Memória do guerrilheiro cearense segue como símbolo da resistência à ditadura
Da Redação
Neste 17 de maio de 2026, o cearense Bergson Gurjão Farias completaria 79 anos. Militante estudantil, dirigente do movimento universitário e integrante da Guerrilha do Araguaia, Bergson se tornou um dos nomes mais marcantes da resistência cearense à ditadura militar brasileira. Morto pelo Exército em 1972, após ser capturado durante as operações militares no Araguaia, ele permaneceu desaparecido político por décadas até que seus restos mortais fossem identificados por exame de DNA, em 2009.
Nascido em Fortaleza, em 1947, Bergson cursava Química na Universidade Federal do Ceará (UFC) quando passou a atuar intensamente no movimento estudantil. Foi vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFC em um período marcado pela radicalização política após o golpe de 1964. Em outubro de 1968, acabou preso durante o Congresso da UNE em Ibiúna, no interior de São Paulo, uma das maiores ações repressivas contra o movimento estudantil brasileiro. Pouco depois, foi expulso da universidade com base no Decreto-Lei 477, instrumento criado pela ditadura para perseguir estudantes, professores e servidores considerados “subversivos”.
Ainda jovem, Bergson já carregava marcas físicas da repressão. Durante uma manifestação estudantil no Ceará, foi atingido por um tiro na cabeça. Condenado pela Justiça Militar e perseguido pelo regime, mergulhou na clandestinidade e passou a integrar o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), sendo posteriormente enviado para a região do Araguaia, onde o partido organizava um foco de resistência armada contra a ditadura. No local, utilizava o codinome “Jorge”.
As circunstâncias de sua morte permanecem cercadas por contradições produzidas pelo próprio aparato repressivo. Relatórios militares divergem sobre datas e detalhes da operação. Testemunhos de sobreviventes, porém, relatam que Bergson foi atingido em uma emboscada organizada com apoio de informantes locais, capturado ferido e posteriormente executado sob tortura. Há registros de que seu corpo mutilado teria sido exposto por militares em Xambioá, em uma demonstração brutal do terror empregado pelo Estado brasileiro contra os guerrilheiros do Araguaia.
Durante mais de trinta anos, sua família viveu sem informações oficiais sobre o paradeiro do corpo. Apenas nos anos 1990 ocorreram escavações no cemitério de Xambioá, no atual Tocantins. Em julho de 2009, a identificação das ossadas foi finalmente confirmada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos e pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Bergson tornou-se um dos poucos guerrilheiros do Araguaia oficialmente identificados pelo Estado brasileiro.
Neste domingo, diversas homenagens lembraram sua trajetória. Entre elas, a do juiz do trabalho aposentado e ativista Inocêncio Uchôa, que conviveu com Bergson no movimento estudantil e durante a repressão da ditadura. “Grande Bergson Gurjão Farias, companheiro do ME cearense e da prisão no XXX Congresso da UNE, em Ibiúna-SP. Presente!”, escreveu.
No Ceará, sua memória atravessa gerações. Bergson dá nome a espaços públicos, escolas e equipamentos culturais. Na UFC, sua trajetória passou a ser resgatada institucionalmente como parte da memória democrática da universidade. Em 2025, a instituição concedeu simbolicamente seu diploma de graduação, mais de cinco décadas após sua morte. A homenagem foi descrita pela própria universidade como um gesto de reparação histórica diante da perseguição sofrida durante a ditadura.
A história de Bergson Gurjão permanece ligada não apenas à repressão do passado, mas também às disputas contemporâneas em torno da memória política brasileira. Em um país onde setores da extrema direita seguem relativizando crimes da ditadura militar, sua trajetória reaparece como lembrança concreta de um período marcado por prisões ilegais, desaparecimentos forçados, censura e execuções praticadas pelo Estado.
Mais do que uma figura histórica, Bergson continua presente na memória política do Ceará. Seu nome atravessa movimentos estudantis, organizações populares e iniciativas ligadas à defesa dos direitos humanos. Para familiares, amigos e militantes que mantêm viva sua lembrança, o aniversário deste 17 de maio não marca apenas a data de nascimento de um guerrilheiro do Araguaia, mas a permanência de uma pergunta que ainda atravessa a democracia brasileira: até onde um Estado pode ir quando transforma opositores políticos em inimigos a serem eliminados?



