Com 30 anos de trajetória, Gerson Ipirajá revisita a própria “teimosia” criativa, do Aracati às bienais internacionais, e explica por que sua obra hoje nasce das entidades, das ferramentas e da ancestralidade
Três décadas depois do primeiro ateliê, o artista visual, pesquisador e professor de gravura Gerson Ipirajá celebra uma carreira construída entre o litoral do Ceará e os circuitos de gravura mundo afora. Em entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas em 31 de outubro de 2025, Ipirajá fez um balanço da formação, dos prêmios e das viradas de linguagem que o trouxeram até aqui, além de comentar sua mostra de 30 anos, intitulada “Teimosia”. Esta matéria foi elaborada a partir do conteúdo veiculado pela TV Atitude Popular.
“Levar uma carreira por 30 anos no nosso país, com todas as dificuldades do percurso, é uma grande teimosia”, resumiu. A exposição comemorativa, realizada no Museu da Cultura Cearense, apresentou seu momento atual — pinturas, objetos e esculturas — e marcou a passagem de um artista que iniciou na xilogravura, atravessou salões e bienais, e hoje cruza desenho, cerâmica e sincretismo em peças que chama de “tabernáculos-ferramentas”.
Raiz e arquivo: o encontro com Zé Tarcísio
A história começa nos anos 1990, quando Ipirajá se muda para Aracati (CE) e encontra Zé Tarcísio. O convívio virou escola e ofício:
“O Zé foi um grande incentivador da minha carreira até hoje. Faço a organização do arquivo — é o arquivo de um artista vivo, em produção, em constante ebulição”, contou.
Ainda no interior, ele circula por grupos de teatro, assina cenários e adereços e vence prêmio com a peça “O Testamento do Cangaceiro” (1997), no Festival de Teatro Amador de João Pessoa. O retorno a Fortaleza, no fim da década, mira a formação continuada: cursos de gravura no Instituto Dragão do Mar com Eduardo Eloi, além de encontros com Ruben Grilo e Ana Letícia Quadros.
Técnica e linguagem: da pedra à cerâmica
Professor e gravador, Ipirajá não abandona o rigor de ofício. Ao explicar litografia, ele volta ao princípio:
“A matriz é uma pedra calcária. O desenho, feito com lápis gorduroso, encontra a tinta pela repulsa entre água e óleo. Foi a técnica que deu vazão a todo o desenvolvimento da indústria gráfica.”
Nos últimos anos, a investigação abriu espaço ao tridimensional: relevos, objetos e cerâmicas modeladas com orientação do ceramista Júlio Jardim. “Comecei a transformar os objetos que eu desenhava em peças escultóricas”, disse. Parte desse conjunto segue para Recife, onde o artista mantém ateliê coletivo e representação pela Galeria Arte Plural.
Ancestralidade como motor
O eixo mais recente da obra nasce de pesquisa visual em terreiros e da fusão entre símbolos de religiosidades afro-brasileiras e imaginário cristão de oratórios, nichos e tabernáculos:
“Meu trabalho parte das questões ancestrais”, afirma.
“Essas peças se chamam tabernáculos-ferramentas”, define, ao apresentar a série “Entidades e Ferramentas”.
Circuito, prêmios e formação de públicos
A vitrine internacional vem de 2005 em diante, quando o artista passa a enviar gravuras a salões e bienais: Varna, Ostrow (Polônia) e, mais recentemente, República da Macedônia, onde recebeu em 2024 um prêmio pelO conjunto da obra gravada. No Ceará, a “chancela” é o Salão de Abril: seis participações desde 2004 e Prêmio de Desenho em 2018.
Na frente de formação, Ipirajá integra e coordena iniciativas como o coletivo Em Gráfica (fundado em 2016) e o Ateliê de Gravura da Escola de Artes e Ofícios Tomás Pompeu Sobrinho, projeto público com curso de 180 horas (xilogravura, gravura em metal, litografia e serigrafia) e ateliê livre para continuidade dos estudos. “É política pública que vira prática de ateliê e sustenta a cena”, resume.
Mar, velas e cidade
Fora das salas expositivas, o artista participa do Aquavelas, encontro do festival Povos do Mar (Sesc), em Fortaleza e Jericoacoara: artistas pintam velas de jangadas que regressam ao mar numa regata cumulativa. Em paralelo, Ipirajá vive entre Fortaleza e Recife — “dois meses aqui, um mês lá” —, ensina gravura, recebe visitas de ateliê e prepara novas cerâmicas.
“Botar o trabalho para correr o mundo”
Para os próximos anos, nada de descanso:
“Artista não se aposenta, é pro resto da vida”, diz.
“O projeto é seguir a pesquisa e botar o trabalho para correr o mundo.”
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