Com concentração no Conjunto Tamandaré, 32º Grito dos Excluídos e Excluídas levará ao Jangurussu a defesa das mulheres, da moradia e da soberania nacional
Da Redação
O 32º Grito dos Excluídos e Excluídas será realizado no dia 7 de setembro, no Grande Jangurussu, em Fortaleza. A concentração começará às 8h, na Praça do Conjunto Tamandaré, localizada na Rua Gergelim. Depois da acolhida, os participantes seguirão em caminhada até o Açude do Jangurussu.
As informações foram apresentadas por Ítalo Morais, assessor das Pastorais Sociais da Arquidiocese de Fortaleza, durante entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular. A edição contou ainda com comentários de Fábio Sobral e foi apresentada por Sara Goes. A participação de Lúcia Ângelo, coordenadora da Pastoral Operária no Ceará, estava prevista, mas ela não chegou a entrar na transmissão.
Com o tema permanente “Vida em primeiro lugar”, a mobilização deste ano adota o lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”. A programação reunirá pastorais sociais, comunidades eclesiais de base, sindicatos, movimentos populares, organizações estudantis e moradores da região.
O percurso terá paradas destinadas a discutir o enfrentamento à violência contra as mulheres, o direito à terra, a cultura de paz, a moradia, a soberania nacional e a democracia. Representantes de coletivos e comunidades diretamente atingidos por esses problemas conduzirão as falas.
Ítalo explicou que, neste ano, as intervenções previstas nas paradas serão feitas por mulheres ligadas às organizações sociais e aos territórios participantes.
“A comunidade que está recebendo não será apenas espectadora. Ela também vai trazer o seu grito e falar quais são as reais necessidades daquele local.”
Um movimento construído ao longo do ano
Criado em 1995, o Grito dos Excluídos e Excluídas nasceu a partir das reflexões das Semanas Sociais Brasileiras e das Campanhas da Fraternidade. A escolha do 7 de setembro procurava questionar quem havia conquistado independência real em um país marcado pela desigualdade.
Naquele período, o Brasil vivia o início do governo Fernando Henrique Cardoso e a expansão das políticas econômicas neoliberais. Organizações religiosas, sindicatos e movimentos sociais passaram a ocupar as ruas para confrontar uma celebração oficial que não incluía os problemas enfrentados por trabalhadores, moradores das periferias e comunidades submetidas à ausência de serviços públicos.
Ítalo ressaltou que a mobilização não se resume à caminhada realizada no Dia da Independência. O ato público encerra um processo iniciado meses antes, com reuniões, plenárias e atividades nas comunidades.
“O Grito não é só o 7 de setembro. Existe um caminho que se inicia e, no dia 7, acontece a grande culminância de tudo o que construímos ao longo do ano.”
A Coordenação Nacional inicia os trabalhos por volta de março, quando começa a avaliação da edição anterior e a discussão sobre o tema, o lema e a identidade visual da nova campanha. Representantes dos estados participam das decisões e apresentam as reivindicações presentes em cada região.
Em Fortaleza, as plenárias locais costumam começar entre abril e maio. Embora as Pastorais Sociais da Arquidiocese exerçam uma função importante na organização, a construção envolve movimentos estudantis, entidades sindicais, comunidades religiosas, partidos e organizações populares.
Por que o Jangurussu foi escolhido
A realização do ato no Jangurussu está relacionada às condições sociais da região e às reivindicações apresentadas por seus moradores. O território reúne diversos bairros e comunidades que convivem com problemas de moradia, saneamento, violência e acesso desigual aos serviços públicos.
Durante décadas, a região foi associada ao antigo lixão de Fortaleza. O estigma permanece presente, embora o Grande Jangurussu também tenha desenvolvido uma ampla rede de organizações comunitárias e iniciativas de economia solidária.
Ítalo apontou que uma das preocupações atuais é a situação do Açude do Jangurussu. Moradores denunciam que uma construção próxima ao canal teria prejudicado o fluxo natural da água e ampliado o risco de alagamentos.
No período chuvoso mais recente, casas localizadas no entorno foram atingidas com maior intensidade. A ameaça de rompimento e os problemas causados às famílias foram considerados na escolha do território para receber o Grito.
“A luta pela proteção do açude foi uma das motivações. Também fizemos um levantamento dos pontos da cidade com mais denúncias de feminicídio e violência contra as mulheres.”
A organização pretende abrir espaço para que os próprios moradores apresentem suas reivindicações durante a caminhada. Dessa maneira, o ato nacional será conectado aos problemas concretos do território.
Da remoção forçada à organização comunitária
Fábio Sobral, que atua há mais de três décadas em atividades políticas e sociais no Jangurussu, recordou que parte das comunidades da região foi formada por famílias removidas da faixa litorânea de Fortaleza durante a ditadura militar.
Segundo ele, as expulsões ocorreram no início da década de 1970 e estavam ligadas à valorização dos terrenos próximos à praia. Muitas famílias foram transferidas para áreas distantes, sem infraestrutura, transporte ou serviços básicos.
A remoção também destruiu atividades econômicas e vínculos culturais. Pescadores levados para bairros localizados a mais de 20 quilômetros da costa perderam o acesso ao local de trabalho e às relações comunitárias construídas ao redor da pesca.
“O Jangurussu é a expressão da crueldade capitalista, mas também é fruto de uma luta. As pessoas começaram a se organizar por moradia digna, saneamento, escola e transporte.”
Fábio destacou que a região respondeu ao abandono por meio da organização comunitária. Associações de moradores, grupos religiosos, projetos de educação e iniciativas econômicas passaram a reivindicar políticas públicas e a construir soluções locais.
Uma dessas experiências é o Banco Palmas, criado no Conjunto Palmeiras para facilitar o acesso a crédito, apoiar pequenos comércios e manter parte dos recursos circulando no próprio território.
O comentarista também mencionou iniciativas esportivas, organizações de catadores e catadoras de materiais recicláveis e mobilizações por saneamento. Para ele, reduzir o Jangurussu à violência ou ao antigo lixão significa ignorar décadas de resistência e participação comunitária.
“É um território que vive as contradições urbanas do Brasil. Também é uma comunidade de luta, formada por pessoas dignas.”
Associação de catadores e projetos sociais
Ítalo Morais citou a Associação dos Catadores do Jangurussu, a Ascajan, como exemplo da capacidade de organização existente no território. A entidade reúne trabalhadores que retiram dos resíduos sólidos o sustento de suas famílias e prestam um serviço ambiental à cidade.
Projetos esportivos também desenvolvem atividades com crianças e adolescentes por meio da capoeira, do muay thai e do kickboxing. Essas iniciativas oferecem espaços de convivência e procuram reduzir a exposição de jovens ao recrutamento por organizações criminosas.
Outro eixo de mobilização é o saneamento. Lideranças comunitárias pressionam o poder público para ampliar as redes de água e esgoto e trabalham na conscientização dos moradores sobre a importância da adesão ao serviço.
As comunidades eclesiais de base e a Pastoral Operária tiveram participação constante nessas lutas. A presença do Grito no Jangurussu pretende reconhecer esse percurso e ampliar a visibilidade das reivindicações atuais.
Combate ao feminicídio
A defesa da vida das mulheres ocupa um lugar central no lema desta edição. A organização considera que o feminicídio não pode ser tratado apenas como uma sucessão de crimes individuais, pois está relacionado às desigualdades econômicas, à dependência financeira e à falta de políticas de proteção.
O levantamento realizado durante a preparação do ato identificou regiões de Fortaleza com denúncias recorrentes de violência contra mulheres. O Jangurussu apareceu entre os territórios que demandam maior atenção.
As paradas temáticas da caminhada serão conduzidas por mulheres ligadas a coletivos e comunidades. A proposta é permitir que as pessoas afetadas falem sobre os problemas e indiquem quais medidas consideram necessárias.
O lema associa a defesa das mulheres à moradia, à paz e à soberania porque essas questões se cruzam na vida cotidiana. Mulheres sem renda ou residência segura enfrentam dificuldades maiores para romper relações violentas. Em áreas afetadas por conflitos entre grupos armados, o acesso à proteção pública também se torna mais limitado.
Escala 6 por 1 recoloca os trabalhadores no centro
O debate sobre o fim da escala 6 por 1 também será incorporado à mobilização. Durante o programa, os participantes comentaram a aprovação da proposta na Comissão de Constituição e Justiça do Senado e as dificuldades para levá-la ao plenário.
Ítalo avaliou que a campanha pela redução da jornada conseguiu mobilizar trabalhadores que não participam de sindicatos ou movimentos organizados. A pauta alcançou pessoas submetidas a longas jornadas, com pouco tempo para acompanhar os filhos, descansar ou participar da vida comunitária.
“Há muito tempo a esquerda não tinha uma pauta que mobilizasse tanto a classe trabalhadora não organizada nos sindicatos como o fim da escala 6 por 1.”
Segundo o assessor, o debate contribui para recuperar a percepção dos conflitos entre os interesses dos trabalhadores e as prioridades dos grandes empregadores. A proposta tornou mais visível a disputa sobre quem se beneficia da produtividade e quem suporta as condições mais duras do trabalho.
Ítalo também chamou atenção para os trabalhadores de aplicativos. Esse grupo acompanha uma disputa intensa de informações sobre direitos previdenciários, remuneração e regulamentação das plataformas.
De um lado, são apresentadas propostas para garantir proteção social. Do outro, empresas e representantes da direita alegam que novos direitos provocariam a saída das plataformas do Brasil. Para Ítalo, essa reação procura gerar medo entre os próprios trabalhadores que seriam beneficiados.
Independência para quem
O Grito dos Excluídos e Excluídas foi criado como um contraponto às comemorações militares do Dia da Independência. Enquanto os desfiles oficiais costumam destacar as Forças Armadas, a mobilização lembra que a formação do Brasil também dependeu das lutas de indígenas, negros, trabalhadores e comunidades locais.
Fábio Sobral afirmou que a apresentação da Independência como resultado quase exclusivo da ação militar distorce o processo de formação nacional.
Ele citou as Batalhas dos Guararapes, em Pernambuco, e as lutas pela Independência na Bahia como exemplos de conflitos que envolveram diretamente diferentes grupos sociais. Também mencionou as disputas territoriais no atual estado do Amapá.
“A Independência como uma comemoração puramente militar é uma distorção. O que garante o Brasil é o nosso idioma, a nossa cultura e a existência de quem vive neste país.”
Para o comentarista, as Forças Armadas não podem ser apresentadas como únicas responsáveis pela soberania, principalmente quando setores militares participaram de golpes ou apoiaram governos subordinados a interesses estrangeiros.
O Grito propõe outra leitura do 7 de setembro: uma independência relacionada ao direito à moradia, ao trabalho digno, à participação política e ao controle das riquezas nacionais.
Soberania em ano eleitoral
O lema desta edição também destaca a soberania nacional. Para Ítalo, o tema ganhou importância diante das pressões estrangeiras sobre o Brasil e das mudanças políticas ocorridas em outros países latino-americanos.
O assessor relacionou a defesa da soberania à integração regional, ao fortalecimento dos Brics e à possibilidade de o Brasil manter relações internacionais sem submissão aos Estados Unidos.
“Perder as eleições deste ano é consolidar o poder dos Estados Unidos na América Latina e transformar novamente a região em quintal dos Estados Unidos.”
Ítalo afirmou que a eleição presidencial de 2026 não terá consequências apenas internas. O resultado poderá interferir na posição do Brasil em negociações comerciais, ambientais e diplomáticas, além de influenciar governos e movimentos progressistas de outros países.
A mobilização do dia 7 será realizada em um período de forte disputa eleitoral. Atos da extrema direita também são esperados em várias cidades. Os organizadores defendem que o Grito mantenha sua autonomia como articulação de movimentos e pastorais, mas não esconda sua posição em defesa da democracia e contra projetos autoritários.
Ligação com a doutrina social da Igreja
Ítalo contestou a acusação de que o Grito dos Excluídos seria uma mobilização partidária ou uma atividade sem relação com a Igreja Católica. Segundo ele, as bandeiras defendidas estão ligadas à doutrina social da Igreja e às orientações cristãs de defesa da vida.
“As causas levantadas são cristãs. A soberania, a vida das mulheres, a luta pela terra e a luta pela paz estão ligadas ao Evangelho.”
Em Fortaleza, a mobilização mantém uma relação próxima com a Arquidiocese por meio das Pastorais Sociais e das comunidades eclesiais de base. Essa participação não exclui entidades de outras religiões nem pessoas sem vínculo religioso.
A organização se apresenta como um espaço amplo, no qual diferentes grupos podem caminhar juntos em torno de reivindicações sociais comuns.
Convite para ocupar o Jangurussu
Ítalo reconheceu que o estigma associado ao Jangurussu pode causar receio em parte das pessoas interessadas em participar. Ele comparou a situação à edição anterior, realizada na região do Vicente Pinzón e da Praia do Futuro durante um período de conflitos entre facções.
Naquele momento, a organização decidiu não abandonar as comunidades. O ato foi realizado como demonstração de solidariedade às famílias que conviviam com a violência e transcorreu sem problemas.
“Nós devemos ocupar as ruas. As ruas são o nosso lugar de origem e da nossa militância.”
O assessor convidou movimentos, pastorais, sindicatos, famílias e pessoas sem ligação com entidades a comparecerem ao ato. Quem não faz parte de nenhum coletivo poderá participar sozinho e conhecer as organizações presentes.
A concentração ocorrerá às 8h na Praça do Conjunto Tamandaré, na Rua Gergelim. A caminhada seguirá até o Açude do Jangurussu, com paradas para manifestações culturais, denúncias e falas das comunidades.
“Organize seu grupo, leve a família, mobilize seu coletivo ou vá sozinho. Todos e todas estão convidados.”
Ao escolher o Jangurussu, o 32º Grito dos Excluídos e Excluídas procura retirar o território do lugar de simples cenário da desigualdade. Moradores e organizações locais participarão como sujeitos do ato, apresentando suas próprias demandas e mostrando uma região formada também pela solidariedade e pela capacidade de organização.
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