Da Redação
País reúne uma combinação rara de desemprego próximo das mínimas históricas, mais de 100 milhões de pessoas ocupadas, expansão do trabalho formal, redução do desalento e crescimento da renda real. O avanço, porém, abre uma nova etapa do debate: depois de ampliar o emprego, o Brasil precisa elevar produtividade, sofisticação produtiva e salários para transformar a melhora conjuntural em desenvolvimento duradouro.
O mercado de trabalho brasileiro atravessa uma situação que poucos anos atrás pareceria difícil de imaginar. Depois de uma década marcada pela recessão de 2015 e 2016, crescimento econômico fraco, pandemia, explosão do desemprego e deterioração das condições de trabalho, o Brasil chegou a 2026 reunindo alguns dos melhores indicadores de emprego e renda de sua história recente.
O economista e professor da FGV Paulo Gala chama atenção para essa transformação em artigo publicado pelo Brasil 247. Segundo ele, os dados mais recentes da PNAD Contínua permitem afirmar que o mercado de trabalho vive uma situação “excepcionalmente forte” e, quando a comparação é ampliada para séries históricas anteriores, um dos menores níveis de desemprego observados no país desde a década de 1980.
Os números ajudam a dimensionar a mudança. A taxa de desemprego mencionada por Gala está em 5,3%, próxima das menores taxas já registradas pela série da PNAD Contínua. Há aproximadamente 5,8 milhões de brasileiros procurando trabalho, enquanto no período mais dramático da pandemia esse contingente chegou a superar 15 milhões. Ao mesmo tempo, aproximadamente 103,3 milhões de pessoas estão ocupadas, contra cerca de 81 milhões no pior momento da crise sanitária.
Não se trata, portanto, apenas de uma redução estatística do desemprego provocada pela saída de pessoas da força de trabalho. A melhora aparece simultaneamente em diferentes indicadores: ocupação elevada, carteira assinada em patamar recorde, crescimento dos rendimentos, redução do desalento e melhora recente da informalidade.
Os dados oficiais do IBGE ajudam a confirmar a dimensão histórica dessa trajetória. No trimestre encerrado em dezembro de 2025, por exemplo, a taxa nacional de desocupação havia chegado a 5,1%, contra 6,2% um ano antes. O nível de ocupação alcançou 58,9%. Os levantamentos subsequentes mantiveram o mercado de trabalho em patamar excepcionalmente forte, embora com oscilações naturais ao longo do ano.
É uma transformação especialmente significativa quando colocada em perspectiva.
Durante boa parte da história brasileira recente, taxas de desemprego muito superiores a essas foram consideradas praticamente estruturais. O país conviveu durante décadas com grande excedente de mão de obra, informalidade elevada e milhões de trabalhadores dispostos a aceitar ocupações de baixa remuneração simplesmente porque havia pouca alternativa disponível.
Quando o desemprego cai para níveis próximos de 5%, essa relação começa a mudar.
O trabalhador passa a ter maior possibilidade de procurar outra ocupação. Empresas encontram mais dificuldade para preencher determinadas vagas. A competição por mão de obra aumenta em alguns segmentos. E a remuneração tende a responder progressivamente a esse mercado mais apertado.
É exatamente por isso que talvez o indicador mais importante não seja apenas o desemprego.
É a renda.
Segundo os dados destacados por Gala, o rendimento médio real do trabalho está próximo de sua máxima histórica, em torno de R$ 3.762 mensais. Isso significa que o avanço do emprego está sendo acompanhado por melhora do poder de compra médio do rendimento do trabalho — um elemento fundamental para compreender os efeitos econômicos mais amplos dessa transformação.
Quando mais pessoas trabalham e recebem rendimentos maiores em termos reais, os efeitos ultrapassam a estatística trabalhista. Mais renda circula no comércio, nos serviços, nos supermercados, nos restaurantes e nas pequenas empresas. A arrecadação aumenta, o consumo se fortalece e famílias que antes dependiam integralmente de transferências públicas podem recompor parte de sua autonomia econômica.
É o trabalho funcionando novamente como um dos motores centrais da economia.
Carteira assinada também avança
Outro dado relevante desmonta parcialmente a ideia de que a melhora do emprego estaria acontecendo exclusivamente através da precarização.
O número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado está próximo de 39 milhões, também em patamar recorde, segundo os números apresentados por Gala. A informalidade, embora continue estruturalmente elevada no Brasil, encontra-se próxima de suas mínimas recentes, na casa dos 37%. O desalento — formado por pessoas que gostariam de trabalhar, mas desistiram de procurar emprego — também recuou significativamente.
Isso não significa que a precariedade tenha desaparecido. O Brasil ainda possui aproximadamente 26 milhões de trabalhadores por conta própria, um contingente enorme e extremamente heterogêneo. Nele convivem profissionais altamente qualificados e trabalhadores submetidos a atividades instáveis, sem proteção social e com rendimentos baixos.
Da mesma maneira, informalidade menor não significa informalidade baixa.
Mais de um terço do mercado de trabalho ainda opera fora das formas tradicionais de proteção trabalhista. A transformação tecnológica, a expansão das plataformas digitais e a chamada “uberização” também criaram novas formas de trabalho que desafiam categorias tradicionais de emprego formal e informal.
Portanto, os números positivos não eliminam os problemas estruturais.
Mas tampouco esses problemas anulam uma melhora objetiva e extraordinariamente relevante do mercado de trabalho.
É justamente essa combinação que precisa ser compreendida.
Do desemprego em massa ao desafio da qualidade do emprego
A questão mais interessante levantada por Paulo Gala começa exatamente onde terminam as boas notícias.
Se o Brasil conseguiu reduzir dramaticamente o desemprego, qual é o próximo passo?
A resposta do economista desloca a discussão da quantidade para a qualidade do emprego.
O problema brasileiro já não pode ser pensado exclusivamente como necessidade de colocar mais pessoas para trabalhar. O país precisa criar empregos capazes de produzir mais riqueza por trabalhador e, consequentemente, sustentar salários muito maiores.
Essa discussão toca numa das questões fundamentais do desenvolvimento brasileiro.
Um trabalhador brasileiro não recebe menos do que um trabalhador alemão, norte-americano, japonês ou sul-coreano simplesmente porque o empresário brasileiro decidiu arbitrariamente pagar menos. Existe também uma diferença enorme na estrutura produtiva na qual cada trabalhador está inserido.
Economias desenvolvidas concentram atividades intensivas em capital, conhecimento, tecnologia, engenharia, pesquisa e desenvolvimento. Produzem máquinas sofisticadas, medicamentos, semicondutores, equipamentos médicos, softwares, aeronaves, sistemas industriais, componentes eletrônicos e uma infinidade de bens e serviços de alta complexidade.
Essas atividades produzem muito valor por hora trabalhada.
E produtividade elevada cria as condições materiais para salários elevados.
É nesse sentido que Gala introduz a discussão sobre complexidade econômica.
A expressão pode parecer abstrata, mas sua consequência é extremamente concreta: que tipo de emprego existe para o trabalhador brasileiro e quanto esse emprego consegue pagar?
Um país especializado predominantemente em atividades de baixa produtividade pode alcançar desemprego reduzido e ainda permanecer relativamente pobre. Para escapar dessa condição, precisa transformar sua estrutura produtiva.
Esse é um problema histórico do Brasil.
O verdadeiro salto precisa acontecer na estrutura produtiva
O Brasil construiu ao longo do século XX uma das maiores estruturas industriais do mundo em desenvolvimento, mas sofreu posteriormente um processo prolongado de perda relativa de participação da indústria de transformação na economia.
Essa transformação importa para o mercado de trabalho porque diferentes setores possuem capacidades muito diferentes de gerar produtividade, inovação e encadeamentos produtivos.
Uma fábrica complexa não emprega somente quem trabalha dentro dela. Mobiliza fornecedores, engenheiros, transportadoras, laboratórios, empresas de software, universidades, serviços especializados, manutenção, logística e dezenas ou centenas de outros segmentos.
O mesmo acontece com setores tecnológicos avançados.
Por isso, a discussão sobre emprego não pode ser separada da discussão sobre política industrial, infraestrutura, educação técnica, ciência, tecnologia, financiamento e soberania produtiva.
O Brasil pode chegar a uma situação próxima do pleno emprego e ainda permanecer preso à chamada armadilha da renda média.
Gala observa que a renda per capita brasileira está aproximadamente na faixa dos US$ 10 mil anuais, enquanto economias desenvolvidas frequentemente ultrapassam US$ 30 mil, chegando em muitos casos a US$ 50 mil ou US$ 60 mil.
Fechar essa distância exige algo muito mais difícil do que simplesmente aumentar a quantidade de trabalhadores ocupados.
Exige aumentar brutalmente o valor produzido pelo trabalho brasileiro.
E isso depende da estrutura econômica.
O paradoxo brasileiro de 2026
É nesse ponto que aparece talvez o aspecto mais interessante do momento atual.
O mercado de trabalho está muito forte, mas a economia apresenta sinais de perda de velocidade.
Os juros permanecem elevados, empresas enfrentam dificuldades financeiras, recuperações judiciais cresceram e indicadores recentes de atividade mostram desaceleração na margem. O próprio Gala faz essa ressalva ao analisar os números.
Portanto, não existe motivo para triunfalismo.
Um mercado de trabalho forte hoje não garante automaticamente que a mesma situação permanecerá intacta nos próximos anos.
Juros altos durante períodos prolongados encarecem investimento, financiamento imobiliário, capital de giro e consumo. Empresas deixam de expandir capacidade. Famílias reduzem compras financiadas. Projetos produtivos são adiados.
Se a atividade econômica desacelerar suficientemente, o mercado de trabalho eventualmente sente os efeitos.
Esse é justamente o desafio da política econômica: preservar a conquista do emprego enquanto cria condições para uma nova rodada de investimentos produtivos.
O Brasil chegou a uma nova pergunta
Durante muito tempo, a questão brasileira era desesperadoramente simples:
como criar emprego para milhões de pessoas?
Essa pergunta não desapareceu. O país continua tendo desempregados, trabalhadores subocupados e milhões de pessoas em atividades precárias.
Mas o avanço recente permite acrescentar uma pergunta muito mais ambiciosa:
que empregos queremos criar?
Essa mudança é decisiva.
O objetivo de uma estratégia nacional de desenvolvimento não pode ser apenas atingir uma determinada taxa de desemprego. Precisa ser transformar o emprego em instrumento de elevação estrutural do padrão de vida.
Isso significa criar condições para que um jovem brasileiro não tenha apenas a possibilidade de trabalhar, mas de trabalhar numa economia que demande conhecimento, formação técnica, ciência e tecnologia e que seja capaz de remunerá-lo de maneira compatível com essa produtividade.
O desafio passa por indústria avançada, inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia, defesa, infraestrutura digital, transição energética, engenharia, saúde, agricultura tecnológica, produção de máquinas, processamento de minerais estratégicos e uma infinidade de setores nos quais o Brasil possui capacidade de construir vantagens.
É nesse ponto que emprego e soberania econômica se encontram.
Um país que exporta predominantemente recursos naturais e importa produtos de alta complexidade transfere para outras economias uma parcela dos empregos mais produtivos de suas próprias cadeias de valor.
O mesmo raciocínio vale para petróleo, minerais críticos e terras raras. Possuir o recurso natural é importante. Transformá-lo industrialmente dentro do país é muito mais importante para a geração de empregos qualificados.
Depois da recuperação, o desenvolvimento
A força atual do mercado de trabalho brasileiro precisa, portanto, ser compreendida como uma conquista importante, mas não como ponto de chegada.
O Brasil saiu de mais de 15 milhões de desempregados durante a pandemia para aproximadamente 5,8 milhões; ultrapassou 103 milhões de pessoas ocupadas; aproximou o emprego formal de 39 milhões de trabalhadores no setor privado; reduziu o desalento e levou a renda real para perto dos maiores níveis da série histórica.
Poucos indicadores sociais têm impacto tão imediato sobre a vida das famílias quanto esses.
Para quem estava desempregado, conseguir trabalho não é uma abstração macroeconômica. É comida, aluguel, energia elétrica, possibilidade de comprar medicamentos, reorganizar dívidas, voltar a consumir e recuperar perspectivas de futuro.
Mas justamente porque o país conseguiu avançar na quantidade, pode agora enfrentar de maneira mais ambiciosa o problema da qualidade.
O desafio brasileiro da próxima década será impedir que o atual ciclo se encerre como mais uma recuperação conjuntural e transformá-lo em plataforma para uma mudança estrutural.
Desemprego baixo precisa levar a salários maiores. Salários maiores precisam estar sustentados por produtividade maior. Produtividade maior exige investimento, tecnologia e conhecimento. E tecnologia e conhecimento precisam estar incorporados a uma estrutura produtiva nacional cada vez mais sofisticada.
Essa é a passagem decisiva.
O Brasil conseguiu colocar mais brasileiros para trabalhar. Agora precisa construir uma economia capaz de fazer o trabalho brasileiro valer cada vez mais.
É aí, como conclui Paulo Gala, que começa a verdadeira agenda do desenvolvimento.

