Brasil soberano e Congresso do povo: intelectuais alertam para crise democrática, avanço da extrema direita e esgotamento do modelo político brasileiro

Da Redação

Um encontro promovido em Fortaleza pelo grupo organizador da campanha “Brasil soberano, Congresso Amigo do Povo” reuniu intelectuais, militantes, sindicalistas, religiosos e ativistas para discutir os desafios políticos, econômicos e sociais do Brasil às vésperas das eleições de 2026. O debate tomou como referência um documento de análise de conjuntura produzido pelo Grupo Padre Tierry Linard, ligado à CNBB.

Durante a abertura, o mestre em Políticas Públicas Vicente Flávio afirmou que o grupo pretende construir uma campanha em defesa da soberania nacional, da democracia e de um Congresso comprometido com os interesses populares. Segundo ele, o lançamento oficial da campanha ocorrerá em Fortaleza no próximo dia 30, acompanhado de atividades culturais e da divulgação de um manifesto político elaborado por intelectuais e militantes cearenses.

Os organizadores defendem que pautas como o fim da escala 6×1, a democratização da comunicação e o fortalecimento da soberania informacional precisam ocupar o centro do debate eleitoral deste ano. O manifesto da campanha pode ser acessado no site Brasil soberano, Congresso Amigo do Povo

Na principal exposição do encontro, o filósofo e padre Manfredo Oliveira afirmou que o Brasil atravessa um processo silencioso de erosão democrática. Segundo ele, o país preserva eleições e instituições formais, mas vive um profundo desgaste da confiança popular nas estruturas políticas.

“Trata-se da conversão paulatina da democracia constitucional em uma ordem de baixa confiança”, afirmou.

Ao analisar o cenário econômico, Manfredo reconheceu avanços recentes em renda, emprego e inflação dos alimentos, mas observou que esses indicadores não conseguem alterar a percepção social de insegurança e instabilidade.

Segundo ele, a extrema direita conseguiu transformar o medo da violência em eixo emocional central da disputa política.

“A segurança pública se tornou o calcanhar de Aquiles do governo brasileiro”, declarou.

O filósofo argumentou ainda que a crise brasileira não pode ser compreendida apenas pela economia. Para ele, a população vive um sentimento permanente de medo, alimentado tanto pela violência real quanto pela exploração política desse tema nas redes sociais e nos meios de comunicação.

Religião, extrema direita e disputa de hegemonia

Outro eixo importante do debate foi o papel da religião na reorganização da extrema direita brasileira. Manfredo Oliveira afirmou que lideranças conservadoras passaram a utilizar símbolos religiosos como ferramenta de mobilização política e moral.

“Políticos conservadores frequentemente utilizam discursos religiosos como estratégia para mobilizar eleitores e legitimar projetos autoritários”, afirmou.

O filósofo também chamou atenção para o crescimento da chamada “teologia do domínio”, corrente que defende a ocupação de instituições políticas e culturais por grupos religiosos conservadores.

O pastor Otacílio relatou o isolamento enfrentado por religiosos progressistas dentro das igrejas evangélicas após criticarem o bolsonarismo, o racismo e a misoginia.

“Quando eu comecei a falar contra o Bolsonaro, muitas das minhas ovelhas foram embora”, afirmou.

Otacílio também alertou para o impacto econômico das plataformas de apostas online sobre a população trabalhadora. Segundo ele, boa parte da melhora de renda registrada recentemente acaba drenada para empresas de apostas digitais.

Já o diretor da Atitude Popular, Sousa Júnior, afirmou que o campo popular vive um momento decisivo.

“Não basta reeleger Lula. Precisamos eleger um Congresso do povo”, declarou.

Sousa Júnior criticou a dependência brasileira das big techs e da mídia corporativa, defendendo maior soberania informacional e fortalecimento da comunicação popular.

O militante histórico da esquerda socialista Martiniano Cavalcante afirmou que o capitalismo contemporâneo já não oferece horizonte civilizatório e opera através da precarização da vida e da violência estrutural.

“A insegurança nasce da desvalorização da vida”, disse. Segundo Martiniano, a esquerda perdeu capacidade de apresentar um projeto transformador capaz de mobilizar esperança social.

Trabalho de base, crise política e reconstrução popular

Grande parte das intervenções do público girou em torno da crise das organizações populares tradicionais, do enfraquecimento da formação política e da dificuldade de reconstrução do trabalho de base. A professora e psicóloga Terezinha Façanha relembrou experiências das Comunidades Eclesiais de Base no Lagamar durante os anos 1980 e afirmou que a formação política exige convivência cotidiana e presença territorial.

“Não acredito na profundidade do alcance de uma mensagem de Instagram”, declarou.

Segundo Terezinha, a esquerda precisa voltar às periferias e reconstruir espaços presenciais de escuta, formação e organização popular. Ela também criticou o pouco espaço dado às pautas socioambientais dentro da esquerda institucional. Para a professora, temas ligados à crise climática ainda são tratados de forma tímida e periférica.

A ativista Regina, do movimento Proparque, afirmou que o antipetismo construído desde o chamado mensalão, passando pela Lava Jato e pelo impeachment de Dilma Rousseff, produziu um ambiente de descrença generalizada na política.

“O povo da direita e da extrema direita é um povo desalentado e descrente”, afirmou.

Já o sociólogo e apresentador do programa “Café com Democracia”, da Atitude Popular, Luiz Regadas, destacou a necessidade de reconstrução de um projeto político capaz de encantar novamente a sociedade brasileira. Segundo ele, a esquerda precisa ir além da defesa institucional da democracia e enfrentar temas estruturais como o sistema financeiro, a desigualdade e a crise das instituições.

A íntegra do encontro está disponível no YouTube. Assista ao debate completo