda era perceptível. Abríamos um navegador, formulávamos uma pergunta, comparávamos resultados, escolhíamos um caminho. Esse intervalo está diminuindo. Sistemas algorítmicos selecionam o que vemos, ordenam relevâncias, completam frases, recomendam ações e antecipam necessidades. Com a inteligência artificial generativa e a expansão de agentes capazes de executar tarefas em nome do usuário, ocorre uma mudança qualitativa: a tecnologia deixa de apenas responder às nossas decisões e começa a participar das condições em que elas são formadas.
É nesse deslocamento que se situa a metaintermediação algorítmica. O conceito descreve uma camada de mediação capaz de observar padrões, interpretar contextos, calcular probabilidades e organizar alternativas entre intenção e ação. Quanto mais esses sistemas conhecem hábitos, preferências, relações, linguagem e decisões anteriores, maior sua capacidade de antecipar comportamentos e reduzir o intervalo entre desejo e realização. A mediação torna-se mais poderosa justamente quando se torna menos perceptível.
Essa transformação encontra sua racionalidade na fricção zero. A promessa é simples: menos passos, menos espera, menos esforço, menos dúvida. Há nisso ganhos reais. Eliminar burocracias inúteis, facilitar tarefas e ampliar acesso pode aumentar concretamente a autonomia. O problema começa quando a eliminação do atrito deixa de ser uma solução localizada e se converte em princípio geral de organização da experiência. Hesitar, comparar, desconfiar, reconsiderar e suportar uma contradição também exigem tempo e esforço. Quando toda demora aparece como defeito, atividades fundamentais para a formação do julgamento podem ser silenciosamente reclassificadas como ineficiência.
Não estamos diante de algoritmos onipotentes conduzindo indivíduos passivos. Pessoas resistem, contradizem previsões, abandonam sistemas e produzem comportamentos inesperados. O poder em questão é mais preciso. Um sistema não precisa determinar uma ação para influenciar sua probabilidade. Pode tornar algumas alternativas mais visíveis, familiares, rápidas ou convenientes que outras. A escolha permanece, mas o ambiente no qual ela acontece deixa de ser indiferente.
É nesse ponto que a alienação também alcança outra camada. Marx mostrou como relações produzidas pelos seres humanos podem confrontá-los como forças aparentemente independentes. No capitalismo algorítmico, nossos próprios rastros comportamentais retornam sob a forma de previsões, classificações e recomendações. Produzimos dados ao agir e encontramos depois um ambiente reorganizado a partir deles. A exteriorização começa, assim, a alcançar não apenas aquilo que fazemos, mas as condições em que decidimos o que fazer.
É o que chamo de alienação de segunda ordem. O sujeito não perde necessariamente o direito de escolher. O deslocamento ocorre na formação da própria escolha, quando parcelas crescentes da mediação entre sujeito e mundo são delegadas a sistemas capazes de antecipar necessidades e filtrar possibilidades. Sua eficácia está precisamente em não ser experimentada como privação. A delegação chega como conveniência, e a conveniência é real. Quanto melhor funciona, mais racional parece entregar ao sistema pequenas parcelas de memória, atenção, julgamento e decisão.
Por isso, a pergunta decisiva não é se as máquinas escolherão por nós. Essa formulação ainda imagina o poder como comando. A transformação mais importante acontece antes. Pela primeira vez, infraestruturas capazes de observar comportamento em escala, aprender continuamente com seus resultados e reorganizar o ambiente podem participar de maneira recorrente do instante em que uma possibilidade se torna mais disponível que outra. O território estratégico desloca-se para aquilo que antecede a decisão.
Para compreender esse território, não basta estudar algoritmos. É preciso estudar comportamento.
A máquina que aprende a nos conduzir
Todo comportamento acontece em um ambiente. B. F. Skinner demonstrou que nossas ações não podem ser compreendidas apenas por intenções interiores, porque suas probabilidades mudam conforme as contingências e consequências encontradas no mundo. A novidade histórica não está nessa relação entre comportamento e ambiente. Está no surgimento de ambientes digitais capazes de registrar nossas respostas, aprender com elas e modificar continuamente aquilo que encontraremos depois.
Uma busca, uma pausa, um clique, uma compra, um abandono ou uma pergunta podem tornar-se sinais. Agregados em escala, esses rastros alimentam sistemas que procuram reconhecer regularidades e antecipar respostas. Forma-se então um circuito peculiar: o comportamento produz dados, os dados alimentam modelos, os modelos reorganizam o ambiente e o ambiente modificado participa das condições do comportamento seguinte. Não se trata da velha imagem de um emissor que persuade um receptor. O que emerge é uma relação recursiva na qual cada resposta pode alterar as condições da interação posterior.
Isso exige atualizar a leitura comportamental sem reduzi-la à caricatura de uma gigantesca caixa de condicionamento. Em Skinner, contingências alteram probabilidades de comportamento. No ambiente algorítmico, as próprias contingências podem tornar-se adaptativas. Sistemas de recomendação recalculam ofertas, plataformas experimentam variações, modelos generativos ajustam respostas ao contexto e agentes digitais podem acumular informações para orientar ações posteriores. Observar e intervir deixam de ser operações completamente separadas quando aquilo que o sistema aprende com uma resposta participa da construção do estímulo seguinte.
A psicologia cognitiva acrescenta outra dimensão. Amos Tversky e Daniel Kahneman demonstraram que seres humanos não processam exaustivamente todas as informações antes de decidir. Sob incerteza, recorremos a heurísticas que economizam esforço e tornam o julgamento possível, embora também possam produzir vieses sistemáticos. Familiaridade, disponibilidade e formas de apresentação interferem na avaliação. Para sistemas capazes de testar respostas em grande escala, essas características deixam de ser apenas propriedades da cognição. Tornam-se variáveis observáveis de um ambiente que aprende.
A dimensão social é igualmente decisiva. Solomon Asch mostrou a força da conformidade diante da pressão do grupo. Leon Festinger investigou comparação social e as tensões produzidas por crenças incompatíveis. Henri Tajfel demonstrou como processos de categorização podem organizar rapidamente distinções entre “nós” e “eles”. Serge Moscovici, porém, mostrou o movimento contrário: minorias consistentes também podem romper consensos e introduzir mudança. O comportamento social não converge automaticamente para a obediência. Ele se forma numa disputa permanente entre influência, pertencimento, conflito e resistência.
As plataformas acrescentaram uma infraestrutura técnica a essas relações. Curtidas, tendências, rankings, recomendações, comentários destacados e métricas de popularidade não apenas representam o comportamento coletivo. Selecionam quais sinais desse comportamento serão percebidos e em que contexto aparecerão. O indivíduo passa a reagir não somente aos outros, mas a uma representação algorítmica dos outros. A percepção do grupo torna-se parcialmente mediada por sistemas que decidem quais expressões do grupo ganharão visibilidade.
A inteligência artificial generativa aprofunda esse processo ao introduzir interlocutores capazes de adaptar linguagem e respostas ao contexto individual. Estudos experimentais recentes já identificaram influência sobre julgamentos, persuasão em determinadas condições e ciclos de retroalimentação nos quais vieses presentes na interação humano e máquina podem ser amplificados. Outras pesquisas indicam que delegar decisões a sistemas automatizados pode afetar inclusive a atribuição de responsabilidade pelo resultado. Essas evidências não sustentam a fantasia de controle mental. Sustentam uma hipótese mais rigorosa: ambientes adaptativos podem modificar distribuições de probabilidade do comportamento sem abolir a agência humana.
É essa capacidade que proponho chamar de governança probabilística da práxis. O conceito não descreve a previsão perfeita de indivíduos nem uma sociedade inteiramente manipulada. Refere-se à capacidade de organizar contingências, exposições e alternativas de modo a tornar determinados cursos de ação relativamente mais prováveis que outros. O poder deixa de depender da certeza sobre aquilo que cada pessoa fará. Torna-se suficiente produzir pequenas vantagens probabilísticas que, quando operadas repetidamente e em escala, podem adquirir consequências sociais relevantes.
Gramsci ajuda a perceber o alcance político dessa transformação. Uma ordem duradoura não depende apenas de coerção. Precisa produzir hábitos, expectativas e formas de perceber o mundo capazes de sustentar consentimento. Quando sistemas que classificam relevância e distribuem visibilidade aprendem continuamente com as populações que os utilizam, a disputa pela hegemonia passa também por infraestruturas adaptativas. O consenso continua sendo social e histórico, mas parte das condições de sua circulação tornou-se calculável.
Há, contudo, um limite fundamental. Nenhum sistema consegue estabilizar completamente aquilo que procura antecipar. Pessoas mudam, grupos se reorganizam, minorias perturbam consensos e acontecimentos inesperados alteram trajetórias. Quanto mais o poder algorítmico procura reduzir essa incerteza, mais se confronta com uma sociedade produzida por relações que nunca controla integralmente. A psicologia nos trouxe até esse limite. Para compreender o que acontece quando milhões dessas interações passam a formar redes de feedback, adaptação e efeitos não previstos, é preciso mudar novamente de escala e entrar no território da complexidade.
A guerra contra o imprevisível
Há uma contradição no centro do capitalismo contemporâneo. Nunca produzimos tantos dados sobre o mundo nem investimos tanto para antecipar seu comportamento. Ao mesmo tempo, economia, tecnologia, política e informação tornaram-se tão interdependentes que perturbações localizadas podem atravessar redes inteiras e produzir consequências desproporcionais. A capacidade de calcular cresce, mas cresce também a complexidade daquilo que se pretende calcular.
A teoria do caos revelou um limite importante da imaginação mecanicista. Sistemas regidos por regras podem apresentar sensibilidade às condições iniciais, fazendo com que pequenas diferenças produzam trajetórias muito distintas ao longo do tempo. Isso não autoriza tratar sociedades como equações nem transportar mecanicamente modelos físicos para a história. O que essa descoberta ajuda a compreender é algo mais fundamental: conhecer componentes e regularidades não significa controlar antecipadamente todos os efeitos produzidos por suas interações.
As ciências da complexidade ampliaram esse problema ao estudar sistemas nos quais múltiplos agentes interagem, adaptam-se e produzem propriedades coletivas que não estavam contidas isoladamente em nenhuma das partes. Feedbacks alteram condições, respostas transformam ambientes e mudanças acumuladas podem levar o sistema a trajetórias qualitativamente diferentes. É nesse sentido que a ideia de bifurcação interessa à análise social. Há momentos em que caminhos antes improváveis tornam-se historicamente possíveis e reorganizam aquilo que parecia estável.
A história não é uma sucessão de acidentes, mas tampouco é uma linha previamente escrita. Uma crise econômica, uma inovação tecnológica, uma revolta ou uma guerra emergem de condições materiais determinadas, mas seus desdobramentos dependem de relações que se modificam enquanto o processo acontece. Estrutura e contingência não se anulam. A contingência opera dentro de estruturas e pode, em determinadas circunstâncias, transformá-las.
É precisamente aí que materialismo histórico e complexidade podem dialogar sem que um substitua o outro. Marx permite perguntar quem controla recursos, infraestruturas e meios de produção, quais interesses orientam a acumulação e como as contradições são socialmente distribuídas. A complexidade permite observar como interações dentro dessas estruturas produzem efeitos não lineares que nenhum ator controla integralmente. O capital procura reduzir incertezas, acelerar circulação e antecipar mercados, mas sua própria expansão multiplica conexões e dependências. A ordem que constrói produz também novas formas de instabilidade.
A fricção zero pertence a essa contradição. Em processos específicos, reduzir etapas, demora ou desperdício pode gerar eficiência real. O problema começa quando otimização deixa de ser instrumento e se transforma em racionalidade geral. Redundância passa a parecer desperdício, lentidão vira atraso, ambiguidade torna-se falha e divergência aparece como ruído. Aquilo que não contribui imediatamente para o fluxo tende a ser comprimido.
Sistemas complexos, porém, não retiram sua capacidade de adaptação apenas da eficiência. Diversidade, redundância e autonomia relativa podem funcionar como reservas diante do inesperado. Uma cadeia logística otimizada até o limite pode tornar-se vulnerável quando um conflito interrompe um elo crítico. Uma rede altamente conectada pode distribuir recursos em condições normais e transmitir crises com velocidade quando algo rompe seu equilíbrio. Eficiência e resiliência são propriedades diferentes e, em certas circunstâncias, entram em tensão.
Isso muda também o significado da fricção. Hesitação, dissenso e caminhos alternativos podem parecer ineficientes quando observados isoladamente, mas produzem heterogeneidade no conjunto. Nem toda fricção emancipa, assim como nem toda eficiência oprime. A questão é saber quais margens estão sendo eliminadas e que capacidade de adaptação desaparece com elas. Um sistema que reduz continuamente suas alternativas pode funcionar melhor em condições previstas e responder pior justamente quando o previsto deixa de acontecer.
É por isso que a previsão se tornou um ativo central. Mercados tentam antecipar demanda e risco. Plataformas antecipam atenção. Estados procuram detectar instabilidade. Serviços de inteligência calculam ameaças. Forças militares modelam movimentos adversários. A inteligência artificial amplia essa racionalidade ao reconhecer padrões em volumes de informação que ultrapassam qualquer capacidade humana individual. Saber antes oferece vantagem.
Mas sistemas sociais carregam uma dificuldade adicional: previsões podem modificar aquilo que procuram prever. Uma projeção financeira influencia investidores. Uma pesquisa eleitoral altera estratégias. Uma classificação de risco muda condições de crédito. Uma avaliação de ameaça reorganiza postura militar. A previsão entra no sistema e torna-se uma de suas causas. O mapa passa a interferir no território.
A metaintermediação encontra aqui sua dimensão sistêmica. Ela não apenas responde à complexidade. Participa da tentativa de torná-la administrável, selecionando, hierarquizando e antecipando possibilidades antes que se convertam em decisão. Quanto maior o universo de alternativas, maior o valor de quem consegue reduzir incerteza para os demais. O problema político começa quando essa capacidade de redução se concentra.
Nenhuma arquitetura, contudo, elimina o inesperado. Sociedades continuam produzindo conflito, erro, invenção e resistência. Quanto mais sistemas dependem de sincronização, otimização e infraestruturas comuns, mais uma estabilidade aparente pode coexistir com vulnerabilidades acumuladas. A fricção zero não elimina o caos. Pode deslocá-lo, produzindo eficiência local ao mesmo tempo que amplia fragilidades em outra escala.
A questão decisiva, portanto, não é escolher entre ordem e caos. Toda sociedade precisa produzir alguma previsibilidade. A disputa começa quando determinados atores adquirem capacidade desproporcional para definir quais incertezas serão reduzidas, quais riscos serão tolerados, quais alternativas permanecerão disponíveis e quem suportará as consequências quando a previsão falhar. Nesse ponto, administrar a complexidade deixa de ser apenas uma competência técnica. Torna-se poder.
Quando o poder chega antes
Algoritmos não escolhem sozinhos aquilo que merece ser otimizado. Por trás de modelos, plataformas e infraestruturas existem empresas, Estados, mercados, instituições e interesses capazes de definir objetivos, concentrar recursos e transformar conhecimento em capacidade técnica. Por isso, a questão política não começa no que um sistema consegue calcular, mas em quem possui os meios para decidir o que será calculado, com quais dados, segundo quais critérios e para produzir quais resultados.
Marx permanece indispensável porque impede que a tecnologia apareça como sujeito da história. O capital busca reduzir incertezas porque precisa produzir, circular, investir e competir. Antecipar demanda, risco e comportamento oferece vantagem econômica. Dados adquirem valor estratégico quando permitem acompanhar processos enquanto acontecem e converter rastros da atividade social em informação capaz de orientar novas intervenções. A capacidade algorítmica não substitui as relações materiais de poder. Amplia os instrumentos disponíveis para operá-las.
Gramsci permite compreender o movimento seguinte. Uma ordem social não se sustenta apenas pela coerção. Precisa produzir adesão, hábitos e formas de interpretar o mundo que façam determinadas relações parecerem naturais. No ambiente digital, essa produção de consentimento ganha uma infraestrutura capaz de classificar relevâncias, distribuir visibilidade e aprender com as respostas que recebe. O poder não está no algoritmo isolado, mas na incorporação de mecanismos de seleção e antecipação à vida cotidiana.
É por isso que a conveniência possui dimensão política. Uma tecnologia útil não precisa apresentar uma doutrina para transformar hábitos. Ela conquista adesão porque resolve problemas. A fricção zero encontra aí sua força histórica: eficiência, velocidade e personalização aparecem como benefícios concretos e passam, pouco a pouco, a funcionar como critérios aparentemente naturais de progresso tecnológico. Aquilo que começou como solução pode terminar como medida universal do que merece existir.
Marcuse identificou uma dimensão fundamental desse processo ao mostrar que a racionalidade tecnológica pode converter seus próprios critérios de funcionamento em critérios de razão. O eficiente parece racional; o que interrompe o fluxo parece inadequado. No capitalismo algorítmico, essa lógica alcança também o tempo da decisão. Pesquisar parece excessivo quando uma resposta chega instantaneamente. Esperar torna-se falha. Enfrentar a dificuldade de escolher perde valor diante de sistemas capazes de antecipar alternativas. Questões políticas sobre como queremos viver reaparecem como problemas técnicos sobre como tornar a vida mais eficiente.
É nesse ponto que a alienação de segunda ordem encontra um desdobramento mais radical. Se parte crescente da mediação entre sujeito e mundo pode ser delegada a sistemas que antecipam e organizam possibilidades, a questão seguinte é saber o que acontece com nossa capacidade de produzir desvios. Chamo esse processo de alienação da bifurcação: a redução das condições materiais, cognitivas e simbólicas que permitem interromper uma trajetória e iniciar outra.
Não significa que escolhas desapareçam. Escolher nunca significou dispor de todas as possibilidades imagináveis, mas agir dentro daquilo que conseguimos perceber, alcançar e considerar plausível. Quem participa da organização desse campo não precisa proibir alternativas. Pode tornar algumas mais visíveis, familiares, rápidas e acessíveis, enquanto outras se tornam custosas, remotas ou difíceis de conceber. A liberdade formal permanece. O que muda é a distribuição concreta das possibilidades.
Essa distinção separa comando de poder estratégico. O comando procura produzir uma ação determinada. Um poder que chega antes procura interferir nas condições sob as quais diferentes ações serão avaliadas. Não precisa conhecer perfeitamente o futuro nem eliminar a agência humana. Precisa ampliar a vantagem de determinadas trajetórias. É nesse sentido que a governança probabilística da práxis adquire significado político: não como controle absoluto da sociedade, mas como disputa pela distribuição das probabilidades dentro dela.
Ainda assim, o campo nunca se fecha completamente. Sociedades produzem contradições, invenções, recusas e formas inesperadas de organização. A própria psicologia social mostra que influência não pertence apenas às maiorias. Moscovici demonstrou que minorias consistentes podem perturbar consensos e introduzir mudança. Na história, possibilidades inicialmente marginais podem adquirir força quando encontram condições materiais e organização. A bifurcação importa justamente porque o improvável também pode tornar-se histórico.
A fricção assume então seu sentido político mais profundo. Hesitar, discordar, interromper e imaginar alternativas podem ser condições da autonomia. Uma sociedade pode oferecer incontáveis opções de consumo e, ao mesmo tempo, reduzir sua capacidade de produzir futuros realmente diferentes. Abundância de escolhas não é o mesmo que pluralidade de caminhos.
É aqui que aparece o antagonismo central deste ensaio. De um lado está a administração do possível, a capacidade de antecipar, selecionar e favorecer determinadas trajetórias. Do outro está a produção do possível, a capacidade humana e política de introduzir diferença e construir alternativas que não estavam previamente disponíveis. Essa disputa ultrapassa plataformas e mercados. Quando Estados e forças organizadas procuram interferir na percepção, na confiança e no cálculo de outros atores, o mesmo problema assume dimensão estratégica.
O campo do possível torna-se, então, campo de batalha.
A guerra pelo possível
Toda guerra procura interferir na decisão do adversário. Enganar, desmoralizar, dividir alianças, produzir medo ou convencer uma população de que resistir perdeu sentido são práticas muito anteriores ao mundo digital. A novidade não está na descoberta da mente como território de conflito, mas na infraestrutura disponível para observá-la, alcançá-la e adaptar intervenções em escala. Quando comportamento produz dados continuamente e sistemas aprendem a reconhecer padrões nesses dados, a disputa deixa de ocorrer apenas sobre aquilo que uma sociedade acredita. Pode avançar sobre as condições em que ela percebe, interpreta e decide.
É nesse terreno que operações psicológicas, operações de informação, guerra híbrida e guerra cognitiva se aproximam sem se tornarem sinônimos. São conceitos produzidos em tradições e contextos distintos, mas compartilham uma questão estratégica: reduzir a capacidade adversária de agir não exige necessariamente destruir seus meios materiais. Percepção, confiança, coesão, atenção, emoção e vontade também interferem na qualidade de uma decisão. Modificá-las no momento adequado pode alterar comportamentos e produzir efeitos políticos ou militares.
A psicologia torna-se, assim, parte da estratégia. Medo altera percepção de risco. Repetição aumenta familiaridade. Identidade interfere na confiança. Pressão social pode modificar disposição para divergir. Situações de incerteza aumentam a importância de atalhos cognitivos e referências coletivas. Nada disso produz respostas automáticas. Significa que toda decisão possui condições psicológicas e sociais e que conhecer essas condições amplia as possibilidades de intervenção sobre elas.
A digitalização mudou a escala dessa disputa. Plataformas registram interesses, relações e comportamentos de populações inteiras. Redes tornam estruturas de influência mais observáveis. Sistemas de inteligência artificial ampliam a capacidade de processar sinais, reconhecer padrões, gerar conteúdo e adaptar linguagem. O ambiente informacional tornou-se simultaneamente espaço de sociabilidade, infraestrutura econômica e superfície estratégica. A fronteira entre observar uma população e aprender como interagir com ela tornou-se mais estreita.
O ganho decisivo não é a capacidade de manipular perfeitamente uma sociedade. É a capacidade de experimentar. Uma intervenção pode falhar e ainda produzir informação. Respostas podem ser medidas, hipóteses corrigidas, públicos novamente segmentados e abordagens modificadas. O princípio permanece probabilístico. Não é necessário convencer todos. Em determinadas circunstâncias, pequenas alterações na confiança, na participação, na coesão ou na percepção de risco de grupos específicos podem modificar resultados coletivos.
A complexidade ajuda a compreender por quê. O efeito de uma intervenção depende menos de seu tamanho isolado do que do sistema em que ela entra. Uma narrativa incapaz de produzir consequências em uma sociedade coesa pode encontrar enorme capacidade de propagação onde já existem desconfiança institucional, desigualdade, conflito identitário ou crise econômica. Operações de influência não precisam criar do nada as contradições que exploram. Podem identificar tensões existentes, conectá-las a determinados estímulos e tentar alterar sua trajetória.
A guerra híbrida amplia essa lógica ao combinar instrumentos econômicos, diplomáticos, tecnológicos, informacionais, cibernéticos e militares dentro de uma mesma disputa estratégica. Sanções podem alterar expectativas, ataques cibernéticos podem produzir insegurança, campanhas informacionais disputam interpretação e pressões diplomáticas modificam cálculos políticos. O efeito não está necessariamente em cada instrumento isolado, mas na forma como diferentes pressões interagem sobre um sistema já atravessado por conflitos.
Tradições estratégicas distintas chegaram a esse problema por caminhos próprios. O controle reflexivo, desenvolvido no pensamento estratégico soviético e russo, procura interferir nas premissas utilizadas pelo adversário para levá-lo a decisões favoráveis ao outro lado. Debates chineses sobre o domínio cognitivo tratam percepção, julgamento e vontade como dimensões da competição. Estados Unidos e OTAN também ampliaram a atenção dedicada ao ambiente informacional, à influência e à cognição. As diferenças entre essas formulações são relevantes, mas existe uma convergência: a decisão do adversário tornou-se um território estratégico sobre o qual se procura atuar antes que esteja concluída.
É nesse ponto que a lógica da metaintermediação reaparece em outra escala. Uma plataforma comercial, um sistema de inteligência artificial e uma operação estratégica não são fenômenos equivalentes. Possuem objetivos, instituições e regimes de funcionamento distintos. O que os aproxima é uma racionalidade de antecipação: observar sinais, inferir tendências e reorganizar condições para favorecer determinadas trajetórias. Confundi-los seria um erro. Ignorar a lógica comum que atravessa suas arquiteturas seria outro.
O realismo político permite compreender a consequência. Poder não consiste apenas em possuir recursos, mas em conservar liberdade de ação enquanto se restringe a liberdade de ação do adversário. Semicondutores, modelos de inteligência artificial, sistemas financeiros, satélites, cabos submarinos, plataformas, infraestrutura computacional e padrões tecnológicos adquirem valor estratégico porque participam das condições materiais em que Estados e sociedades conseguem agir. Dependência torna-se vulnerabilidade quando a ausência de alternativas permite a outro ator restringir escolhas relevantes.
Por isso, a disputa pelo possível é mais ampla que a disputa pela mente. Controlar uma narrativa pode produzir vantagem. Participar da definição das condições em que narrativas circulam, informações são hierarquizadas, riscos são calculados e alternativas podem ser executadas produz uma vantagem mais profunda. A fronteira mais avançada do poder não está em obrigar o adversário a pensar exatamente aquilo que desejamos, mas em estreitar seu horizonte até que determinadas opções pareçam caras, improváveis ou inviáveis.
A guerra pelo possível começa, portanto, antes da guerra visível. Começa nas infraestruturas, nas dependências, nos padrões técnicos, nos fluxos de informação e nas relações de confiança que condicionam aquilo que uma sociedade poderá fazer quando o conflito chegar. Quando a crise se manifesta, parte do campo decisório já pode ter sido organizado muito antes.
Para países que não controlam as principais infraestruturas dessa nova ecologia de poder, o problema ultrapassa tecnologia e defesa. Se outros atores possuem capacidade desproporcional de estabelecer padrões, administrar infraestruturas críticas e participar das mediações pelas quais uma sociedade conhece o mundo, aquilo que começa a diminuir é sua margem histórica de escolha.
É nesse ponto que a guerra pelo possível encontra a questão da soberania.
Soberania é poder mudar de caminho
Durante séculos, soberania foi pensada sobretudo em relação ao território, às fronteiras, às instituições e à capacidade de exercer poder político. Nada disso perdeu importância. Mas um Estado pode conservar governo, território e reconhecimento internacional enquanto parcelas decisivas de sua capacidade de comunicar, conhecer, calcular e decidir dependem de infraestruturas que não controla. No século XXI, soberania continua sendo poder decidir, mas passa também por conservar as condições materiais e cognitivas que tornam uma decisão própria efetivamente possível.
Para o Sul Global, essa questão possui uma dimensão histórica particular. A divisão internacional do poder tecnológico reproduz antigas assimetrias sob novas formas. Países fornecem mercados, recursos, trabalho, cultura, linguagem e enormes volumes de dados enquanto parte significativa da capacidade de processar essa matéria, construir modelos, controlar infraestrutura computacional e estabelecer padrões permanece concentrada em poucos centros. A dependência deixa de envolver apenas máquinas e capitais. Alcança sistemas que participam da organização da informação e da própria mediação da realidade.
Soberania, porém, não significa autarquia. Nenhum país complexo eliminará sua interdependência com o restante do mundo, nem isso seria desejável. O problema estratégico aparece quando dependências críticas reduzem liberdade de ação. Um Estado precisa saber quais infraestruturas não consegue substituir, quais conhecimentos deixou de produzir e quais decisões se tornariam inviáveis caso outro ator modificasse unilateralmente as condições de acesso a tecnologias, redes, serviços ou recursos essenciais.
O Brasil reúne condições singulares para enfrentar esse problema. Possui escala continental, mercado interno, instituições científicas, matriz energética relevante, biodiversidade, capacidade industrial e peso diplomático. Ao mesmo tempo, parcela importante de sua vida digital depende de plataformas, infraestruturas, padrões e centros decisórios externos. A questão não é rejeitar essas tecnologias, mas decidir se o país aceitará apenas consumi-las ou construirá capacidade científica, industrial, regulatória e política para participar da definição dos sistemas que mediarão parcelas crescentes de sua economia, cultura, administração pública e vida social.
Essa disputa envolve também soberania cognitiva. Uma sociedade pensa por meio de suas escolas, universidades, meios de comunicação, instituições, comunidades científicas, arquivos, linguagens, culturas e conflitos. Quando as mediações que conectam esses espaços dependem crescentemente de sistemas desenvolvidos e governados fora deles, surge uma questão estratégica: quem participa da organização daquilo que uma sociedade consegue perceber, recordar, comparar e considerar relevante participa também das condições em que ela imagina seu futuro.
A resposta não está em transformar toda fricção em virtude. Há atritos que apenas reproduzem burocracia, sofrimento e desigualdade, e tecnologias capazes de eliminá-los podem ampliar liberdade concreta. O desafio está em reconhecer as fricções que protegem autonomia. Democracias precisam de tempo para contestação. Ciência precisa admitir erro. Pensamento precisa suportar dúvida. Política precisa comportar conflito. Sociedades precisam preservar alternativas que parecem desnecessárias até o instante em que uma crise revela seu valor.
É nesse sentido que a tecnodiversidade se torna estratégica. Não basta multiplicar produtos tecnológicos se todos reproduzem a mesma arquitetura de dependência e os mesmos critérios de otimização. Diferentes sociedades precisam conservar capacidade de participar da definição dos objetivos, valores e limites das tecnologias que incorporam. Diversidade tecnológica significa também preservar diferentes maneiras de relacionar conhecimento, trabalho, comunidade, natureza e poder.
Isso exige capacidade pública de pesquisa, infraestrutura própria em áreas críticas, proteção de dados, pluralidade informacional, políticas industriais e formação capaz de produzir não apenas usuários competentes, mas cidadãos aptos a questionar sistemas inteligentes. Exige também impor responsabilidade onde a automação dilui autoria e preservar alternativas onde a concentração tecnológica ameaça eliminar margem de manobra. Nenhuma dessas capacidades produz soberania isoladamente. Juntas, aumentam aquilo que todo pensamento estratégico reconhece como essencial: liberdade para agir quando as condições mudam.
É nesse sentido que proponho compreender soberania como capacidade de bifurcação. Para uma pessoa, significa conservar condições para interromper uma trajetória e iniciar outra. Para uma sociedade, produzir alternativas que não estavam previamente oferecidas. Para um Estado, preservar opções estratégicas diante de pressões e rupturas. Para o Sul Global, significa impedir que seu horizonte de desenvolvimento seja delimitado por infraestruturas, interesses e racionalidades definidos exclusivamente em outros centros de poder.
Essa definição desloca também a pergunta sobre inteligência artificial. A questão não é apenas quem possuirá os modelos mais poderosos, mas quais formas de vida esses sistemas ajudarão a tornar mais prováveis. Toda arquitetura que seleciona, recomenda ou antecipa opera segundo objetivos. Não existe otimização sem critérios, e critérios nunca estão fora da história.
Por isso, enfrentar o poder algorítmico não significa restaurar um mundo anterior aos algoritmos. Significa disputar sua direção histórica. Significa recuperar a mediação como questão política, preservar o direito ao inesperado e impedir que eficiência seja confundida com destino. Uma sociedade soberana não é aquela capaz de prever tudo. É aquela que conserva recursos materiais, cognitivos e políticos para agir quando suas previsões falham.
Porque liberdade nunca foi apenas escolher entre caminhos disponíveis. Liberdade é também conservar a capacidade de abrir caminhos que ainda não existem.
Ensaio publicado originalmente em <código aberto>






