Manifesto, que começou com 47 assinaturas e já reunia 61 bispos ao longo desta sexta-feira, questiona propostas associadas a Flávio Bolsonaro à luz da Doutrina Social da Igreja. Religiosos abordam direitos dos trabalhadores, pobreza, meio ambiente, acesso às armas, influência estrangeira e memória da ditadura militar. Documento não cita nominalmente os candidatos, mas explicita as razões de sua preocupação.
Da Redação
Uma carta pública assinada por bispos, arcebispos e bispos eméritos de diferentes regiões do Brasil introduziu a Doutrina Social da Igreja Católica no centro do debate sobre o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Divulgado na quinta-feira, 22 de outubro, o documento apresenta uma avaliação severa das propostas e posições políticas associadas à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL), relacionando-as a temas como democracia, soberania nacional, direitos trabalhistas, desigualdade social, meio ambiente e respeito às instituições. A manifestação, inicialmente noticiada pelo g1 com 47 signatários de 19 estados, continuou recebendo adesões e já reunia 61 bispos no fim da manhã desta sexta-feira (23), segundo o jornal Extra Classe. O texto não menciona nominalmente Flávio Bolsonaro ou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas utiliza referências que permitem identificar os dois concorrentes.
Intitulada Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026, a manifestação procura orientar uma reflexão sobre as escolhas políticas a partir dos princípios sociais do catolicismo. Os signatários afirmam que a disputa presidencial envolve questões mais amplas do que a preferência por partidos ou governantes, porque determinadas propostas podem produzir consequências duradouras sobre direitos sociais, instituições democráticas e relações internacionais. Para sustentar seus argumentos, recorrem a documentos pontifícios e à tradição da Doutrina Social da Igreja, que reconhece a dignidade humana, o bem comum, a solidariedade e a responsabilidade social como referências para o exercício da cidadania.
A iniciativa ocorre em um momento de intensa participação de organizações religiosas no debate público brasileiro. Ao longo da campanha, diferentes lideranças católicas e evangélicas divulgaram posições sobre segurança pública, direitos sociais, liberdade religiosa e papel do Estado. A carta dos bispos acrescenta uma intervenção específica, baseada na tradição do pensamento social católico e na avaliação dos signatários sobre as propostas apresentadas nesta eleição.
O documento não equivale a uma deliberação oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Seus autores se apresentam como bispos de diferentes dioceses, em comunhão com a entidade, e fazem referência à mensagem publicada pelo Conselho Permanente da conferência em 21 de outubro. Entretanto, a carta constitui uma manifestação dos religiosos que a subscrevem, não uma decisão institucional atribuível automaticamente à totalidade do episcopado brasileiro.
A distinção é importante porque a própria CNBB divulgou uma mensagem separada, sem mencionar partidos ou candidaturas, defendendo a Constituição, o Estado democrático de Direito, a integridade do processo eleitoral e o compromisso dos governantes com direitos sociais.
Na carta coletiva, os signatários adotam uma linguagem mais diretamente relacionada às propostas dos concorrentes. O texto afirma que uma das candidaturas apresenta antagonismos com princípios centrais da Doutrina Social da Igreja e desenvolve essa avaliação a partir de questões concretas.
Uma das primeiras diz respeito ao mundo do trabalho. Os religiosos criticam posições contrárias ao fim da escala 6×1 e propostas de remuneração baseadas nas horas efetivamente trabalhadas, argumentando que as transformações econômicas e tecnológicas devem ser examinadas à luz da dignidade do trabalhador, da remuneração suficiente e das condições necessárias à participação social.
A discussão sobre a jornada de trabalho ocupa lugar importante na disputa política brasileira. Os defensores da redução da escala 6×1 argumentam que a medida pode ampliar o tempo disponível para descanso, convivência familiar e qualificação profissional. Seus críticos apontam possíveis impactos sobre custos empresariais, organização produtiva e empregos, especialmente em setores intensivos em mão de obra.
A carta assume uma posição crítica às propostas que, segundo seus signatários, poderiam ampliar a precarização das relações de trabalho. Essa avaliação está relacionada à tradição católica de defesa da dignidade laboral, presente em documentos sociais desde a encíclica Rerum Novarum, publicada pelo papa Leão XIII em 1891.
Outro tema importante é a soberania nacional. Os bispos questionam o que descrevem como uma orientação de subordinação do Brasil aos interesses dos Estados Unidos. O documento associa essa preocupação a posições sobre tarifas comerciais, recursos minerais estratégicos e eventual intervenção estrangeira em assuntos políticos brasileiros.
Os religiosos recorrem ao princípio de que os povos possuem direito à existência e à autodeterminação, defendendo que decisões sobre o futuro nacional sejam tomadas respeitando a independência política do país.
As afirmações sobre suposta submissão aos Estados Unidos constituem interpretações políticas dos signatários. Sua avaliação exige, no debate público, o exame das propostas efetivamente apresentadas pelos candidatos e das relações institucionais existentes entre o Brasil e o governo norte-americano.
A questão da soberania, entretanto, ultrapassa a disputa eleitoral. Envolve decisões relacionadas ao comércio exterior, à exploração de recursos naturais, à política tecnológica e à capacidade de o Estado brasileiro estabelecer relações internacionais segundo seus próprios interesses.
A carta demonstra que parte do episcopado considera essas escolhas relevantes também do ponto de vista ético e social.
A preservação ambiental constitui outro eixo da manifestação. Os signatários criticam posições que identificam como insuficientes diante da crise climática e lembram a responsabilidade humana pela proteção dos ecossistemas e das condições de vida das populações.
A expressão “Casa Comum”, utilizada na tradição católica contemporânea, sintetiza a ideia de que a proteção ambiental está diretamente relacionada à justiça social, à dignidade humana e às condições de existência das futuras gerações.
Essa perspectiva ganhou projeção internacional com a encíclica Laudato si’, publicada pelo papa Francisco em 2015, que relacionou mudanças climáticas, degradação ambiental e desigualdades sociais.
No contexto brasileiro, os temas ambientais estão associados a decisões sobre desmatamento, política energética, agricultura, mineração e proteção dos territórios indígenas e tradicionais. Os efeitos dessas políticas atingem comunidades específicas e também possuem consequências para as relações comerciais e diplomáticas do país.
Ao incorporar o meio ambiente à reflexão eleitoral, os bispos afirmam que a responsabilidade pública deve considerar não apenas resultados econômicos imediatos, mas também os impactos das escolhas políticas sobre a vida coletiva e o futuro.
O documento aborda ainda a ampliação do acesso a armas de fogo. Os religiosos questionam propostas relacionadas à flexibilização das regras de posse e porte e fazem referência às medidas adotadas durante o governo Jair Bolsonaro.
Para os signatários, a defesa da vida e da paz deve constituir um princípio central das políticas públicas de segurança. A carta considera que a expansão da circulação de armas precisa ser examinada diante de suas possíveis consequências para a violência e a proteção da população.
O tema permanece objeto de divergência política no Brasil. Defensores de regras mais permissivas enfatizam o direito à autodefesa e a possibilidade de cidadãos legalmente habilitados possuírem armas. Críticos dessa orientação apontam riscos de acidentes, violência doméstica, conflitos interpessoais e desvio de armamentos para atividades criminosas.
O documento dos bispos se posiciona dentro dessa controvérsia, utilizando os princípios religiosos de proteção à vida e promoção da paz como fundamentos de sua avaliação.
Memória da ditadura e preservação das instituições
A dimensão mais diretamente institucional da carta aparece nas referências à democracia brasileira e à experiência histórica de regimes autoritários.
Os religiosos manifestam preocupação com posições que consideram incompatíveis com a ordem constitucional e recordam episódios de defesa ou elogio de agentes associados à repressão durante a ditadura militar brasileira.
Entre as referências está Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do Exército reconhecido judicialmente, na esfera civil, como responsável por práticas de tortura durante o regime militar. Ustra foi homenageado publicamente por Jair Bolsonaro em diferentes ocasiões, incluindo o voto proferido durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff em 2016.
A carta relaciona essa memória à necessidade de preservar mecanismos democráticos, direitos fundamentais e limites ao exercício do poder político.
Os bispos também evocam experiências autoritárias europeias do século XX e argumentam que a história demonstra os riscos associados à erosão das instituições e à normalização de práticas incompatíveis com a dignidade humana.
Essa comparação é apresentada pelos religiosos como advertência histórica. Não constitui uma conclusão judicial de que determinado candidato necessariamente estabelecerá um regime autoritário caso eleito.
A avaliação dos signatários está relacionada ao histórico político da família Bolsonaro, às declarações de seus integrantes e às posições que atribuem à candidatura do PL.
O documento contrasta esse histórico com a trajetória da outra candidatura, que considera mais vinculada à proteção dos pobres, à preocupação ambiental e ao respeito à Constituição, embora reconheça que o atual governo também está sujeito a críticas.
Dessa maneira, os bispos não adotam uma declaração formal de apoio nominal, mas apresentam uma comparação política cujo sentido é identificado pela imprensa a partir das referências utilizadas.
O texto conclama os católicos a comparecer às urnas no domingo, 25 de outubro, e a considerar, em sua decisão, os direitos humanos, a democracia, a proteção das pessoas vulneráveis e os valores sociais da Igreja.
A manifestação também enfatiza que a consciência religiosa não deve ser separada das consequências concretas das decisões políticas. Segundo a interpretação apresentada pelos autores, a responsabilidade dos cristãos envolve observar como propostas de governo podem afetar trabalhadores, famílias, comunidades e populações socialmente vulneráveis.
Essa compreensão encontra raízes históricas em diferentes documentos católicos, que tratam das relações entre economia, justiça social e responsabilidade pública.
Ao longo do século XX, setores da Igreja Católica brasileira participaram de atividades relacionadas à educação popular, à organização comunitária, à defesa dos direitos humanos e ao enfrentamento da repressão política.
Entidades como a Comissão Pastoral da Terra, criada em 1975, desenvolveram trabalhos voltados aos conflitos agrários e à defesa de populações rurais. Comunidades e organizações ligadas à Igreja também participaram de experiências de mobilização social e resistência durante a ditadura.
Essas trajetórias não representam a totalidade das posições existentes no catolicismo brasileiro. A Igreja reúne diferentes correntes teológicas, pastorais e políticas, e seus fiéis possuem preferências eleitorais variadas.
A carta divulgada nesta semana deve ser compreendida dentro dessa diversidade, como uma manifestação coletiva de lideranças religiosas que decidiram apresentar publicamente sua avaliação sobre os temas em discussão na eleição.
A relação entre religião e política também exige distinguir orientações morais, manifestações individuais de autoridades religiosas e pronunciamentos institucionais formalmente aprovados.
A Constituição brasileira protege a liberdade de crença e o direito dos cidadãos de participar do debate público. Ao mesmo tempo, preserva a autonomia do Estado em relação às organizações religiosas e assegura que o exercício da cidadania não dependa da adesão a determinada confissão.
O documento dos bispos se insere nesse espaço de manifestação pública de convicções religiosas sobre questões políticas e sociais.
Adesões ampliam repercussão da carta
A evolução do número de assinaturas demonstra a repercussão da iniciativa entre integrantes do episcopado.
Na reportagem publicada pelo g1, o documento aparecia com 47 signatários de 19 estados. Outras publicações registraram números superiores ao longo da sexta-feira, chegando a 61 nomes no fim da manhã, segundo o Extra Classe.
A lista divulgada pela Comissão Pastoral da Terra reúne religiosos de diferentes regiões, incluindo dom Adolfo Zon Pereira, da Diocese do Alto Solimões, no Amazonas; dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, ligado à Comissão Pastoral da Terra; dom Evaristo Pascoal Spengler, bispo de Roraima; dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho; e dom Zanoni Demettino Castro, arcebispo de Feira de Santana.
A participação de religiosos de diferentes dioceses e realidades regionais demonstra que o documento reúne experiências pastorais variadas, incluindo áreas marcadas por conflitos fundiários, desigualdades sociais, presença indígena e dificuldades de acesso a serviços públicos.
A carta continua aberta a novas assinaturas, razão pela qual a quantidade de participantes pode mudar ao longo do dia.
A expansão das adesões não significa que todos os bispos brasileiros tenham adotado a mesma posição. A CNBB possui procedimentos próprios para aprovação de documentos institucionais, e a manifestação foi apresentada pelos signatários em caráter coletivo.
A entidade nacional, por sua vez, divulgou mensagem separada na quarta-feira (21), defendendo o respeito à Constituição, à integridade das eleições e às instituições democráticas. Também destacou direitos relacionados ao trabalho, à alimentação, à moradia, à saúde, à educação, à segurança e à proteção ambiental.
Ao contrário da carta dos signatários, a mensagem institucional da CNBB não desenvolveu uma comparação entre as duas candidaturas. Seu foco esteve nos princípios gerais que, segundo a entidade, devem orientar a participação dos cidadãos.
Essa diferença demonstra que os dois documentos possuem natureza e alcance distintos, embora compartilhem preocupações relacionadas à democracia, aos direitos sociais e à responsabilidade pública.
A manifestação dos bispos também foi divulgada em um momento de controvérsias entre integrantes da família Bolsonaro e a CNBB, depois que Flávio Bolsonaro acusou setores ligados à Igreja de participar da circulação de informações falsas sobre propostas relacionadas ao título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.
A conferência rejeitou a associação com a disseminação de desinformação e afirmou que não integra estruturas partidárias.
Esse episódio compõe o contexto de tensão entre lideranças políticas e religiosas, mas não deve ser confundido com o conteúdo específico da carta publicada em 22 de outubro.
O novo documento concentra sua análise em propostas e princípios relacionados à Doutrina Social da Igreja, à preservação das instituições e à proteção dos direitos fundamentais.
A três dias do segundo turno, a intervenção desses religiosos acrescenta uma dimensão ética e social ao debate público. Em vez de restringir sua manifestação a temas estritamente confessionais, os autores discutem trabalho, renda, políticas ambientais, soberania, violência e democracia.
O significado político da carta está precisamente nessa escolha de temas. Os signatários defendem que a avaliação de uma candidatura deve considerar as consequências de suas propostas para a vida das pessoas e para as instituições responsáveis pela organização democrática da sociedade.
Suas conclusões representam uma posição coletiva de lideranças religiosas identificáveis e não devem ser confundidas com orientação obrigatória para todos os católicos.
A participação eleitoral permanece uma decisão individual, exercida em voto secreto e garantida constitucionalmente.
A carta também evidencia a permanência de uma tradição do catolicismo que relaciona fé e responsabilidade social, especialmente em questões ligadas à pobreza, ao trabalho, à dignidade humana e à preservação da vida.
Ao incorporar a soberania nacional e a crise climática a essa reflexão, os bispos ampliam o alcance de sua manifestação para temas que envolvem decisões econômicas e estratégicas de longo prazo.
Sua advertência sobre riscos institucionais deve ser compreendida como uma avaliação política e religiosa dos signatários, baseada nos fatos e interpretações apresentados no documento.
O segundo turno ocorrerá no domingo, 25 de outubro, quando os eleitores brasileiros escolherão o próximo presidente da República.
Independentemente do resultado, os temas levantados pelos religiosos continuarão presentes no debate nacional: proteção dos trabalhadores, combate à pobreza, preservação ambiental, relações internacionais, segurança pública e respeito às instituições democráticas.
A carta dos bispos católicos representa, assim, uma intervenção pública em uma eleição decisiva, construída a partir de referências da Doutrina Social da Igreja e de uma leitura crítica das propostas em disputa. Ao crescer de 47 para pelo menos 61 signatários ao longo de sua divulgação, a iniciativa também demonstra a disposição de um grupo expressivo de lideranças religiosas de participar diretamente da discussão sobre os rumos políticos e sociais do Brasil.






