Atitude Popular

Não é sobre a gente? É sobre a gente, sim

A primeira entrevista do presidente Lula à mídia progressista em 2026 reacendeu um debate histórico que o próprio campo evita encarar de frente: a ausência de uma política pública de comunicação para os veículos independentes


Por Sara Goes

Nesta terça-feira (14), o presidente Lula concedeu sua primeira entrevista de 2026 à mídia progressista, em transmissão conjunta da TV 247, da Revista Fórum e do DCM. Ao longo da conversa, foram abordados temas como economia, democracia, inclusão social, segurança pública, política internacional e o papel da imprensa na disputa contemporânea por narrativa e legitimidade.

Foi nesse contexto que surgiu uma das questões mais reveladoras da entrevista. Ao tratar da democratização das comunicações, Renato Rovai fez questão de delimitar o alcance da própria pergunta ao afirmar que “a gente não está falando da gente”, deslocando o foco para povos ribeirinhos, indígenas e populações situadas nas extremidades do sistema comunicacional.

A formulação parece generosa, mas revela um problema político estrutural. Porque é, sim, sobre a gente. Essa separação entre quem produz comunicação e quem precisa dela para existir publicamente não se sustenta quando confrontada com a realidade material do setor. No Brasil, o chamado campo da mídia alternativa, comunitária e independente não é um apêndice marginal, mas um sistema amplo e capilarizado. São mais de 5 mil rádios comunitárias autorizada, cerca de 23 mil rádios e TVs web, além de milhares de blogs, portais e canais digitais que, somados, alcançam dezenas de milhões de pessoas diariamente. Trata-se de uma rede que cobre justamente os territórios onde a mídia tradicional não chega ou chega de forma distorcida.

Há também uma diferença concreta que precisa ser nomeada, porque ela revela um abismo dentro do próprio campo progressista: não estamos falando de uma realidade homogênea. Os canais que conduziram essa entrevista operam em outro patamar de estrutura, alcance e financiamento quando comparados à experiência de veículos como a Atitude Popular, que é rádio e TV comunitária e que, para continuar existindo, muitas vezes precisa recorrer a soluções emergenciais, como nossa rifa solidária e campanhas de apoio direto com a audiência. Isso não é detalhe, é sintoma de uma desigualdade interna que raramente entra no debate público. Quando se observa, por exemplo, a distância entre iniciativas como o ICL e esses grandes canais progressistas, o que aparece não é apenas uma diferença de escala, mas de condições materiais de sobrevivência, o que torna ainda mais urgente reconhecer que a democratização da comunicação passa, necessariamente, por enfrentar também as assimetrias entre os próprios “nossos”. Apesar dessa dimensão, a participação desse conjunto na distribuição de recursos públicos é praticamente inexistente.

Para veículos como a Atitude Popular, esse tipo de entrevista não é apenas simbólico, mas tem impacto direto e mensurável, a ponto de um canal com 10 mil inscritos celebrar milhares de visualizações e centenas de horas assistidas como um salto concreto de alcance e sobrevivência.

Dados históricos da Secretaria de Comunicação da Presidência indicam que a maior parte da verba publicitária federal continua concentrada em poucos grupos de comunicação. Em determinados períodos, mais de 70% a 80% dos investimentos foram direcionados para grandes redes de televisão aberta, jornais de circulação nacional e portais pertencentes a conglomerados já consolidados. A lógica que orienta essa distribuição é a chamada “mídia técnica”, baseada em métricas como alcance bruto e GRP, que reproduzem a concentração em vez de corrigi-la.

Mesmo com a ampliação do número de veículos cadastrados nos governos do presidente Lula e de Dilma Rousseff, o volume financeiro efetivamente destinado à mídia independente permaneceu residual, muitas vezes inferior a 5% do total investido. Ou seja, um ecossistema que reúne dezenas de milhares de iniciativas recebe uma fração mínima dos recursos públicos destinados à comunicação institucional.

Essa assimetria se torna ainda mais evidente quando comparada a experiências internacionais. Na Colômbia, o governo de Gustavo Petro tem adotado uma política de redistribuição que destina cerca de um terço das verbas publicitárias para meios populares e comunitários, reconhecendo o papel estratégico desses veículos no combate aos chamados desertos de notícia. No Brasil, por outro lado, entidades como o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação defendem há anos a destinação de pelo menos 10% dessas verbas para o setor, percentual que já foi aprovado em plenárias nacionais e que hoje orienta iniciativas legislativas, como o Projeto de Lei nº 289/2023, de autoria do deputado Renato Roseno, em tramitação no Ceará.

No plano federal, não existe impedimento legal para essa redistribuição. A Lei 12.232/2010, sancionada no final do segundo mandato do presidente Lula, regula a contratação de agências de publicidade, mas não estabelece cotas obrigatórias, o que significa que a destinação de recursos depende fundamentalmente de decisão política da Secretaria de Comunicação. Ao retirar a mídia independente do centro da reivindicação, enfraquece-se o único campo capaz de disputar, na prática, a estrutura de financiamento que sustenta o sistema comunicacional brasileiro. Porque não existe democratização da comunicação sem redistribuição de recursos. E não existe redistribuição de recursos sem sujeito político disposto a reivindicá-la.

“Eu acho vocês heróis, por Deus do céu, o esforço que vocês fazem todo santo dia.”

O presidente Lula, ao longo da resposta, reconhece o esforço cotidiano desses veículos e chega a qualificá-los como “heróis”, além de admitir a necessidade de criar condições para ampliar o acesso à produção comunicacional. No entanto, esse reconhecimento simbólico convive com uma realidade em que milhares de iniciativas seguem operando com extrema precariedade, dependendo de financiamento coletivo, trabalho voluntário e apoios pontuais para se manterem ativas.

Assumir que é, sim, sobre a gente não significa reduzir o alcance da pauta, mas torná-la concreta. Significa reconhecer que povos ribeirinhos, comunidades indígenas e periferias urbanas só conseguem disputar o espaço público porque existe uma rede que sustenta tecnicamente essa presença. E essa rede, hoje, recebe menos de 10% dos recursos enquanto enfrenta um sistema em que até 80% do investimento se concentra nos mesmos grupos que historicamente monopolizam a informação.

Negar isso é aceitar, ainda que involuntariamente, que a democratização da comunicação continue sendo um discurso sem base material, incapaz de alterar a estrutura que define quem fala, quem é ouvido e quem permanece fora do campo visível da sociedade.

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