Em debate no Vozes pela Democracia, Ana Veloso e Flávia Ribeiro analisam racismo, misoginia, transfobia e os limites ainda impostos à presença de mulheres negras na mídia e nos espaços de poder
A presença de mulheres negras na comunicação brasileira é hoje mais visível do que em outros momentos da história, mas essa conquista está longe de significar igualdade efetiva. Foi essa a linha central do debate promovido pelo programa Vozes pela Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular em parceria com o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, ao discutir os desafios, avanços e impasses do direito à comunicação para mulheres negras no Brasil.
A partir da entrevista conduzida por Souza Júnior, a jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco Ana Veloso, integrante do Intervozes e do Observatório de Mídia, e a jornalista Flávia Ribeiro, consultora de comunicação antirracista e autora de Comunicação, Interseccionalidade e Decolonialidade: escrevivências da Marcha Virtual, apontaram que a ocupação das telas e dos microfones é apenas a face mais aparente de uma disputa muito mais profunda. Nos bastidores, seguem em operação barreiras históricas ligadas ao racismo estrutural, ao machismo, à transfobia, à precarização e à concentração dos meios de comunicação.
Ao longo da conversa, Ana Veloso situou o debate em um contexto que classificou como grave e urgente. Para ela, o Brasil vive uma situação de “calamidade pública” diante do volume de violências dirigidas às mulheres, sobretudo às mulheres negras, tanto no ambiente físico quanto no digital. Ao comentar dados de feminicídio e violência online, a professora chamou atenção para o peso da interseccionalidade no país.
“As mulheres negras são a maior parte de todos os dados das pesquisas que a gente tem acesso”, afirmou. Em sua avaliação, a violência atinge com mais força justamente aquelas que já enfrentam vulnerabilidades econômicas, sociais e simbólicas. Por isso, sustenta, não há como discutir comunicação sem tratar ao mesmo tempo de raça, gênero, classe e poder.
A entrevistada também associou o agravamento desse cenário ao avanço da extrema direita e ao fortalecimento de discursos de ódio que encontram ampla circulação nas plataformas digitais. Segundo Ana, o problema não está apenas nos grupos radicalizados, mas também na permissividade institucional e midiática que normaliza esse ambiente. Em sua análise, parte da mídia comercial demorou a nomear adequadamente a extrema direita e segue contribuindo, por ação ou omissão, para a disseminação de ideias violentas travestidas de opinião ou liberdade de expressão.
“Liberdade de expressão não pode ser usada para ferir direitos humanos”, disse. A observação apareceu no contexto da discussão sobre ataques racistas, misóginos e transfóbicos dirigidos à deputada federal Erika Hilton, cuja trajetória foi mencionada no programa como exemplo de como a presença de mulheres negras e trans em espaços institucionais ainda provoca reações brutais de setores conservadores.
Ana foi enfática ao apontar que o caso de Erika Hilton não é isolado, mas expressão de uma sociedade que ainda resiste a reconhecer plenamente o direito dessas mulheres à palavra, à representação e ao poder. “O Brasil tem um déficit histórico contra as mulheres negras, contra as mulheres trans”, resumiu. Para ela, quando o Estado não responsabiliza adequadamente quem agride ou discrimina, produz também uma forma de violência institucional.
Já Flávia Ribeiro ampliou o debate ao destacar que a presença de mulheres negras e trans em cargos públicos e espaços de fala não é apenas um gesto simbólico. É, antes de tudo, uma ruptura concreta com estruturas que nunca foram desenhadas para acolhê-las. Ao comentar a importância de Erika Hilton e de outras parlamentares negras e progressistas, Flávia lembrou que o simples corpo dessas mulheres nesses espaços já produz tensão política.
“O corpo dela, o nosso corpo, é um corpo político”, afirmou. Na sua leitura, a existência pública dessas mulheres desafia uma lógica histórica que tentou empurrá-las para a margem, a invisibilidade ou a subalternidade. Não se trata apenas do direito de estar, mas do direito de transformar o espaço com novos repertórios, novas experiências e novas formas de pensar a sociedade.
Flávia recordou ainda que o poder institucional brasileiro foi estruturado por códigos masculinos e excludentes. Citou, por exemplo, situações em que mulheres sequer eram consideradas no desenho desses ambientes, como a ausência de banheiros femininos em tempos passados em certas instâncias de poder ou as normas rígidas de vestimenta que limitavam a presença feminina. Para ela, a disputa atual é também contra a ideia de que esses lugares continuam pertencendo naturalmente a homens brancos, cisgêneros e heterossexuais.
Ao refletir sobre o papel da mídia, a jornalista afirmou que os veículos e plataformas não criam sozinhos essas opressões, mas frequentemente as reforçam, legitimam ou amplificam. Por isso, insistiu na importância de nomear as violências corretamente. “É transfobia, é racismo”, declarou, ao criticar a tentativa recorrente de suavizar agressões como se fossem apenas polêmicas de opinião.
Flávia observou que dar nome a essas práticas é fundamental porque as narrativas moldam o que a sociedade considera aceitável. Quando a imprensa e os meios digitais naturalizam a misoginia ou a transfobia, colaboram para manter intacta a desumanização de grupos historicamente atacados. Em contrapartida, quando reconhecem essas estruturas, ajudam a devolver humanidade e centralidade política às experiências dessas mulheres.
O debate também abordou a dimensão cíclica dos direitos. Para Flávia, a história mostra que, sempre que grupos marginalizados conseguem avançar, surgem reações organizadas para conter ou reverter essas conquistas. Ela citou como exemplos os ataques às políticas de cotas, às pautas feministas e aos direitos reprodutivos, entendendo tudo isso como parte de um mesmo movimento reacionário. “Toda vez que esses grupos avançam em direitos, logo em seguida a extrema direita se reorganiza para tirar esses direitos”, sintetizou.
Esse raciocínio ajuda a entender por que o aumento da presença de mulheres negras nas telas não deve ser confundido com uma vitória concluída. Há mais rostos negros visíveis, mais apresentadoras, mais jornalistas, mais comentaristas e mais influenciadoras. Mas isso não elimina o racismo editorial, a desigualdade no acesso aos cargos de decisão, a violência virtual, a sub-representação em funções de comando e a cobrança permanente para que essas profissionais justifiquem sua presença o tempo todo.
Ana Veloso reforçou essa percepção ao defender que a democratização da comunicação passa necessariamente pela ocupação dos meios por sujeitos historicamente silenciados. Para ela, não basta incluir corpos diversos em ambientes controlados por lógicas excludentes. É preciso enfrentar o modelo de comunicação concentrado, comercial e pouco comprometido com os direitos humanos. Isso inclui, segundo sua fala, fortalecer a comunicação pública, comunitária e popular como parte essencial da democracia brasileira.
No fundo, o debate mostrou que o direito à comunicação, para mulheres negras, não é apenas o direito de aparecer. É o direito de existir sem violência, de falar sem ser interrompida por estruturas de opressão, de disputar narrativas, de produzir conhecimento, de ocupar redações, universidades, mandatos, estúdios e plataformas com autonomia e legitimidade.
Ao final do programa, ficou a impressão de que a questão central não é saber se houve avanço, porque ele existe e é visível. A questão é medir o tamanho da resistência que ainda se ergue contra esse avanço e perceber que cada conquista segue sendo disputada em tempo real. Nesse cenário, a luta das mulheres negras pela comunicação continua sendo, ao mesmo tempo, uma luta por cidadania, memória, representação, democracia e futuro.
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