Professor analisa a retomada da Doutrina Monroe por Donald Trump e aponta riscos para a soberania política, econômica e territorial da América Latina
Da Redação
A política de Donald Trump para a América Latina recupera os princípios da Doutrina Monroe, formulada no século XIX, mas acrescenta métodos próprios de pressão econômica, ação militar e interferência política. A avaliação é do professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará, que vê na ofensiva norte-americana uma tentativa de assegurar o controle sobre governos e recursos estratégicos do continente.
A análise foi apresentada no Café com Democracia desta segunda-feira (17), transmitido pela TV Atitude Popular. Durante a entrevista conduzida pelo sociólogo Luiz Regadas, Nelson Campos percorreu antecedentes históricos da política externa dos Estados Unidos e examinou como o discurso de combate ao narcotráfico passou a sustentar novas intervenções na região.
Segundo o professor, Trump não criou do zero uma política para as Américas. O presidente norte-americano atualiza uma tradição imperial iniciada antes dele, intensificando o uso de sanções, ameaças militares e alianças com governos de direita.
“Pode-se dizer que é uma nova roupagem, mas com a mesma fundamentação: poder, dominação e força militar como instrumento de conquista”, resumiu Nelson Campos.
Da Doutrina Monroe à política do “grande porrete”
A Doutrina Monroe foi apresentada em 1823 pelo então presidente dos Estados Unidos, James Monroe, em um contexto de disputas entre as potências europeias e de processos de independência nas Américas. Resumida pela expressão “América para os americanos”, a declaração rejeitava novas intervenções europeias no continente.
Nelson Campos lembrou que, apesar da formulação aparentemente defensiva, a doutrina também permitiu que Washington passasse a considerar o continente uma área submetida aos seus interesses. A retirada das antigas potências europeias não resultou na plena autonomia dos países latino-americanos, mas na ampliação da influência norte-americana.
“Era o direito dos Estados Unidos de considerar um ato de hostilidade qualquer intervenção europeia em assuntos que envolvessem países das Américas”, explicou.
A política ganhou um caráter mais diretamente intervencionista no início do século XX, com o Corolário Roosevelt. Apresentado em 1904 pelo presidente Theodore Roosevelt, o princípio autorizava os Estados Unidos a intervir em países latino-americanos sob o argumento de preservar a estabilidade e evitar a atuação de potências estrangeiras.
Roosevelt também ficou associado à política do Big Stick, expressão traduzida como “grande porrete”. Segundo Nelson, a orientação consistia em falar de maneira moderada, mas manter a força militar pronta para ser utilizada sempre que os interesses norte-americanos fossem contrariados.
Na avaliação do professor, Trump recupera esse método com menor preocupação diplomática. Além de ameaçar países adversários, o atual presidente dos Estados Unidos pressiona parceiros históricos, questiona acordos e apresenta pretensões sobre áreas como o Canal do Panamá e a Groenlândia.
Uma política anterior a Trump
Nelson ressaltou que o intervencionismo dos Estados Unidos não começou com o atual governo republicano. Administrações democratas e republicanas participaram de guerras, golpes, bloqueios e operações destinadas a assegurar os interesses econômicos e estratégicos de Washington.
O professor mencionou o apoio norte-americano ao golpe de 1964 no Brasil, que depôs o presidente João Goulart e abriu um período de 21 anos de ditadura. Documentos históricos confirmam que o governo dos Estados Unidos acompanhou a conspiração, apoiou seus articuladores e preparou a Operação Brother Sam para auxiliar os golpistas caso houvesse resistência.
Naquele período, o embaixador Lincoln Gordon manteve contato com setores civis e militares envolvidos na derrubada de João Goulart. Para Nelson, esse precedente ajuda a compreender por que a defesa da democracia aparece de maneira seletiva na política externa norte-americana.
“Eles falam em defender a democracia e ajudam a espalhar ditaduras, desde que sejam governos vinculados aos interesses dos Estados Unidos”, afirmou.
O professor citou ainda as guerras do Afeganistão, do Vietnã e do Iraque como demonstrações dos limites da superioridade militar norte-americana. No caso iraquiano, lembrou que a invasão de 2003 foi sustentada pela alegação de que o governo de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Os estoques anunciados pelo governo de George W. Bush nunca foram encontrados.
“As guerras se fazem com base em grandes mentiras”, declarou Nelson.
Combate ao narcotráfico como justificativa
Na entrevista, Luiz Regadas abordou os planos dos Estados Unidos para ampliar operações terrestres contra grupos ligados ao narcotráfico na América Latina. A estratégia anunciada pelo governo Trump prevê cooperação militar com países aliados e trata organizações criminosas de maneira semelhante aos grupos enfrentados na chamada guerra ao terror.
Nelson avaliou que o narcotráfico pode funcionar como justificativa para aumentar a presença militar norte-americana e reduzir a autonomia dos países envolvidos. Em sua leitura, o combate ao crime organizado não pode autorizar ações estrangeiras sem limites nem retirar dos governos latino-americanos o controle sobre seus territórios.
A tentativa de classificar organizações como o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas também foi mencionada. Essa mudança não seria apenas terminológica, pois poderia abrir espaço para sanções, ações militares e operações conduzidas sob regras distintas das utilizadas no enfrentamento comum à criminalidade.
Para o professor, o discurso antiterrorista precisa ser examinado diante da relação mantida pelos Estados Unidos com governos autoritários de outras regiões. Nelson também criticou o apoio norte-americano a Israel durante a destruição de Gaza e as mortes de civis palestinos.
“O país que mais espalha o terror pelo mundo se chama Estados Unidos da América”, afirmou.
A declaração apresenta a interpretação política do entrevistado sobre a atuação internacional de Washington. Ela foi associada por Nelson à participação dos Estados Unidos em guerras e intervenções realizadas sob diferentes justificativas ao longo das últimas décadas.
América Latina volta ao centro da disputa
Regadas perguntou por que os Estados Unidos pareciam ter reduzido a atenção dedicada à América Latina durante parte das últimas décadas. Nelson respondeu que Washington nunca abandonou o continente, embora tenha concentrado forças militares e políticas no Oriente Médio e em outras regiões.
Enquanto isso, países da América do Sul viveram um período de maior integração regional, principalmente durante a primeira década deste século. Governos progressistas ampliaram relações comerciais, criaram mecanismos de cooperação e buscaram posições diplomáticas menos subordinadas aos Estados Unidos.
Para Nelson, a retomada da ofensiva sobre o continente está ligada ao crescimento da China, à presença de governos que defendem políticas externas independentes e à disputa por recursos naturais. Petróleo, minerais críticos, água, biodiversidade e áreas estratégicas passaram a ocupar lugar central no conflito entre as grandes potências.
O professor citou Argentina, Paraguai, Equador, Peru, Bolívia e Colômbia ao comentar a formação de um campo regional mais próximo de Trump. As condições políticas de cada país são diferentes, mas Nelson identifica uma tendência de alinhamento à estratégia norte-americana.
Ao falar da Argentina, criticou o governo de Javier Milei e afirmou que a aproximação com Trump não resolveu os problemas sociais e econômicos do país. Segundo Nelson, o alinhamento externo pode aumentar a dependência financeira sem oferecer respostas à queda da renda e às dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores argentinos.
“Eles não estão apenas se relacionando. Estão ficando sob o domínio norte-americano”, avaliou.
Brasil declarado uma ameaça
Outro ponto abordado foi a decisão do governo Trump de manter a emergência nacional relacionada ao Brasil. A medida norte-americana classifica ações do governo brasileiro como uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos.
O documento acusa autoridades brasileiras de violar a liberdade de expressão, atingir empresas norte-americanas e perseguir Jair Bolsonaro, seus familiares e apoiadores. A declaração pode servir de fundamento jurídico para a imposição de sanções econômicas.
Nelson classificou as acusações como falsas e afirmou que o Brasil não representa uma ameaça militar ou econômica aos Estados Unidos. Para ele, o conflito está relacionado à recusa do governo do Presidente Lula em aceitar interferências sobre o Judiciário, as eleições e a política externa brasileira.
“O Brasil não representa nenhuma ameaça aos Estados Unidos. O governo Lula é baseado no direito à soberania e na defesa dos interesses nacionais”, declarou.
O professor também criticou políticos brasileiros que procuram apoio estrangeiro contra instituições do próprio país. Na sua avaliação, a associação entre grupos da extrema direita e o governo Trump converte disputas políticas internas em instrumentos de pressão externa sobre o Brasil.
A medida norte-americana não significa, por si só, que todas as sanções possíveis serão aplicadas. Ela preserva, porém, uma base legal para que Washington adote novas restrições caso decida ampliar o confronto diplomático e comercial.
Petróleo e minerais estratégicos
Para Nelson, a defesa da democracia não é a principal motivação das intervenções norte-americanas. O professor sustentou que o interesse por petróleo, minerais críticos e outras riquezas naturais ajuda a explicar a pressão sobre países latino-americanos.
Ele mencionou a Venezuela, detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, como exemplo da relação entre disputa política e interesse econômico. Em sua avaliação, as ações dos Estados Unidos contra o país não podem ser separadas da intenção de controlar a produção e a comercialização do recurso.
O Brasil também reúne reservas de petróleo e grandes depósitos de minerais utilizados na fabricação de baterias, semicondutores, equipamentos militares e tecnologias de energia limpa. Embora sejam chamados de terras raras, esses elementos são metais encontrados em diferentes formações minerais, cuja exploração e processamento adquiriram valor estratégico.
“Eles viriam para ajudar o Brasil a crescer ou para levar nosso petróleo e saquear nossas terras raras?”, questionou Luiz Regadas.
Nelson respondeu que a política externa norte-americana acompanha os interesses de empresas e setores econômicos que dependem desses recursos. Por isso, a soberania não se limita à propriedade formal das reservas. Ela exige capacidade de pesquisar, extrair, processar e transformar os minerais dentro do próprio país.
A indústria de guerra
A mudança do nome do Departamento de Defesa norte-americano para Departamento de Guerra também foi comentada no programa. Nelson avaliou que a escolha explicita a prioridade conferida por Trump às ações militares.
O professor chamou atenção para o papel econômico da indústria bélica. Empresas que produzem armas, mísseis, aeronaves e drones dependem de contratos públicos e de conflitos que mantenham a demanda por seus produtos.
“Quem tem interesse em guerras fica fora delas. Quem não tem interesse vai ser usado como bucha de canhão”, afirmou Nelson.
Para ele, discursos sobre ameaça externa e defesa da liberdade são utilizados para convencer trabalhadores a participar de conflitos que beneficiam setores econômicos poderosos. Os soldados assumem os riscos, enquanto fabricantes de armamentos acumulam contratos e lucros.
Essa relação ajuda a compreender por que a militarização do combate ao narcotráfico desperta preocupação. Ao tratar organizações criminosas como inimigos de guerra, os Estados Unidos ampliam o espaço para operações militares em países que, até então, conduziam o problema principalmente por meios policiais e judiciais.
Forças Armadas e influência norte-americana
Durante a participação do público, um espectador perguntou se existe relação entre a Doutrina Monroe e o comportamento histórico dos militares brasileiros. Nelson respondeu recordando o papel de oficiais no golpe de 1964 e a influência dos Estados Unidos na formação de setores das Forças Armadas.
O professor ressaltou que João Goulart era o comandante em chefe das Forças Armadas, mas foi deposto por generais que romperam a ordem constitucional. O episódio demonstra que a hierarquia militar não impede ações políticas conduzidas pelos comandos.
“Não é o quartel que se rebela, é o comandante do quartel. Os subordinados cumprem as ordens”, afirmou.
Nelson também criticou tentativas de retirar a expressão “ditadura militar” de materiais escolares. Segundo ele, apagar o nome modifica a maneira como novas gerações compreendem o regime instalado em 1964, responsável por cassações, prisões políticas, censura, tortura, desaparecimentos e mortes.
A substituição da palavra “ditadura” por “revolução” reproduz a narrativa criada pelos próprios golpistas. Para o professor, conhecer o passado é indispensável para identificar projetos autoritários apresentados sob novas denominações.
A disputa pelo significado da democracia
Nelson afirmou que o debate político atual está marcado pela circulação deliberada de informações falsas. Ao responder a comentários que classificavam a ex-vice-presidente norte-americana Kamala Harris como comunista, ele criticou o uso indiscriminado do termo para atacar qualquer adversário da extrema direita.
Na avaliação do professor, conceitos políticos são esvaziados para produzir medo e impedir o debate racional. A palavra “comunismo” passa a designar políticas sociais, regulação econômica, proteção trabalhista ou qualquer iniciativa que limite o poder de grupos privados.
Nelson recordou Galileu Galilei ao defender que ideias devem ser enfrentadas por argumentos e não pela força. Para ele, Trump adota o caminho oposto ao recorrer a sanções e ameaças contra países que não aceitam suas decisões.
“Ideias não se combatem pela força. Ideias se combatem com ideias melhores”, citou.
A frase atribuída a Galileu foi utilizada para mostrar que o confronto político precisa ser resolvido pelo debate público e pelas instituições. Quando governos substituem argumentos por coerção econômica ou militar, a relação entre países deixa de ser diplomática e passa a operar segundo uma lógica de imposição.
Uma Doutrina Trump para as Américas
Ao fim da entrevista, Nelson Campos concluiu que a expressão “Doutrina Trump” pode ser utilizada para identificar a forma atual do intervencionismo norte-americano. Ela não substitui a Doutrina Monroe, mas atualiza seus princípios de acordo com as disputas do século XXI.
A presença militar continua importante, mas agora aparece combinada a sanções financeiras, tarifas, controle tecnológico, pressão sobre eleições e alianças com governos ideologicamente próximos. O objetivo permanece associado à manutenção da influência dos Estados Unidos em uma região que Washington considera estratégica.
Para o Brasil, a resposta exige defesa das instituições democráticas, política externa independente e capacidade de administrar as próprias riquezas. Também requer uma posição clara contra qualquer tentativa de utilizar divergências internas como justificativa para ações estrangeiras.
Na avaliação de Nelson, compreender o passado permite reconhecer a continuidade existente entre a Doutrina Monroe, o Big Stick, o apoio a ditaduras e a atual política de Trump. Os métodos mudaram, mas a disputa pelo controle político e econômico do continente permanece.
Referências
Galileu Galilei
Astrônomo e pensador italiano citado durante a entrevista na discussão sobre liberdade de pensamento e confronto de ideias. Nenhuma obra específica foi mencionada no programa
Arthur Schopenhauer
Filósofo alemão citado por Nelson Campos ao comentar a estupidez e a recusa ao pensamento crítico. Nenhuma obra específica foi mencionada no programa
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