Da Redação
Governo federal prepara linha de crédito de até R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativo e taxistas comprarem veículos novos, incluindo modelos elétricos, em mais uma ofensiva de Lula para ampliar apoio popular entre trabalhadores do transporte.
O governo Lula prepara o lançamento de um programa bilionário voltado à renovação da frota de veículos utilizada por motoristas de aplicativo e taxistas. A iniciativa prevê até R$ 30 bilhões em crédito subsidiado e deve ser oficialmente anunciada nos próximos dias em São Paulo.
A proposta marca mais uma tentativa do Palácio do Planalto de se aproximar de categorias historicamente disputadas politicamente pela direita e pelo bolsonarismo, especialmente trabalhadores ligados ao transporte urbano, aplicativos e logística.
Segundo informações divulgadas inicialmente pela revista Exame e repercutidas pelo Brasil 247, o programa contará com participação do BNDES e será operacionalizado por meio de linhas de financiamento com juros reduzidos. O governo também pretende estimular a compra de veículos elétricos e menos poluentes dentro do pacote.
A medida possui enorme peso político e econômico.
Nos últimos anos, motoristas de aplicativo passaram a ocupar posição central na economia urbana brasileira. O crescimento explosivo das plataformas digitais transformou milhões de trabalhadores em motoristas autônomos, muitas vezes submetidos a jornadas extremamente longas, custos elevados de manutenção e forte precarização das condições de trabalho.
Combustível caro, financiamento alto, manutenção crescente e desvalorização dos veículos passaram a pressionar fortemente a renda da categoria. Nesse contexto, a renovação da frota virou demanda permanente de associações e grupos organizados de motoristas.
O governo agora tenta transformar essa pauta em política pública nacional.
Pelas regras em discussão, um dos critérios para adesão ao programa será a comprovação de atividade regular como motorista de aplicativo ou taxista. Uma das exigências debatidas é a realização mínima de cerca de 100 corridas ao longo dos últimos 12 meses, numa tentativa de impedir fraudes e garantir que o benefício chegue efetivamente a trabalhadores ativos do setor.
Ainda não foram divulgados detalhes definitivos sobre:
taxas de juros,
prazo de financiamento,
valor máximo por veículo
ou critérios completos de renda.
Mas o eixo central já está claro:
ampliar crédito popular e estimular simultaneamente indústria automotiva, mobilidade urbana e eletrificação da frota nacional.
O programa também revela uma mudança importante na estratégia política do governo Lula.
Depois de enfrentar dificuldades de popularidade em parte do eleitorado masculino e de trabalhadores autônomos, o governo passou a intensificar políticas voltadas justamente para segmentos associados ao cotidiano da economia informal e da chamada “uberização” do trabalho.
Nos bastidores de Brasília, existe a percepção de que motoristas de aplicativo se tornaram uma espécie de símbolo político da precarização contemporânea do trabalho urbano brasileiro.
São trabalhadores que:
dependem integralmente de plataformas digitais,
operam sem proteção trabalhista clássica,
enfrentam alta instabilidade econômica
e permanecem extremamente sensíveis ao preço do combustível, crédito e manutenção automotiva.
Ao oferecer financiamento subsidiado, Lula tenta ocupar politicamente esse território.
E existe outro elemento estratégico importante:
os veículos elétricos.
O incentivo à eletrificação aparece como parte da tentativa do governo de conectar política industrial, transição energética e reindustrialização brasileira. A ideia é usar crédito estatal para estimular renovação tecnológica da frota nacional enquanto o país tenta recuperar capacidade industrial perdida nas últimas décadas.
O programa também se conecta a outras iniciativas recentes do governo federal voltadas ao setor de transportes.
Nas últimas semanas, o Planalto ampliou o programa Move Brasil, inicialmente voltado à renovação de caminhões, incluindo também ônibus e máquinas agrícolas em linhas de crédito subsidiadas.
O objetivo parece cada vez mais claro:
usar bancos públicos, crédito estatal e financiamento direcionado como instrumentos de reorganização econômica e estímulo industrial.
Ao mesmo tempo, Lula também tenta reconstruir pontes políticas com categorias que passaram anos fortemente influenciadas pelo bolsonarismo.
Motoristas de aplicativo, caminhoneiros e trabalhadores autônomos se transformaram numa das principais bases sociais da extrema-direita brasileira ao longo dos últimos anos, especialmente durante o ciclo de radicalização política pós-2018.
Agora o governo federal tenta disputar esse eleitorado não apenas no discurso, mas através de políticas concretas ligadas diretamente à sobrevivência econômica cotidiana dessas categorias.
A iniciativa também possui impacto potencial sobre o mercado automotivo brasileiro.
Caso o programa realmente alcance os R$ 30 bilhões previstos, ele poderá impulsionar fortemente vendas de veículos novos e acelerar renovação da frota circulante em grandes centros urbanos.
Especialmente porque muitos motoristas atualmente trabalham com carros antigos, altamente desgastados e com custos crescentes de manutenção.
Para o governo Lula, o programa possui dupla função:
estimular economia e gerar dividendos políticos.
E em ano pré-eleitoral, poucas coisas possuem mais força política do que crédito barato chegando diretamente na mão de trabalhadores urbanos precarizados.



