Investigação revela como influenciadores e lideranças religiosas associam manifestações de umbanda, candomblé e tradições afro-indígenas a supostas forças demoníacas contrárias a Flávio Bolsonaro. Vídeos descontextualizados e mensagens alarmistas mobilizam milhões de seguidores, enquanto pesquisadores denunciam o risco de aprofundamento do racismo religioso e da intolerância contra comunidades historicamente perseguidas no Brasil.
Da Redação
A reta final das eleições presidenciais de 2026 está sendo marcada por uma ofensiva de comunicação religiosa que transforma manifestações de fé de matriz africana em supostas ameaças espirituais contra a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Vídeos de celebrações, cantigas tradicionais e rituais praticados por comunidades afro-brasileiras estão sendo retirados de seus contextos culturais e divulgados nas redes sociais como se representassem ações demoníacas contra o senador. A estratégia foi identificada em um monitoramento realizado pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque e revelada em reportagem da Folha de S.Paulo, repercutida neste sábado, 24 de outubro, pelo Brasil 247. O levantamento mostra como influenciadores e lideranças religiosas com grandes audiências passaram a apresentar a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro como uma batalha sobrenatural entre o bem e o mal, utilizando símbolos de tradições afro-brasileiras para alimentar medo, mobilização eleitoral e hostilidade religiosa.
O fenômeno ultrapassa a utilização convencional de referências religiosas durante campanhas políticas. O que os pesquisadores identificaram foi a associação de práticas de fé historicamente perseguidas a supostas forças malignas, acompanhada de mensagens que convocam seguidores a participar de uma luta espiritual contra os adversários do candidato do PL. O mecanismo transforma diferenças de posicionamento eleitoral em uma divisão religiosa e moral, na qual um campo político passa a ser apresentado como representante da proteção divina e o outro como expressão de ameaças sobrenaturais. Essa construção possui consequências que não se limitam às eleições, porque reforça estereótipos contra comunidades de terreiro que há séculos enfrentam perseguições, discriminação e violência.
Uma das publicações de maior repercussão foi divulgada pela influenciadora Bella Falconi, que compartilhou um vídeo com declarações do pastor angolano Edivaldo Simão sobre uma suposta onda de violência que ocorreria no Brasil depois de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. A gravação utiliza imagens de manifestações religiosas afro-brasileiras e apresenta, em determinado momento, uma representação de um caixão em chamas com a fotografia do candidato. A montagem cria uma associação visual entre as cerimônias religiosas e uma suposta ameaça contra o senador, embora não demonstre que os rituais exibidos tenham sido realizados com essa finalidade.
Ao divulgar o material, Falconi afirmou que o Brasil estaria prestes a ser libertado de uma agenda que classificou como demoníaca. A publicação acumulava mais de 51,5 mil curtidas até a noite de sexta-feira (23), segundo a reportagem original. O número demonstra a repercussão do conteúdo, embora não permita estabelecer quantas pessoas concordaram com sua interpretação ou passaram a compartilhar preconceitos religiosos depois de visualizá-lo.
A utilização de imagens de religiões afro-brasileiras em uma montagem acompanhada de mensagens alarmistas produz um efeito específico: apresenta símbolos e práticas que possuem significados próprios como se fossem evidências de ameaça, sem explicar sua origem, seus fundamentos ou sua função nas comunidades religiosas. A descontextualização retira dos praticantes o direito de apresentar o sentido de suas próprias tradições e transfere a interpretação para interlocutores que frequentemente desconhecem seus fundamentos.
Esse mecanismo apareceu de maneira particularmente evidente depois da realização do ato Tambores pela Democracia, na quinta-feira (22), no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo. A manifestação reuniu participantes de religiões afro-brasileiras e tradições afro-indígenas, que utilizaram cantigas, instrumentos musicais e elementos rituais durante uma atividade pública de expressão religiosa e política. Uma gravação do encontro passou a circular nas redes sociais acompanhada de acusações segundo as quais os participantes estariam realizando um ritual para provocar a morte de Flávio Bolsonaro.
As imagens foram compartilhadas por uma conta secundária associada ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), acompanhada por milhões de pessoas no Instagram. A publicação reproduziu o vídeo com uma legenda que contrapôs a manifestação à oração cristã do Pai-Nosso. Outros influenciadores e pastores divulgaram interpretações semelhantes, apresentando o encontro como demonstração de uma disputa espiritual associada ao segundo turno presidencial.
O pastor Naor Pedroza, vinculado à igreja Videira, afirmou que existiria uma dimensão espiritual da disputa política que não poderia ser ignorada. Já Eduardo Batista, outro líder religioso com centenas de milhares de seguidores, utilizou a imagem de uma mobilização do inferno para convocar seu público a não recuar. As manifestações ocorreram em um ambiente no qual referências bíblicas e mensagens religiosas passaram a ser utilizadas por determinados influenciadores como instrumentos de confronto eleitoral.
É indispensável distinguir essas publicações da posição dos cristãos brasileiros em seu conjunto. O país reúne milhões de evangélicos e católicos com diferentes convicções políticas, práticas religiosas e interpretações sobre o respeito às demais tradições de fé. As manifestações examinadas na investigação pertencem a influenciadores e lideranças identificáveis, não constituindo orientação universal das igrejas ou de todos os seus fiéis.
A associação entre símbolos afro-brasileiros e supostas ameaças demoníacas, entretanto, possui raízes históricas que ultrapassam a atuação desses perfis. As religiões de matriz africana enfrentaram repressão durante a escravidão e por longos períodos posteriores à abolição. Suas práticas foram criminalizadas, perseguidas por autoridades policiais e frequentemente apresentadas como manifestações de atraso, feitiçaria ou perigo social. Essa história de discriminação está profundamente relacionada ao racismo contra populações negras e à desvalorização de expressões culturais originadas na diáspora africana.
No Brasil contemporâneo, ataques a terreiros, destruição de imagens sagradas, ameaças contra sacerdotes e impedimentos à realização de cerimônias demonstram que a violência religiosa permanece um problema concreto. O reconhecimento constitucional da liberdade de crença não eliminou o preconceito nem as dificuldades enfrentadas pelas comunidades para exercer seus direitos.
A circulação de mensagens que representam essas tradições como manifestações diabólicas pode contribuir para reforçar um ambiente hostil, especialmente quando tais conteúdos alcançam audiências de milhões de pessoas. Isso não significa que toda manifestação de discordância teológica constitua crime, mas permite examinar os riscos associados à apresentação de grupos religiosos como ameaças que precisam ser combatidas.
A cantiga da Jurema e a fabricação de uma ameaça
O Coletivo Bereia, organização especializada na verificação de informações sobre religião e comunicação, analisou as gravações do ato no Largo da Batata e concluiu que não havia evidências de que os participantes estivessem ameaçando matar Flávio Bolsonaro. A acusação surgiu principalmente de interpretações literais e descontextualizadas de uma cantiga ligada à Jurema, tradição espiritual afro-indígena com raízes no Nordeste brasileiro.
A expressão utilizada durante a manifestação fazia referência à ideia de manter um adversário amarrado em um cipó. Nas publicações de influenciadores bolsonaristas, o trecho foi apresentado como se constituísse ameaça direta ao candidato. Especialistas consultados pelo Bereia, entretanto, explicaram que expressões desse tipo podem possuir significados simbólicos ligados à proteção espiritual, à contenção de forças percebidas como ameaçadoras e à preservação da comunidade.
A historiadora Carolina Rocha, pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (Iser), destacou que cantigas e expressões rituais precisam ser compreendidas dentro dos sistemas culturais que lhes conferem significado. Termos como amarrar, afastar ou conter adversários podem representar pedidos de proteção e defesa espiritual, sem corresponder a uma intenção literal de produzir ferimentos ou morte.
O pai de santo David Dias, ouvido pela organização de checagem, também contestou a interpretação difundida nas redes sociais. Segundo os esclarecimentos publicados pelo Bereia, a cantiga deve ser compreendida dentro da tradição da Jurema e de sua relação com a proteção da natureza, dos povos tradicionais e de seus espaços de existência.
A diferença entre os significados é decisiva. Uma cerimônia religiosa não pode ser classificada como ameaça criminosa apenas porque determinados símbolos ou palavras são interpretados de maneira diferente por pessoas externas àquela tradição. A investigação de uma ameaça real exige elementos sobre intenção, contexto e comportamento concreto, e não apenas associações produzidas por adversários políticos.
O episódio revela uma das principais formas contemporâneas de desinformação religiosa: a apresentação de uma imagem verdadeira acompanhada de uma explicação falsa. O vídeo do protesto existiu, os participantes realizaram a manifestação e utilizaram uma cantiga tradicional. O elemento enganoso foi a atribuição de uma intenção homicida ou demoníaca que não foi demonstrada.
Essa distinção é especialmente importante porque conteúdos audiovisuais podem transmitir uma aparência de autenticidade. Ao assistir a imagens reais, o público pode aceitar automaticamente a interpretação apresentada na legenda, ainda que essa interpretação não possua relação comprovada com o significado do acontecimento.
A reportagem também recuperou declarações do babalorixá Sidnei Nogueira, doutor em semiótica pela Universidade de São Paulo, durante o ato. Nogueira criticou duramente a possibilidade de integrantes de religiões afro-brasileiras apoiarem Flávio Bolsonaro, afirmando considerar essa escolha contraditória com os valores de suas tradições. Suas manifestações provocaram divergências, inclusive entre umbandistas que declararam apoio ao senador.
A controvérsia demonstra que as comunidades afro-brasileiras não constituem um grupo eleitoral homogêneo. Seus integrantes possuem diferentes interpretações religiosas e posições políticas, protegidas pela liberdade de consciência e de participação democrática. A crítica de uma liderança religiosa a determinada candidatura não autoriza presumir que todos os adeptos compartilhem a mesma avaliação, assim como a existência de religiosos que apoiam Flávio não elimina a necessidade de examinar os episódios de intolerância documentados.
Da perseguição histórica à instrumentalização eleitoral da fé
O uso de imagens de práticas afro-brasileiras para atacar adversários políticos não começou na eleição de 2026. Durante a campanha presidencial de 2022, Michelle Bolsonaro compartilhou um vídeo em que Lula aparecia participando de uma cerimônia com banho de pipoca, prática presente em tradições afro-brasileiras. A publicação foi acompanhada de uma comparação entre a participação do então candidato na cerimônia e as críticas dirigidas à expressão religiosa de integrantes do campo bolsonarista.
A gravação havia sido divulgada anteriormente pela então vereadora Sonaira Fernandes, que associou a participação de Lula à ideia de uma suposta entrega espiritual destinada a conquistar a eleição. As mensagens utilizaram referências bíblicas para caracterizar o confronto político como uma disputa contra forças das trevas.
O episódio já demonstrava uma prática de comunicação na qual manifestações religiosas afro-brasileiras eram apresentadas como sinais de ameaça moral ou espiritual, enquanto manifestações cristãs associadas à própria candidatura eram utilizadas como símbolos positivos de identidade política.
Em 2024, outra publicação falsa atribuiu à Folha de S.Paulo uma reportagem inexistente segundo a qual a primeira-dama Janja teria solicitado um ritual de candomblé para interferir na valorização do dólar. A montagem utilizava indevidamente a identidade visual do jornal e explorava o mesmo repertório de associação entre práticas afro-brasileiras e acontecimentos políticos ou econômicos negativos.
A repetição desses episódios indica que símbolos religiosos podem ser mobilizados para construir narrativas eleitorais destinadas a despertar medo e desconfiança. O risco é que a representação de determinada tradição como expressão de forças malignas não permaneça limitada à disputa entre candidatos, mas se estenda às pessoas que efetivamente praticam aquela religião.
A liberdade religiosa assegurada pela Constituição de 1988 protege não apenas o direito individual de acreditar, mas também a realização de cultos, a preservação de lugares sagrados e o exercício coletivo das tradições. O direito de criticar convicções religiosas ou discordar de suas doutrinas não inclui autorização para ameaçar, perseguir ou discriminar pessoas em razão de sua fé.
A Lei nº 7.716, de 1989, estabelece mecanismos de responsabilização por discriminação e preconceito, incluindo situações relacionadas à religião. A caracterização jurídica de cada episódio depende das condutas, da intenção e das circunstâncias concretas, não sendo correto equiparar automaticamente qualquer discurso religioso exclusivista a uma infração penal.
No campo político, entretanto, a questão ultrapassa a possibilidade de responsabilização criminal. A apresentação de adversários como agentes demoníacos pode enfraquecer o reconhecimento de sua legitimidade como participantes do debate democrático. Quando a divergência deixa de ser tratada como disputa entre propostas e passa a ser representada como guerra contra uma força essencialmente maligna, torna-se mais difícil preservar um ambiente de respeito à pluralidade de opiniões e crenças.
Essa lógica adquire consequências particulares quando dirigida a religiões que já enfrentam discriminação sistemática. O preconceito religioso pode se articular ao racismo histórico, atingindo não apenas doutrinas, mas pessoas, comunidades, territórios, símbolos e formas de expressão cultural.
As tradições de matriz africana integram a formação histórica e cultural do Brasil. Seus conhecimentos, manifestações musicais, expressões corporais, práticas comunitárias e concepções religiosas fazem parte de uma herança construída em condições de resistência à escravidão e à perseguição. A preservação dessas tradições constitui também uma dimensão do direito à memória, à cultura e à identidade dos povos que contribuíram para a formação da sociedade brasileira.
Ao transformar essas expressões em imagens de ameaça, campanhas de desinformação podem reproduzir preconceitos antigos por meio de tecnologias contemporâneas.
O monitoramento realizado pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque demonstra como esse processo se desenvolve nas redes sociais: vídeos são selecionados, retirados de seu contexto, acompanhados de legendas alarmistas e distribuídos por influenciadores com grande capacidade de alcance. A mensagem religiosa passa a desempenhar simultaneamente uma função de identificação do próprio grupo e de desqualificação moral do adversário.
Não há evidências suficientes para concluir que todos os perfis envolvidos integrem uma operação centralizada ou que as publicações tenham sido diretamente determinadas pela campanha oficial de Flávio Bolsonaro. O que a investigação documenta é a circulação de conteúdos semelhantes entre influenciadores e lideranças identificados com o bolsonarismo, utilizando uma narrativa compartilhada de confronto espiritual.
Essa diferença entre alinhamento discursivo e coordenação comprovada precisa ser preservada.
A gravidade do fenômeno não depende de demonstrar a existência de um comando único. A reprodução de imagens descontextualizadas e interpretações discriminatórias já constitui um problema para a qualidade da informação e para a proteção de comunidades religiosas.
Às vésperas da votação presidencial de domingo, 25 de outubro, a investigação acrescenta uma questão essencial ao debate democrático: a necessidade de assegurar que diferentes tradições de fé possam participar da vida pública sem que suas práticas sejam convertidas artificialmente em ameaças ou instrumentos de hostilidade eleitoral.
As religiões afro-brasileiras não são manifestações clandestinas ou estranhas à sociedade nacional. Integram a história, a cultura e a diversidade espiritual do Brasil, com direitos constitucionalmente assegurados.
O enfrentamento da desinformação religiosa exige reconhecer essa legitimidade e diferenciar práticas culturais efetivas das interpretações fabricadas para produzir medo. Também exige que declarações de líderes políticos e religiosos sejam examinadas segundo seus efeitos concretos e a responsabilidade pública de quem as divulga.
A eleição presidencial será decidida pelos votos, mas a proteção da liberdade religiosa não depende de qual candidatura vença. Ela constitui uma garantia democrática que deve alcançar cristãos, adeptos de religiões afro-brasileiras, seguidores de outras tradições e pessoas sem religião.
O caso investigado pela Folha de S.Paulo, pelo Coletivo Bereia e pelas organizações de monitoramento demonstra como antigas formas de preconceito podem adquirir nova velocidade nas plataformas digitais. A utilização de rituais da Jurema e de outras tradições como supostas evidências de uma guerra demoníaca não esclarece propostas de governo nem contribui para a compreensão dos problemas brasileiros. Ao contrário, introduz uma narrativa de ameaça sobre comunidades que historicamente lutam pelo reconhecimento de seus direitos.
A preservação da democracia exige que divergências eleitorais permaneçam submetidas às regras da participação política e que a diversidade religiosa não seja convertida em pretexto para perseguição, discriminação ou violência.






