Atitude Popular

“As moedas municipais estão atravessando as fronteiras ideológicas”*

Pesquisadores apresentam no Bancos da Democracia um panorama inédito sobre a expansão das moedas sociais no Brasil e os debates que estarão no centro do congresso internacional RAMICS Rio 2026

Da Redação

O Programa Bancos da Democracia, apresentado por Sara Goes, recebeu pesquisadores envolvidos na organização do 8º Congresso Internacional Bienal da RAMICS (Research Association on Monetary Innovation and Community and Complementary Currency Systems), que acontecerá entre os dias 8 e 12 de junho, no Rio de Janeiro. Durante a entrevista, os convidados detalharam a programação do encontro e apresentaram resultados de pesquisas que apontam para a rápida expansão das moedas sociais e municipais no Brasil. As informações foram apresentadas pelos próprios organizadores do evento durante a edição do programa da Atitude Popular.

Com o tema “Pluralidade de Moedas Sociais: economia solidária, moedas municipais e comunitárias para futuros inclusivos e sustentáveis”, o congresso reunirá pesquisadores, gestores públicos, representantes de bancos comunitários, ativistas e organizações da economia solidária de diversos países. O evento será realizado na sede da Fundação Getulio Vargas, em Botafogo, e é organizado pela UFRJ, FGV, UFF e IFRJ.

Participaram da entrevista *Paula Duarte, doutora em Direito da Regulação pela FGV-RJ; **Luiz Arthur S. Faria, professor de Computação e Sociedade da COPPE/UFRJ; e *Manuela Lorenzo, pesquisadora de pós-doutorado da FGV EAESP.

A RAMICS é uma associação internacional dedicada à pesquisa sobre inovação monetária e sistemas monetários comunitários e complementares. Desde 2011, suas conferências bienais passaram por cidades como Lyon, Barcelona, Hida-Takayama, Sófia e Roma. O Brasil sediou o encontro pela primeira vez em Salvador, em 2015, e agora volta a receber o evento após mais de uma década.

Brasil se consolida como referência internacional

Segundo os organizadores, a escolha do Brasil para sediar novamente a conferência não ocorreu por acaso. O país se tornou uma das maiores referências mundiais em moedas sociais, bancos comunitários e experiências de finanças solidárias.

Luiz Arthur Faria destacou que a trajetória brasileira reúne uma diversidade rara de experiências que conectam inclusão financeira, desenvolvimento local, microcrédito, moedas digitais e políticas públicas municipais.

Ao longo da entrevista, ele lembrou que a relação entre pesquisa acadêmica e bancos comunitários acompanha toda a história do setor. Desde os anos 2000, pesquisadores de diferentes universidades brasileiras passaram a estudar e documentar experiências como o Banco Palmas, contribuindo para consolidar um campo de conhecimento reconhecido internacionalmente.

Mais de cem trabalhos apresentados

Paula Duarte revelou que o congresso superou as expectativas da própria organização.

Foram recebidas mais de 100 submissões de trabalhos acadêmicos e relatos de experiência, provenientes da América Latina, Europa, Ásia, África e América do Norte.

Após o processo de avaliação, foram selecionados 74 trabalhos para apresentação.

Segundo ela, cerca de dois terços dos participantes são brasileiros ou latino-americanos, enquanto o restante representa diversos países do mundo.

Além das sessões acadêmicas, a programação contará com palestras, mesas temáticas, premiação de artigos e relatos de experiência, exposição de pôsteres e visitas técnicas a iniciativas consideradas referências internacionais.

As atividades presenciais serão complementadas por transmissões online destinadas aos participantes inscritos.

Pesquisa revela avanço das moedas municipais

Um dos momentos mais importantes da entrevista foi a apresentação de uma pesquisa coordenada por Manuela Lorenzo, Luiz Arthur Faria, Eduardo Diniz e Kevin Ferreira.

O estudo analisou os programas de governo dos prefeitos eleitos em 2024 e identificou uma expansão significativa das propostas envolvendo moedas municipais.

A pesquisa encontrou 98 municípios cujos candidatos eleitos defenderam a criação ou ampliação de moedas sociais ou moedas verdes.

Segundo Manuela Lorenzo:

“As moedas municipais estão atravessando as fronteiras ideológicas.”

O levantamento identificou 61 propostas de moedas sociais e 40 propostas de moedas verdes. Três municípios apresentaram simultaneamente os dois modelos.

As moedas sociais têm como foco principal fortalecer economias locais e reduzir desigualdades. Já as moedas verdes procuram estimular práticas ambientalmente sustentáveis por meio de incentivos econômicos.

Das moedas comunitárias às moedas ambientais

A pesquisa também identificou uma transformação importante no perfil das iniciativas.

Se nas décadas anteriores as moedas sociais estavam fortemente associadas à inclusão financeira e ao desenvolvimento comunitário, atualmente surgem novos modelos ligados à reciclagem, à sustentabilidade ambiental e à transição energética.

Entre os exemplos citados estão programas que permitem a troca de resíduos por alimentos, créditos de consumo local ou benefícios fiscais.

Outro destaque é a integração entre moedas sociais e geração de energia solar comunitária.

Projetos como o *Palma Solar, em Fortaleza, e a experiência da *Orquídea Solar, em João Pessoa, buscam associar geração coletiva de energia limpa, redução de custos energéticos e fortalecimento da economia local.

Moedas sociais deixam de ser pauta exclusiva da esquerda

Um dos resultados mais surpreendentes da pesquisa foi a distribuição ideológica das propostas.

Ao contrário da expectativa inicial dos pesquisadores, as moedas municipais não aparecem apenas em programas de candidatos progressistas.

A maioria das propostas identificadas partiu de candidatos vinculados a partidos de centro-direita ou direita.

Para os pesquisadores, isso pode indicar que as moedas locais passaram a ser vistas não apenas como instrumentos de redistribuição de renda, mas também como ferramentas de gestão econômica e fortalecimento dos mercados locais.

Apesar disso, Luiz Arthur Faria observou que as diferenças ideológicas continuam aparecendo na forma como essas moedas são implementadas.

Segundo ele, alguns municípios utilizam os recursos gerados pela circulação monetária para criar fundos destinados ao fortalecimento da economia solidária, enquanto outros adotam modelos mais voltados para dinamização econômica sem mecanismos específicos de redistribuição.

Visitas técnicas mostrarão experiências de referência

Após três dias de debates acadêmicos, os participantes do congresso visitarão experiências consideradas estratégicas para o desenvolvimento das moedas locais no Brasil.
Uma das visitas ocorrerá em Maricá, onde funciona o Banco Mumbuca, referência internacional em políticas públicas baseadas em moeda social.
Outra atividade acontecerá em Niterói, envolvendo o Banco Arariboia e o Banco Preventório.
As visitas contarão com tradução simultânea para os participantes estrangeiros.

Congresso pretende construir legado permanente

Os organizadores destacaram que a intenção não é apenas realizar um encontro acadêmico.
Todo o conteúdo produzido durante o evento será registrado e transformado em material de consulta para pesquisadores, gestores públicos, ativistas e integrantes da economia solidária.
A expectativa é que o congresso fortaleça redes internacionais de pesquisa e amplie a circulação de conhecimentos produzidos a partir das experiências brasileiras.

Serviço

8º Congresso Internacional Bienal da RAMICS
Tema: Pluralidade de Moedas Sociais: economia solidária, moedas municipais e comunitárias para futuros inclusivos e sustentáveis
Data: 8 a 12 de junho de 2026
Local: Fundação Getulio Vargas (FGV)
Praia de Botafogo, 190
Rio de Janeiro (RJ)

Mais informações: RAMICS Rio 2026


📺 Programa Bancos da Democracia tem apoio do Ministério do Trabalho e Emprego (Termo de Fomento – MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO nº 00111/2025 // TRANSFEREGOV.BR Nº991217-2025)
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