Atitude Popular

“Animais não são diversão”, critica veterinária após caos e fechamento do zoológico de Fortaleza

Reabertura marcada por superlotação e estresse animal expõe falhas de planejamento e levanta debate sobre ética e desigualdade urbana

O Zoológico Municipal Sargento Prata, em Fortaleza, voltou a fechar temporariamente poucos dias após sua reabertura, desta vez para serviços de manutenção. A informação foi divulgada pelo Diário do Nordeste e rapidamente gerou repercussão nas redes sociais, especialmente após relatos de superlotação, filas extensas e condições de estresse para os animais.

A interrupção das atividades ocorre em um momento simbólico, no contexto das comemorações dos 300 anos da capital cearense, quando o equipamento havia sido reaberto como vitrine de investimento público e revitalização urbana.

“Saldo foi estresse em nível altíssimo”

A médica veterinária Amanda Luiza, formada pela UECE e conhecida pelo trabalho em abrigos da cidade, fez duras críticas à condução da reabertura.

“Saldo depois de dois dias aberto: superlotação, filas quilométricas, barulho, estresse em nível altíssimo para os animais”, afirmou.

Segundo ela, houve uma inversão de prioridades na gestão do espaço.

“Foi pensado no marketing, no aniversário de Fortaleza, no turismo, no lazer. Só que animais não são diversão, não são brinquedos.”

A veterinária também questiona o papel atribuído ao zoológico.

“O zoológico não deveria ser considerado pelas pessoas um parque de diversões.”

Discurso de excelência sob pressão

Administrado pela Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza, o zoológico é apresentado pela gestão municipal como um espaço estruturado, com foco em conservação, educação ambiental e bem-estar animal.

O equipamento abriga mais de 180 animais de 56 espécies, muitos oriundos do tráfico ou sem condições de retorno à natureza. Conta com equipe multidisciplinar e práticas de enriquecimento ambiental baseadas nas chamadas cinco liberdades do bem-estar animal.

À frente da política de proteção animal do município está Apollo Vicz, gestor com trajetória reconhecida na causa animal.

Ainda assim, o fechamento logo após a reabertura revela um descompasso entre o modelo apresentado e a experiência concreta do público e dos próprios animais.

Uma história longa e uma cidade desigual

Como conta a historiadora Leila Nobre, o zoológico nasceu de forma improvisada, no centro da cidade, a partir da coleção de animais do Sargento Prata. Foi transferido em 1979 para o atual endereço e consolidado nos anos 1980, após sucessivas mudanças administrativas.

Décadas depois, o problema parece não ser apenas o zoológico em si, mas o lugar que ele ocupa dentro de uma cidade profundamente desigual.

Fortaleza ainda carece de grandes equipamentos públicos, gratuitos e de qualidade nas periferias. Espaços de lazer, convivência e contato com a natureza seguem concentrados em áreas específicas da cidade, obrigando a população a se deslocar em massa quando surge uma opção acessível.

O próprio Parque que abriga o zoológico, tende a assumir funções que vão muito além do previsto. Ao longo da semana, so espaço deve receber corredores e atletas amadores, como alternativa à orla da Beira-Mar, tradicionalmente mais estruturada, mas também mais distante e desigual no acesso.

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