Da Redação
ApexBrasil lança maior ofensiva extraordinária de diversificação comercial após novas barreiras impostas por Washington; estratégia pretende atender até 5,3 mil empresas e abrir caminhos na Ásia, Europa, América Latina, África, Oriente Médio, Canadá e México
O Brasil começou a transformar a pressão comercial dos Estados Unidos em uma ofensiva para reduzir a vulnerabilidade de suas exportações ao mercado norte-americano. A ApexBrasil lançou um Plano de Diversificação de Exportações de R$ 210 milhões destinado a ajudar empresas atingidas pelas novas tarifas impostas por Washington a encontrar compradores em 36 mercados considerados prioritários. A estratégia combina mais de 300 ações de promoção comercial, participação em feiras internacionais, rodadas de negócios, consultorias e apoio financeiro e pretende alcançar até 5,3 mil empresas brasileiras de 35 setores.
O movimento é uma resposta direta a um problema criado pela escalada comercial promovida pelo governo dos Estados Unidos. Dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que aproximadamente 5,6 mil empresas brasileiras foram diretamente afetadas pelas novas barreiras norte-americanas. A meta da ApexBrasil, portanto, é alcançar a imensa maioria desse universo, oferecendo alternativas concretas para produtos que perderam competitividade ou enfrentam dificuldades de acesso ao mercado dos EUA.
A iniciativa também sinaliza uma mudança importante na resposta brasileira ao tarifaço. Em vez de concentrar toda a estratégia na tentativa de convencer Washington a retirar ou reduzir as barreiras, o governo procura trabalhar simultaneamente em duas direções: continuar negociando para preservar espaço nos Estados Unidos e acelerar a abertura de outros destinos para os produtos nacionais.
O presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, deixou claro que a intenção não é abandonar o mercado norte-americano. Os Estados Unidos continuam sendo um parceiro comercial relevante e a agência seguirá trabalhando para ampliar as exceções às tarifas. A diferença é que, diante da imprevisibilidade criada pelas decisões de Washington, depender excessivamente de um único destino passou a representar um risco maior para empresas brasileiras.
Uma operação comercial em escala mundial
Os 36 mercados foram selecionados considerando as características dos diferentes setores atingidos. Entre os destinos destacados estão China, Índia, Indonésia, Alemanha, Turquia, África do Sul, Canadá e México. A distribuição das ações revela a amplitude geográfica da estratégia: serão 85 iniciativas na América Latina, 77 na Europa, 46 na Ásia, 23 no Canadá e México, 16 na África e outras 11 no Oriente Médio.
Não se trata, portanto, simplesmente de substituir os Estados Unidos pela China ou por qualquer outro grande parceiro. A lógica é justamente evitar a troca de uma dependência por outra. Um exportador brasileiro poderá encontrar compradores na Ásia; outro poderá ser direcionado para a Europa; determinados produtos podem encontrar oportunidades maiores na América Latina, enquanto outros possuem potencial na África ou no Oriente Médio.
Essa diversificação é particularmente importante porque os efeitos das tarifas não são iguais para todas as empresas. Uma companhia que produz mercadorias perecíveis e depende fortemente dos Estados Unidos enfrenta um problema muito diferente daquele de uma indústria que já possui certificações e clientes em vários continentes. A resposta precisa, portanto, ser construída setor por setor e empresa por empresa.
É essa a lógica que a ApexBrasil pretende aplicar.
De feiras internacionais a compradores estrangeiros
O plano terá uma frente realizada em parceria com entidades setoriais, responsável por mais de 300 ações, e outra conduzida diretamente pela própria ApexBrasil. Nessa segunda frente, até 4,7 mil empresas poderão receber atendimento individualizado. Para as companhias atingidas pelas tarifas, as taxas de participação nas ações previstas serão dispensadas.
A estrutura inclui 2,3 mil vagas para reuniões de negócios com compradores estrangeiros, realizadas presencialmente ou de forma virtual; outras 1,4 mil vagas para participação em feiras internacionais; consultoria especializada e gratuita para 1,2 mil empresas; e mil vagas na chamada Bolsa Exportação, destinada a oferecer apoio financeiro ao longo dos próximos 12 meses.
Há ainda um componente tecnológico importante. A empresa afetada poderá informar o código internacional de sua mercadoria e indicar o tipo de apoio de que necessita — encontrar compradores, participar de determinada feira ou adequar certificações, por exemplo. O sistema de inteligência comercial da ApexBrasil cruzará essas informações com sua rede internacional e uma base de mais de 2 mil compradores estrangeiros parceiros.
Na prática, o objetivo é reduzir uma das maiores dificuldades enfrentadas por empresas que precisam mudar rapidamente sua estratégia exportadora. Encontrar outro país disposto a comprar um produto é apenas o começo. É necessário identificar clientes, entender regras sanitárias e técnicas, obter certificações, adaptar embalagens, organizar logística, negociar contratos e conhecer as características do novo mercado.
Diversificação já vinha produzindo resultados
O governo brasileiro não começa essa estratégia do zero. Antes mesmo desta nova ofensiva, empresas apoiadas pela ApexBrasil já vinham ampliando seus destinos internacionais.
Dados divulgados pela Agência Gov em julho mostram que 72% das 2,4 mil empresas apoiadas pela ApexBrasil que exportavam para os Estados Unidos haviam acrescentado pelo menos um novo mercado às suas vendas externas entre junho de 2025 e maio de 2026.
O desempenho agregado ajuda a dimensionar esse movimento. No primeiro semestre de 2026, o aumento das exportações brasileiras apenas para China, Europa e Índia chegou a R$ 16,1 bilhões, enquanto a redução das vendas para os Estados Unidos foi de R$ 2,6 bilhões. Ou seja, o crescimento nesses três grandes destinos foi mais de seis vezes superior à perda registrada no mercado norte-americano naquele período.
Esse dado não significa que todas as empresas prejudicadas pelas tarifas conseguiram compensar individualmente suas perdas. Uma estatística nacional positiva pode esconder situações extremamente difíceis em determinados segmentos, regiões ou companhias. Mas demonstra que a economia brasileira possui capacidade real de redirecionar parte de sua produção quando encontra acesso a outros mercados.
Tarifaço acelera estratégia de autonomia comercial
É nesse ponto que o plano deixa de ser apenas uma política emergencial para empresas prejudicadas e assume uma dimensão estratégica.
O comércio exterior sempre envolve dependências. Uma empresa que direciona grande parcela de sua produção para um único país torna-se vulnerável às decisões políticas, econômicas e regulatórias daquele mercado. Se tarifas mudam abruptamente, toda a cadeia produtiva pode sofrer — da indústria aos fornecedores, trabalhadores, transportadoras e municípios que dependem daquela atividade.
A política de diversificação procura reduzir exatamente essa exposição.
Isso não significa romper relações com os Estados Unidos. Ao contrário, a própria ApexBrasil insiste que continuará trabalhando naquele mercado. A estratégia consiste em construir alternativas suficientes para que uma decisão unilateral de Washington tenha menor capacidade de atingir empresas e empregos brasileiros.
A diferença é importante. Diversificação comercial não significa escolher um lado numa disputa geopolítica. Significa aumentar a margem de decisão do Brasil.
Sul Global ganha importância
A seleção dos mercados prioritários também revela uma transformação mais ampla na geografia econômica internacional. China e Índia já ocupam posições centrais no comércio mundial, enquanto Indonésia, países africanos, economias do Oriente Médio e mercados latino-americanos oferecem oportunidades que há algumas décadas tinham peso muito menor para empresas brasileiras.
Ao mesmo tempo, mercados tradicionais da Europa continuam relevantes. Canadá e México aparecem como alternativas dentro da própria América do Norte.
Essa combinação permite ao Brasil trabalhar simultaneamente com economias desenvolvidas e emergentes, Norte e Sul Global, países ocidentais e asiáticos. Em vez de organizar o comércio exterior segundo uma lógica de blocos rígidos, a estratégia brasileira procura multiplicar os canais disponíveis.
A própria ApexBrasil já mantém programas destinados especialmente à internacionalização de pequenas e médias empresas. Sua Jornada Exportadora, por exemplo, havia levado 129 companhias a 11 países e realizado 1.859 rodadas de negócios, produzindo expectativa de US$ 29 milhões em negócios.
Isso importa porque a diversificação não pode ficar restrita às grandes multinacionais brasileiras, que possuem departamentos internacionais, capital e capacidade própria para procurar novos mercados. Pequenas e médias empresas são justamente as que mais precisam de apoio institucional para atravessar as barreiras de entrada do comércio internacional.
Uma resposta que pode sobreviver ao próprio tarifaço
O aspecto mais relevante do plano talvez apareça no longo prazo. As tarifas norte-americanas podem ser reduzidas, negociadas ou novamente modificadas. Mas um cliente conquistado na Índia, uma cadeia comercial construída no México, uma certificação obtida para vender na Europa ou uma rede de compradores estabelecida na China não desaparecem necessariamente quando a crise termina.
É aí que uma resposta defensiva pode produzir um efeito estrutural.
Se os R$ 210 milhões servirem apenas para substituir temporariamente encomendas perdidas nos Estados Unidos, o programa terá cumprido uma função emergencial. Se ajudarem milhares de empresas brasileiras a construir relações comerciais permanentes em dezenas de países, o efeito poderá ser muito maior: ampliar a internacionalização da produção nacional e reduzir a exposição futura do país a pressões de qualquer potência.
O desafio agora é transformar os anúncios em contratos. Das aproximadamente 5,6 mil empresas afetadas pelas barreiras norte-americanas, a ApexBrasil pretende alcançar até 5,3 mil. É uma escala ambiciosa e seus resultados precisarão ser medidos não apenas pelo número de feiras, missões ou reuniões realizadas, mas pelo volume efetivamente exportado, pelos mercados conquistados e pelos empregos preservados.
O Brasil chegou ao primeiro semestre de 2026 com exportações crescendo em destinos capazes de compensar, no agregado, a retração observada nos Estados Unidos. Agora, diante de uma nova rodada de pressão comercial, o governo tenta acelerar esse processo e transformá-lo numa política organizada de diversificação.
A mensagem econômica é relativamente simples: os Estados Unidos continuam importantes, mas não podem ser a única porta.
Quando Washington ergue barreiras, o Brasil procura abrir outras 36.






