Atitude Popular

Brasil condena Israel em Jerusalém e denuncia violação religiosa

Da Redação

Em meio à escalada de tensões no Oriente Médio, o governo brasileiro condenou duramente ações de Israel em Jerusalém Oriental que impediram celebrações religiosas, classificando o episódio como grave violação da liberdade de culto e reforçando críticas internacionais à atuação israelense em territórios palestinos ocupados.

O governo brasileiro elevou o tom neste domingo, 29 de março de 2026, ao condenar oficialmente ações de Israel em Jerusalém Oriental que impediram a realização de rituais religiosos em um dos locais mais simbólicos do cristianismo mundial. A manifestação do Itamaraty não é apenas diplomática. É política, jurídica e civilizatória, ao colocar no centro do debate a violação da liberdade religiosa em um território marcado por disputas históricas e ocupação contestada.

O episódio que desencadeou a reação brasileira ocorreu quando autoridades israelenses impediram o acesso do cardeal Pierbattista Pizzaballa à Igreja do Santo Sepulcro, onde ele celebraria a missa de Domingo de Ramos. A restrição também atingiu o monsenhor Francesco Ielpo, custódio da Terra Santa, bloqueando a participação de lideranças religiosas em um dos momentos mais importantes do calendário cristão.

A gravidade do fato se amplia quando inserida em um padrão mais amplo. Segundo o próprio governo brasileiro, não se trata de um episódio isolado, mas de uma sequência de restrições impostas nas últimas semanas por autoridades israelenses ao acesso de fiéis a locais sagrados em Jerusalém Oriental. Entre os casos citados estão limitações à entrada de cristãos no Santo Sepulcro e de muçulmanos durante o Ramadã na Esplanada das Mesquitas, conhecida como Haram al-Sharif.

Ao classificar os acontecimentos como de “extrema gravidade”, o Brasil toca em um ponto central da geopolítica contemporânea: a erosão do status quo histórico que regula o acesso aos sítios religiosos em Jerusalém, cidade sagrada para cristãos, muçulmanos e judeus. Esse status quo, construído ao longo de séculos, é justamente o que permite a coexistência religiosa em um dos territórios mais sensíveis do planeta. Sua ruptura, portanto, não é apenas um incidente administrativo. É um ato com implicações políticas e civilizacionais profundas.

A crítica brasileira também se ancora no direito internacional. O Itamaraty relembrou o parecer consultivo da Corte Internacional de Justiça de julho de 2024, que considera a presença contínua de Israel nos territórios palestinos ocupados como ilícita, incluindo Jerusalém Oriental. Ao trazer esse elemento, o Brasil não apenas condena o episódio específico, mas questiona a base jurídica da autoridade israelense sobre a região.

Essa posição coloca o país em sintonia com uma reação internacional mais ampla. Governos europeus também manifestaram reprovação ao bloqueio religioso, destacando que impedir líderes religiosos de celebrar rituais em locais sagrados representa uma violação grave da liberdade de culto. O episódio foi descrito por autoridades estrangeiras como um precedente preocupante, especialmente por ocorrer durante a Semana Santa, um dos períodos mais importantes para o cristianismo.

O argumento apresentado por Israel, baseado em “razões de segurança”, não tem sido suficiente para conter as críticas. Isso porque o fechamento de áreas religiosas e a restrição ao acesso de fiéis vêm sendo interpretados por diversos atores como medidas desproporcionais, que ultrapassam a lógica de segurança e entram no terreno da restrição de direitos fundamentais.

A Cidade Velha de Jerusalém, onde está localizado o Santo Sepulcro, é reconhecida como espaço sagrado para as três grandes religiões abraâmicas. Limitar o acesso a esse território em momentos centrais de celebração religiosa não apenas afeta indivíduos ou comunidades específicas, mas reverbera globalmente, atingindo bilhões de pessoas que têm nesses locais referências espirituais e históricas.

Esse tipo de medida também dialoga com um histórico mais amplo de tensões envolvendo comunidades religiosas na região. Relatórios e análises recentes já apontavam aumento de episódios de restrição, violência simbólica e dificuldades de acesso enfrentadas por cristãos e muçulmanos em Jerusalém, o que reforça a percepção de que há um processo contínuo de deterioração das condições de liberdade religiosa no território.

No plano político, a posição brasileira assume um significado ainda mais relevante no contexto atual, marcado pela escalada de conflitos no Oriente Médio, especialmente após a intensificação da guerra envolvendo o Irã. Ao condenar Israel, o Brasil se posiciona de forma mais assertiva em defesa do direito internacional, da soberania e dos direitos fundamentais, dialogando diretamente com demandas históricas do Sul Global por uma ordem internacional mais equilibrada e menos seletiva.

A nota do Itamaraty reafirma um princípio básico, mas cada vez mais tensionado: a liberdade religiosa como direito universal. Em um mundo atravessado por guerras, disputas geopolíticas e instrumentalização da religião, garantir o acesso livre a locais sagrados deixa de ser apenas uma questão espiritual e passa a ser um indicador da própria qualidade da ordem internacional.

O episódio em Jerusalém, portanto, vai além da interrupção de uma missa. Ele revela a profundidade das disputas em curso na região, expõe os limites da governança internacional e coloca em evidência uma pergunta central para o século XXI: quem decide, afinal, quais direitos são respeitados e quais podem ser suspensos em nome da segurança ou da força?