Informações publicadas pelo repórter Igor Gadelha, do Metrópoles, colocaram novamente o entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro no centro do debate político. A reportagem revelou que a cozinheira Rainê dos Santos, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes a frequentar a residência onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar, possui vínculo formal com o Partido Liberal (PL), legenda à qual o ex-presidente é filiado.
De acordo com registros de prestação de contas partidárias, Rainê recebeu pagamentos da sigla ao longo de 2025 e também neste ano. A divulgação das informações provocou questionamentos nas redes sociais e entre adversários políticos do bolsonarismo sobre uma possível confusão entre estrutura partidária e demandas privadas da família do ex-presidente. O salário da funcionária é pago pelo PL, legenda abastecida em grande parte por recursos públicos do Fundo Partidário. Embora não exista comprovação pública de que os pagamentos específicos da cozinheira sejam feitos diretamente com verbas dessa rubrica, críticos afirmam que a estrutura colocada à disposição do entorno de Bolsonaro acaba sendo sustentada indiretamente com dinheiro público.
A cozinheira acompanha Bolsonaro desde o período da pré-campanha de 2018. Em determinado momento do governo, chegou a ocupar cargo no Gabinete Pessoal da Presidência da República. A relação de confiança construída ao longo dos anos foi usada como justificativa para sua permanência no círculo íntimo da família, especialmente no contexto da prisão domiciliar do ex-presidente.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro reagiu publicamente às críticas. Em publicação nas redes sociais, afirmou que a cozinheira exerce atividades domésticas apenas depois do expediente oficial no partido e que os pagamentos relativos ao trabalho na residência são feitos com recursos próprios. Michelle também divulgou comprovantes de transferências bancárias e recibos de transporte para sustentar sua versão.
E a Michelle, hein?
A controvérsia, porém, acabou reacendendo críticas sobre o discurso que Michelle Bolsonaro costuma apresentar em agendas religiosas e eventos do PL Mulher realizados pelo país. Em diferentes falas públicas, a ex-primeira-dama defendeu papéis tradicionais de gênero e afirmou que cozinhar para o marido seria uma atribuição natural da mulher cristã e da esposa “virtuosa”, frequentemente associando esse comportamento a valores bíblicos e familiares. Nas redes sociais, adversários políticos passaram a apontar contradição entre esse discurso moralizante e a existência de uma cozinheira vinculada à estrutura partidária atuando no cotidiano doméstico da família Bolsonaro.
Na manifestação recente, Michelle afirmou estar temporariamente com a mão direita imobilizada e disse precisar de ajuda nas tarefas domésticas. Também argumentou que a segurança alimentar de Bolsonaro exigiria alguém de confiança, relembrando o atentado sofrido pelo ex-presidente durante a campanha eleitoral de 2018.
A autorização para a entrada da cozinheira na residência ocorreu dias depois de Michelle expor, em tom de desabafo, o desgaste físico causado pelos cuidados cotidianos com Bolsonaro. Em uma publicação, ela comentou o esforço necessário para auxiliar o marido durante o período de restrições impostas pela prisão domiciliar.


