Pesquisa Reuters/Ipsos mostra 66% de desaprovação ao presidente norte-americano e vantagem de 12 pontos dos democratas na preferência para o Congresso. Alta dos combustíveis, guerra contra o Irã e insatisfação com a economia ampliam o desgaste do governo a duas semanas das eleições legislativas.
Da Redação
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou ao menor índice de aprovação registrado pela Reuters/Ipsos em seus dois mandatos, com apenas 31% dos norte-americanos aprovando sua atuação na Casa Branca. O levantamento, concluído na segunda-feira (19) e divulgado a duas semanas das eleições legislativas de 3 de novembro, também revela que 66% desaprovam o governo e que a insatisfação com a economia atingiu uma parcela expressiva dos eleitores republicanos. A pesquisa registra ainda uma mudança importante na preferência partidária para o Congresso: 47% dos eleitores registrados afirmam que escolheriam candidatos democratas, contra 35% que optariam pelos republicanos. A diferença de 12 pontos percentuais é a maior encontrada pelo instituto durante o atual ciclo eleitoral.
Os números foram divulgados em um momento de pressão sobre a administração Trump, principalmente em razão da elevação dos preços da gasolina, das consequências econômicas da guerra contra o Irã e das dificuldades enfrentadas pelas famílias para equilibrar suas despesas. A aprovação presidencial recuou um ponto percentual em relação ao levantamento realizado duas semanas antes, quando estava em 32%. Embora a oscilação isolada seja pequena e esteja dentro da margem de erro, o patamar de 31% representa o resultado mais baixo identificado pela Reuters/Ipsos tanto no primeiro mandato, de 2017 a 2021, quanto no segundo, iniciado em janeiro de 2025.
A pesquisa ouviu 1.679 adultos residentes nos Estados Unidos, por meio de entrevistas online, durante quatro dias encerrados em 19 de outubro. Desse total, 1.279 eram eleitores registrados. A margem de erro informada é de dois pontos percentuais para o conjunto dos adultos e de três pontos para o grupo de eleitores registrados. Os percentuais de aprovação presidencial se referem à população adulta entrevistada, enquanto as intenções de voto para o Congresso foram medidas entre os eleitores registrados.
Essa distinção é importante porque os dois grupos não são idênticos. Nem todos os adultos estão registrados para votar, e o comportamento dos eleitores que efetivamente comparecem às urnas pode diferir daquele observado em pesquisas nacionais.
O desgaste de Trump ocorre em um contexto de aumento dos preços dos combustíveis que se intensificou depois dos ataques militares realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro. O conflito produziu instabilidade no abastecimento internacional de petróleo e derivados, elevando os custos da energia e afetando setores que dependem diretamente do transporte de mercadorias.
Nos Estados Unidos, a gasolina possui impacto particularmente importante no orçamento das famílias. A dependência de automóveis para deslocamentos cotidianos faz com que aumentos nos preços dos combustíveis sejam percebidos rapidamente pelos consumidores, sobretudo nas regiões onde o transporte público é limitado.
A alta também alcança o diesel utilizado no transporte rodoviário, na agricultura e em diferentes atividades industriais. Quando esses custos aumentam, empresas podem repassar parte das despesas aos preços de alimentos, serviços e outros produtos, ampliando os efeitos econômicos para além dos postos de abastecimento.
A Reuters relaciona esse cenário à deterioração da avaliação do governo, embora uma pesquisa de opinião não permita determinar que a guerra ou os preços da gasolina sejam responsáveis, isoladamente, por toda a queda na popularidade presidencial. O levantamento identifica a insatisfação dos entrevistados e o contexto econômico em que ela ocorre.
O dado mais expressivo sobre a administração da economia é a desaprovação de 68% dos participantes. Apenas cerca de um terço manifesta avaliação favorável à condução econômica de Trump, indicando que as dificuldades percebidas pelos consumidores ultrapassam as divisões partidárias tradicionais.
Entre os norte-americanos que se identificam como republicanos, 37% desaprovam a maneira como o presidente administra a economia. O percentual revela uma parcela relevante de insatisfação dentro do próprio campo político associado ao governo, embora não signifique que esses eleitores tenham necessariamente abandonado o Partido Republicano ou decidido votar na oposição.
A diferença entre desaprovar uma política econômica e modificar a preferência eleitoral é fundamental para compreender a pesquisa. Um eleitor pode discordar do governo em determinada área e, ainda assim, continuar apoiando candidatos republicanos por razões relacionadas a outras políticas, valores ou identificações partidárias.
Mesmo assim, a presença de insatisfação econômica entre republicanos acrescenta dificuldades à comunicação política do partido, que procura defender os resultados da administração federal diante de um eleitorado preocupado com o custo de vida.
O governo Trump sustenta que suas políticas comerciais, energéticas e tributárias procuram fortalecer a produção norte-americana, proteger empregos e ampliar a competitividade da economia. Seus representantes também atribuem parte das pressões sobre os preços à instabilidade internacional e a problemas acumulados em administrações anteriores.
O levantamento Reuters/Ipsos, entretanto, mostra que essas justificativas não impediram a expansão das avaliações negativas da condução econômica.
Democratas ampliam preferência na disputa pelo Congresso
A pesquisa também revela mudanças na chamada intenção de voto genérica, indicador utilizado nos Estados Unidos para medir qual partido os entrevistados prefeririam apoiar nas eleições legislativas sem apresentar os nomes dos candidatos de cada distrito ou estado.
Entre os eleitores registrados, 47% disseram escolher candidatos democratas e 35% manifestaram preferência pelos republicanos.
Duas semanas antes, os percentuais eram de 44% para os democratas e 37% para os republicanos. A diferença nominal entre os partidos passou, portanto, de sete para 12 pontos percentuais.
A mudança combina um aumento de três pontos na preferência declarada pelos democratas e uma redução de dois pontos para os republicanos.
A Reuters destaca que a distância atual é a maior registrada durante o ciclo eleitoral de 2026 em seus levantamentos. O resultado descreve uma alteração na distribuição nacional das preferências partidárias, mas não permite estabelecer automaticamente quantas cadeiras cada partido conquistará.
As eleições para a Câmara dos Representantes são realizadas em distritos, enquanto as disputas pelo Senado ocorrem nos estados que renovam suas vagas naquele ano. As condições políticas, a composição do eleitorado, a presença de candidatos conhecidos e a participação eleitoral variam de uma localidade para outra.
Por isso, uma diferença nacional de 12 pontos não se converte diretamente em vantagem equivalente nos resultados de cada disputa.
O desenho dos distritos eleitorais também influencia a relação entre votos recebidos e cadeiras conquistadas. Em diferentes estados, a delimitação geográfica dos distritos concentra ou distribui grupos de eleitores, produzindo efeitos sobre a competitividade das eleições.
No Senado, a situação é ainda mais específica. Apenas uma parcela das vagas é submetida à votação em cada ciclo eleitoral, e os estados possuem características políticas distintas. Uma pesquisa nacional genérica não mede diretamente as disputas individuais por essas cadeiras.
O resultado da Reuters/Ipsos, portanto, identifica o ambiente de opinião nacional, sem constituir uma previsão da composição futura do Congresso.
A possibilidade de alteração do controle de uma ou das duas casas legislativas possui importância para o funcionamento do governo federal.
Atualmente, os republicanos controlam o Congresso, condição que facilita a tramitação de iniciativas apoiadas pela Casa Branca, embora a aprovação de propostas também dependa de negociações internas e das regras específicas de cada casa.
Se a composição parlamentar mudar, Trump poderá enfrentar novas exigências de negociação para aprovar orçamentos, alterações tributárias e projetos relacionados à política econômica e à atuação internacional dos Estados Unidos.
A Câmara dos Representantes possui atribuições relevantes sobre despesas públicas e fiscalização do Executivo. O Senado participa da aprovação de nomeações e exerce funções específicas em matérias legislativas e institucionais.
A distribuição de forças entre os partidos pode, portanto, influenciar o alcance da agenda presidencial nos dois anos restantes do mandato.
Isso não significa que qualquer mudança de maioria produza automaticamente paralisação do governo. O Executivo norte-americano dispõe de competências próprias, e a relação entre Presidência e Congresso depende das matérias em discussão, dos instrumentos constitucionais disponíveis e da disposição dos parlamentares para negociar.
A relevância política das eleições de 3 de novembro está justamente na possibilidade de reorganização dessas relações institucionais.
Eleitorado feminino contribui para diferença entre os partidos
Um dos aspectos destacados pela Reuters é a participação das mulheres na ampliação da preferência nacional pelos democratas.
Entre as eleitoras registradas, 50% afirmaram que escolheriam candidatos do Partido Democrata, enquanto 32% disseram preferir os republicanos. A diferença é de 18 pontos percentuais.
O levantamento também encontrou maior preferência pelos democratas entre os homens, mas com uma distância menor entre os partidos.
Segundo a análise da agência, a ampliação da diferença nacional nas últimas semanas está associada, em parte, ao aumento da proporção de mulheres que manifestam preferência por candidaturas democratas.
Os números demonstram uma distribuição distinta das preferências por sexo, mas não identificam, por si só, as razões específicas dessas escolhas.
Para estabelecer quanto a inflação, a guerra contra o Irã, as políticas sociais ou outras questões influenciaram as respostas das eleitoras, seriam necessárias perguntas adicionais que permitissem relacionar diretamente cada tema à decisão partidária.
A interpretação também precisa considerar que mulheres e homens constituem grupos heterogêneos, com diferenças internas de idade, renda, escolaridade, região, religião e identificação política.
A preferência encontrada no conjunto das eleitoras não pode ser automaticamente atribuída a todas as mulheres norte-americanas.
Ainda assim, o resultado é relevante para compreender a composição das intenções de voto registradas pela pesquisa.
Em eleições legislativas, diferenças na participação de grupos demográficos podem produzir efeitos sobre disputas locais, especialmente quando a distância entre candidatos é pequena. A intensidade do comparecimento, contudo, somente poderá ser conhecida depois da votação.
O levantamento Reuters/Ipsos identifica eleitores registrados, e não apenas pessoas que já decidiram comparecer às urnas. Essa diferença impede tratar os percentuais como resultados eleitorais antecipados.
Insatisfação econômica atravessa divisões partidárias
A economia aparece como um dos principais pontos de desgaste da administração Trump.
Além dos 68% que desaprovam sua condução econômica, o levantamento identificou maior confiança relativa dos entrevistados no Partido Democrata para administrar essa área.
Quando perguntados sobre qual partido consideravam mais preparado para lidar com a economia, 40% escolheram os democratas, enquanto 33% apontaram os republicanos.
A diferença de sete pontos contrasta com uma das principais características da comunicação política de Trump, que frequentemente apresenta suas políticas como instrumentos de fortalecimento da produção nacional, redução de custos e proteção dos trabalhadores norte-americanos.
O presidente defende tarifas comerciais, incentivos à produção doméstica e medidas de expansão da oferta energética, associando essas iniciativas à recuperação da indústria e à preservação de empregos.
Entretanto, a combinação de tensões internacionais, elevação dos combustíveis e pressões sobre o orçamento doméstico tornou mais difícil sustentar uma avaliação positiva da situação econômica entre parcelas expressivas da população.
A guerra contra o Irã acrescentou um fator de instabilidade a esse cenário.
Desde os ataques de fevereiro, o mercado internacional de petróleo tem enfrentado períodos de elevada volatilidade, relacionados às condições de produção, às restrições de transporte marítimo e aos riscos de novas operações militares.
A instabilidade no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas energéticas do mundo, também afeta as expectativas de abastecimento. Mesmo quando determinadas cargas continuam circulando, os riscos de navegação podem elevar despesas com seguros, transporte e operações comerciais.
Esses custos contribuem para pressionar os preços internacionais de petróleo e derivados, que influenciam o mercado norte-americano.
A administração Trump tem procurado adotar medidas destinadas a reduzir a pressão sobre os combustíveis, incluindo negociações internacionais sobre a oferta de energia.
Entretanto, as decisões da Casa Branca não determinam isoladamente os preços pagos pelos consumidores. O mercado depende de condições globais de produção, distribuição, estoques e demanda.
A pesquisa mostra que as consequências econômicas percebidas pelos consumidores se tornaram parte importante da avaliação presidencial, independentemente da complexidade dos fatores que influenciam os preços.
Outro levantamento recente, realizado pelo Washington Post, pela ABC News e pela Ipsos, encontrou 33% de aprovação a Trump e 66% de desaprovação. A pesquisa também registrou ampla preocupação com o preço da gasolina.
A diferença entre os 31% da Reuters/Ipsos e os 33% desse outro estudo deve ser interpretada à luz das respectivas metodologias, datas de coleta e amostras.
Os resultados próximos de diferentes levantamentos reforçam a existência de ampla desaprovação presidencial, mas não autorizam afirmar que todas as pesquisas encontram exatamente o mesmo nível de apoio.
O instituto AP-NORC também identificou, em levantamento divulgado na semana anterior, insatisfação com a administração federal e desejo de mudanças em Washington entre parcelas relevantes dos entrevistados.
A convergência dessas medições indica que a avaliação negativa do governo não está restrita a uma única pesquisa. Ainda assim, cada estudo precisa ser examinado segundo seus próprios critérios.
A interpretação estatística também exige distinguir aprovação presidencial, percepção da economia e intenção de voto para o Congresso. Esses indicadores podem estar relacionados, mas não são intercambiáveis.
Uma avaliação negativa de Trump não implica necessariamente voto democrata, assim como a preferência por candidatos republicanos não exige aprovação integral de todas as decisões do presidente.
A dinâmica eleitoral depende de fatores adicionais, incluindo candidaturas locais, participação dos eleitores e acontecimentos posteriores à realização das pesquisas.
Eleições de novembro definirão nova relação entre Casa Branca e Congresso
As eleições legislativas norte-americanas ocorrerão em 3 de novembro, quando os eleitores escolherão todos os 435 integrantes da Câmara dos Representantes e parte dos membros do Senado, além de participar de disputas estaduais e locais.
As chamadas eleições de meio de mandato são realizadas entre duas eleições presidenciais e permitem renovar a representação parlamentar sem que o presidente em exercício esteja submetido diretamente à votação.
O resultado pode alterar a relação de forças entre a Casa Branca e o Congresso, especialmente em questões orçamentárias, tributárias, econômicas e de política externa.
Durante os próximos dois anos, Trump continuará exercendo a Presidência, mas a composição parlamentar poderá influenciar a tramitação das medidas que pretende adotar.
A atual pesquisa Reuters/Ipsos oferece um retrato do ambiente político nacional a duas semanas dessa votação.
O índice de 31% representa o menor nível de aprovação encontrado pela série do instituto nos dois mandatos do presidente. A desaprovação de sua condução econômica atinge 68%, e a preferência genérica pelo Partido Democrata supera a registrada para o Partido Republicano por 12 pontos percentuais.
Esses resultados demonstram dificuldades de aprovação pública e de preferência partidária no momento da coleta, mas não estabelecem o resultado das eleições.
A distribuição territorial do eleitorado, as condições específicas de cada disputa e o comparecimento às urnas continuarão sendo determinantes para a composição legislativa.
A leitura dos números também deve levar em conta a incerteza amostral. O recuo de um ponto percentual na aprovação presidencial desde a pesquisa anterior está dentro da margem de erro. O dado mais significativo não é uma mudança abrupta demonstrada por essa única comparação, mas a manutenção da aprovação em um patamar historicamente baixo na série Reuters/Ipsos.
Da mesma maneira, a ampliação de sete para 12 pontos na diferença entre democratas e republicanos revela uma variação nominal relevante, que deve ser acompanhada por outras medições antes de ser interpretada como uma mudança consolidada em todo o eleitorado.
O cenário econômico permanece como uma dimensão central desse processo. Os custos dos combustíveis, a inflação percebida pelas famílias e as consequências da guerra contra o Irã ocupam posição importante na avaliação do governo e na discussão sobre as políticas defendidas pelos partidos.
A dois anos do encerramento do segundo mandato de Trump, o resultado das eleições de novembro poderá modificar as condições institucionais em que essas políticas serão discutidas e implementadas.
Por enquanto, o levantamento de 19 de outubro registra dois fatos: Donald Trump enfrenta seu menor índice de aprovação na série Reuters/Ipsos, e os eleitores registrados consultados pelo instituto manifestam preferência nacional mais elevada por candidatos democratas ao Congresso do que por republicanos.
A extensão desses números às disputas locais e aos resultados parlamentares somente poderá ser avaliada a partir dos votos efetivamente registrados em 3 de novembro.
