Candidato do PL tenta atrair eleitores de outros nomes da direita para evitar segundo turno e afirma confiar em levantamentos internos que indicariam vantagem contra Lula
Flávio Bolsonaro apostou no voto útil para tentar ampliar sua votação neste domingo e evitar que a eleição presidencial chegasse ao segundo turno. O candidato do PL pediu aos eleitores que pretendiam votar em nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado que antecipassem uma eventual migração de votos para sua candidatura. A estratégia foi reforçada na véspera da eleição, quando Flávio afirmou que seria possível “resolver agora no primeiro turno”.
A informação sobre a movimentação do candidato no Rio de Janeiro foi apurada pelo repórter Luís Adorno, que acompanhou a votação na Tijuca. Flávio votou pela manhã e, posteriormente, acompanhou a mulher, Fernanda Bolsonaro, ao colégio eleitoral onde ela registraria seu voto. No local, porém, o candidato foi vaiado e deixou o espaço sem falar com a imprensa.
Durante a passagem pelo colégio, manifestantes fizeram críticas a Flávio e questionaram sua relação com o caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo a apuração de Adorno, houve gritos perguntando “onde estava o dinheiro do Vorcaro”, além de manifestações que chamaram o candidato de “Flá da Baixadinha”.
Depois da reação dos eleitores, Flávio deixou o local. Diferentemente de outras eleições, ele também não deverá acompanhar a apuração no Rio de Janeiro. A previsão divulgada por sua assessoria é que o candidato siga para Brasília, onde acompanhará a contagem dos votos ao lado de familiares e aliados.
A aposta no voto útil foi uma das principais estratégias adotadas pela campanha na reta final. Na transmissão realizada na véspera da votação, Flávio se dirigiu especialmente aos eleitores de candidatos de direita que poderiam considerar seu nome apenas em um eventual segundo turno.
“Você que tá querendo votar no Zema, tá querendo votar no Caiado já e pensando em votar em mim no segundo turno, já muda isso agora. Vamos resolver agora no primeiro turno”, afirmou.
A campanha também sustenta que Flávio teria condições de derrotar Lula em uma eventual segunda etapa. O candidato afirma que levantamentos internos do PL apontariam para um cenário favorável, chegando a indicar uma possível vitória contra o atual presidente no segundo turno.
“Os trackings internos do partido apontam até para uma vitória dele, principalmente no segundo turno”, disse Luís Adorno ao relatar o posicionamento da campanha.
A confiança demonstrada pela candidatura contrasta com o cenário enfrentado por Flávio durante boa parte do ano. Quando anunciou sua intenção de disputar a Presidência, em dezembro, o senador ainda não era tratado como o principal nome do campo bolsonarista. Havia pressão para que Tarcísio de Freitas assumisse a candidatura apoiada por setores da direita e do bolsonarismo.
A candidatura de Flávio passou por novos momentos de instabilidade nos meses seguintes. Em maio, a divulgação de um áudio associado ao episódio conhecido como “Dark Horse” provocou queda nas pesquisas e reacendeu dúvidas sobre sua capacidade de permanecer competitivo. Em junho, o afastamento político de Michelle Bolsonaro também alimentou especulações sobre o futuro da candidatura.
Até a convenção do PL, realizada no fim de julho, persistiam dúvidas sobre a oficialização do nome de Flávio. Também havia dificuldades para fechar a composição da chapa e alianças eleitorais. Com o início oficial da campanha, em agosto, a candidatura ainda enfrentava questionamentos sobre sua capacidade de mobilização.
O desempenho posterior, porém, permitiu a Flávio ocupar espaço maior no eleitorado de direita. A campanha passou a concentrar esforços na consolidação do voto antipetista e na apresentação do senador como principal alternativa a Lula entre os candidatos alinhados ao bolsonarismo.
A atuação de Michelle Bolsonaro foi mais discreta durante esse processo. Embora tenha declarado apoio à candidatura do irmão e participado de gravações e publicações nas redes sociais, ela não realizou atos públicos de campanha ao lado de Flávio. Também não participou da última transmissão ao vivo realizada pelo candidato antes da votação.
A ausência de Michelle ganha relevância diante da disputa por espaço político dentro do próprio grupo familiar. Caso Flávio não seja eleito e Michelle conquiste uma vaga no Senado, ela poderá assumir uma posição institucional de maior destaque no PL, especialmente diante da expectativa de crescimento da bancada do partido.
O resultado da eleição presidencial também terá consequências distintas para Flávio dependendo do desfecho das urnas. Uma vitória garantiria ao senador a Presidência da República e modificaria sua situação diante de eventuais investigações e processos judiciais. Uma derrota, por outro lado, o deixaria sem mandato presidencial e poderia ampliar o espaço político de Michelle.
“Se Flávio é eleito presidente, obviamente ele vira o herdeiro do clã. No entanto, se ele perde, a Michelle vai ter muitas condições de assumir essa liderança”, afirmou o analista ouvido na cobertura.
A votação de Romeu Zema também foi marcada por um episódio envolvendo o uso de celular na cabine eleitoral. Imagens registraram o candidato do Novo entrando com o aparelho durante o voto, procedimento proibido pela Justiça Eleitoral.
Após votar, Zema reconheceu que estava com o celular e afirmou que não utilizou o aparelho para fotografar ou registrar o voto.
“Eu ando com celular o dia todo, né? Ele é quase que como se fosse um dedo, né? E ninguém me lembrou ali e eu fui votar normalmente”, declarou.
O candidato disse ainda que sua cola eleitoral estava anotada em papel e que teria deixado o telefone do lado de fora caso tivesse sido orientado pelos responsáveis pela votação.
“Não, tinha no papel. Levei no papel, então se tivesse me alertado entregava na hora”, afirmou.
O episódio ocorre no encerramento de uma campanha na qual Zema tentou se apresentar como alternativa ao lulismo e ao bolsonarismo. Ao longo da disputa, porém, o candidato teve dificuldades para consolidar esse espaço e passou a disputar um eleitorado de direita no qual Flávio Bolsonaro conseguiu se fortalecer.
Com a votação encerrada, a estratégia do candidato do PL será colocada à prova. A tentativa de atrair eleitores de Zema, Caiado e outros candidatos para uma escolha imediata por Flávio poderá definir se a disputa presidencial será encerrada neste domingo ou se Lula e o principal nome da direita voltarão às urnas em um segundo turno.

