Atitude Popular

Lula, o último farol da democracia global

Enquanto o neofascismo avança e o império norte-americano mira o Brasil, Lula se torna o principal símbolo vivo da resistência democrática no mundo.

Por Reynaldo Aragon

Vivemos tempos extremos. O mundo está sendo redesenhado por algoritmos, conflitos assimétricos e guerras invisíveis travadas com narrativas, dados e sanções. A democracia, nesse novo campo de batalha, tornou-se alvo preferencial das forças ultraconservadoras e antipopulares. Não há tanques nas ruas, mas há tarifas. Não há censura oficial, mas há linchamentos digitais. A arquitetura do caos está montada — e tem nome: trumpismo internacional.

Nesse cenário, um nome se ergue com o peso de sua biografia e o alcance de sua história: Luiz Inácio Lula da Silva. Em julho de 2025, com o Brasil atacado por uma nova leva de tarifas e sabotagens diplomáticas impostas diretamente por Donald Trump, Lula aparece como o primeiro líder global a encarar frontalmente o avanço autoritário da extrema-direita internacional. E não é apenas um enfrentamento político: é um choque de paradigmas, de concepções de mundo. De um lado, a barbárie neoliberal com verniz fascista; do outro, a democracia social construída sobre suor, trabalho e soberania popular.

O editorial do New York Times, publicado em 28 de julho com o título “Sovereignty is having a moment”, crava sem rodeios: “Lula may be the first sovereign leader who Trump cannot bend.” A frase não é apenas constatação — é diagnóstico geopolítico. O jornal, em rara demonstração de lucidez diante da ofensiva autoritária que cresce no próprio território americano, reconhece que Lula se tornou o principal ponto de resistência ao projeto de Bannon, Trump e sua rede global de influenciadores, plataformas, partidos e corporações.

Mas por que Lula? Por que um ex-operário nordestino, sobrevivente da fome, das greves e da prisão, se tornou esse bastião global?

Porque nenhum outro líder no mundo carrega, ao mesmo tempo, o lastro histórico, a legitimidade popular, o trânsito internacional e a autoridade moral que Lula representa hoje. Xi Jinping é potência, mas não tem credibilidade no Ocidente. Putin tem força, mas é a caricatura perfeita do que o império precisa para justificar sua própria brutalidade. Macron não fala pelas ruas. Scholz é invisível. E líderes da periferia global, ainda que potentes, são facilmente silenciados.

Lula, não.

Lula entra na ONU e é ovacionado, participa do G7 como convidado de honra, discursa para sindicatos europeus, visita países africanos, anda em favelas e palácios. Ele dialoga com Biden, Xi, o Papa Francisco e com movimentos populares. Sua força está não em tanques, mas na síntese rara entre Estado, povo e história viva.

Quando Steve Bannon declarou, ainda em 2022, que Lula era “o inimigo mais perigoso da nova ordem conservadora mundial”, poucos entenderam a profundidade da afirmação. Mas agora, em 2025, a profecia se cumpre. Lula é o principal obstáculo à consolidação do fascismo como hegemonia global. Sua figura representa aquilo que o império mais teme: um projeto popular, democrático, latino-americano e soberano que não depende da benção de Washington.

Trump sabe disso. E por isso, ao retornar à Casa Branca, direciona sua máquina de guerra híbrida contra o Brasil. As tarifas aplicadas em julho são apenas a face visível de uma estratégia mais profunda: desestabilizar o governo Lula até outubro de 2026, forçar um colapso político e abrir caminho para a vitória de um candidato ultraliberal e pró-Washington nas próximas eleições brasileiras.

É um script já conhecido: lawfare, desinformação, sabotagem econômica, alianças subterrâneas com o agronegócio, milícias digitais e think tanks. Mas há um problema. Esse script já falhou antes. E falhou justamente porque Lula não é um político qualquer — é um sujeito histórico.

Sua trajetória o legitima como símbolo da resistência democrática planetária. De operário a presidente, de preso político a líder global, Lula encarna a sobrevivência do projeto iluminista no século XXI. E isso é insuportável para o projeto fascista, porque o trumpismo não quer apenas derrotar inimigos — ele quer apagar referências. E Lula é, hoje, a principal referência viva de um mundo em que os pobres podem governar com dignidade.

Quando Lula busca diálogo com Trump, ele não o faz por ingenuidade. Ele sabe que Trump quer guerra. Mas também sabe que a pedagogia política de oferecer diálogo diante da arrogância expõe o império. Mostra ao povo — do Brasil e do mundo — quem está disposto à paz e quem quer destruir. Lula assume o papel de estadista não apenas para o Brasil, mas para uma parte do mundo que ainda acredita em democracia, multilateralismo e soberania.

O Brasil está no centro do mundo. Não por acaso, mas porque a democracia global, hoje, passa por São Bernardo. E Lula, mais uma vez, está no olho do furacão — como aquele que não se dobra, que não trai, que não negocia os direitos do povo.

O fascismo pode ter algoritmos. Mas Lula tem história. E, por enquanto, é ela que ainda impede que a noite caia de vez.

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