Da Redação
Projeto em discussão pretende conectar sistemas nacionais de pagamentos instantâneos, ampliar liquidações em moedas locais e explorar moedas digitais de bancos centrais. A proposta faz parte de uma agenda iniciada há anos pelo bloco e pode diminuir custos e dependência de infraestruturas financeiras tradicionais, mas ainda está longe de constituir uma moeda única ou uma substituição do dólar no sistema mundial.
O BRICS voltou a avançar sobre uma das questões mais estratégicas da reorganização financeira internacional: como permitir que países do bloco façam pagamentos, liquidações comerciais e transferências transfronteiriças sem depender obrigatoriamente do dólar como moeda intermediária ou de uma única infraestrutura financeira internacional. A discussão mais recente envolve a criação de um corredor capaz de conectar sistemas nacionais de pagamentos instantâneos, moedas digitais de bancos centrais e operações realizadas diretamente em moedas locais. A proposta ainda está em desenvolvimento e não representa a criação de uma moeda comum do BRICS.
A distinção é fundamental porque o debate sobre “desdolarização” costuma reunir fenômenos muito diferentes. Criar uma nova moeda internacional seria um projeto monetário de enorme complexidade, exigindo definições sobre emissão, reservas, política monetária, governança e eventualmente uma autoridade supranacional. O que está sendo discutido atualmente é mais pragmático: construir trilhos financeiros que permitam movimentar reais, yuans, rúpias, rublos e outras moedas entre diferentes economias com menos intermediários, menor custo e maior velocidade.
Essa agenda não nasceu agora. Em documento conjunto de 2024, ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do BRICS formalizaram a BRICS Cross-Border Payments Initiative (BCBPI). O texto oficial estabelece como objetivos pagamentos internacionais mais rápidos, baratos, transparentes, seguros e inclusivos, além de incentivar liquidações em moedas locais. A participação foi definida como voluntária e não vinculante, característica importante porque o BRICS reúne sistemas monetários, regimes cambiais e interesses geopolíticos bastante diferentes.
Durante a presidência brasileira do BRICS, em 2025, o Banco Central do Brasil colocou os pagamentos transfronteiriços entre os temas formais da Trilha Financeira. Na ocasião, o BC explicou que o grupo pretendia estudar soluções tecnológicas e sistemas bilaterais já existentes para enfrentar três problemas concretos: demora nas transferências internacionais, custos elevados e barreiras regulatórias. Portanto, embora reduzir vulnerabilidades associadas ao dólar faça parte da dimensão geopolítica da discussão, existe também uma motivação operacional muito concreta.
Agora, sob a presidência indiana do grupo, a discussão ganha uma dimensão tecnológica particularmente importante.
A Índia possui um dos maiores sistemas de pagamentos instantâneos do planeta, a Unified Payments Interface (UPI). Segundo os números citados pela reportagem que originou a nova discussão, a plataforma processou 23,66 bilhões de transações somente em julho de 2026, movimentando aproximadamente US$ 314 bilhões. Uma das possibilidades analisadas é justamente utilizar a experiência da UPI numa arquitetura que consiga conversar com sistemas equivalentes de outros membros do BRICS.
Para o Brasil, essa discussão inevitavelmente remete ao Pix. Não significa que exista hoje uma decisão de simplesmente incorporar o sistema brasileiro a uma plataforma do BRICS. Mas a lógica tecnológica é semelhante: em vez de construir obrigatoriamente um gigantesco sistema centralizado do zero, pode-se estudar a interoperabilidade entre infraestruturas nacionais já existentes.
É uma mudança conceitual importante. O objetivo deixa de ser necessariamente construir “o Pix dos BRICS” e passa a ser criar pontes capazes de permitir que diferentes sistemas nacionais conversem entre si.
O próprio Banco Central russo descreve oficialmente a cooperação financeira do BRICS nesses termos. Entre as linhas de trabalho da BCBPI estão pagamentos transfronteiriços utilizando, quando aplicável, moedas digitais de bancos centrais, recursos financeiros não monetários e ativos financeiros digitais, além do desenvolvimento de liquidações em moedas nacionais e da adoção de padrões tecnológicos comuns, como o ISO 20022.
Essa arquitetura pode parecer excessivamente técnica, mas toca diretamente numa das estruturas fundamentais do poder econômico internacional.
Quando uma empresa brasileira compra de uma empresa indiana, por exemplo, a operação pode exigir bancos correspondentes, conversões cambiais e sistemas internacionais de mensageria e liquidação. Dependendo da estrutura utilizada, o dólar funciona como moeda intermediária mesmo quando nenhum dos dois participantes da transação está nos Estados Unidos.
Se for possível liquidar parte crescente desse comércio diretamente entre real e rúpia — ou por mecanismos capazes de conectar os sistemas nacionais — uma parcela dessa intermediação deixa de ser necessária.
Isso não elimina o dólar. Diminui a necessidade de utilizá-lo em determinadas operações.
A diferença é enorme.
O dólar permanece dominante não apenas porque os Estados Unidos possuem a maior economia financeira do mundo, mas porque existe uma infraestrutura construída ao longo de décadas ao seu redor: mercados profundos de títulos do Tesouro americano, reservas internacionais dos bancos centrais, comércio de commodities, financiamento empresarial, derivativos, bancos correspondentes e enorme disponibilidade internacional de ativos denominados em dólares.
Nenhum corredor de pagamentos do BRICS substitui essa estrutura simplesmente porque permite pagar uma importação em moeda local.
Mas existe outra dimensão igualmente importante: infraestrutura financeira também é poder geopolítico.
As sanções impostas à Rússia depois da invasão da Ucrânia mostraram de maneira particularmente clara que sistemas financeiros internacionais podem funcionar como instrumentos de coerção econômica. Restrições bancárias, congelamento de ativos e limitações de acesso a determinados mecanismos financeiros aceleraram em Moscou — e despertaram interesse em outros países — a procura por alternativas.
É nesse contexto que a desdolarização precisa ser compreendida. Ela não é um evento no qual o dólar desaparece e outra moeda ocupa seu lugar. É um processo de criação de redundâncias financeiras.
Quanto maior o número de caminhos disponíveis para realizar uma transação, menor a dependência de um único caminho.
A Índia acrescentou em 2026 outra peça importante a essa arquitetura. Em janeiro, a Reuters revelou que o Reserve Bank of India havia proposto ao governo indiano colocar na agenda do BRICS a possibilidade de conectar as moedas digitais emitidas pelos bancos centrais dos países do grupo. O objetivo seria facilitar comércio e pagamentos relacionados ao turismo. Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul possuem experiências ou projetos relacionados a CBDCs, embora nenhum deles tivesse naquele momento uma moeda digital oficial plenamente implantada em toda a economia.
Uma arquitetura desse tipo permitiria imaginar, no futuro, diferentes camadas funcionando simultaneamente: sistemas instantâneos como UPI e Pix; liquidação em moedas nacionais; CBDCs interoperáveis; bancos correspondentes; e eventualmente mecanismos específicos para grandes operações comerciais.
É também nesse ambiente que aparecem expressões como BRICS Pay. Elas, porém, precisam ser utilizadas com cuidado. Há diferentes propostas, projetos e conceitos circulando sob essa denominação, e não existe hoje um único sistema supranacional plenamente operacional que possa ser descrito como o sistema oficial de pagamentos do BRICS. A própria documentação oficial do bloco é mais prudente e fala em iniciativas de pagamentos transfronteiriços, interoperabilidade e estudos de viabilidade.
Essa cautela ajuda a evitar uma interpretação recorrente: a ideia de que os BRICS estariam prestes a lançar uma moeda destinada a substituir o dólar.
Não é isso que está em discussão.
A transformação pode ocorrer sem uma “moeda dos BRICS”
Talvez a parte mais interessante do projeto seja justamente essa. Uma mudança relevante na arquitetura financeira internacional pode ocorrer sem que exista uma moeda única do BRICS.
Imagine uma empresa brasileira importando máquinas indianas. Em vez de comprador e vendedor dependerem de sucessivas conversões e intermediários internacionais, uma infraestrutura interoperável poderia conectar instituições financeiras brasileiras e indianas, calcular a taxa de câmbio real-rúpia e concluir a liquidação de maneira mais rápida.
Em outra operação, uma empresa chinesa poderia receber em yuan. Um turista brasileiro poderia, em algum modelo futuro, utilizar sua infraestrutura doméstica de pagamento numa economia parceira, com conversão cambial praticamente instantânea.
Essa não é uma possibilidade puramente teórica. O Banco Central brasileiro já discute com o Banco Central Europeu uma eventual interligação entre o Pix e o TIPS, sistema europeu de liquidação instantânea. As negociações estão em fase preliminar, com análises jurídicas, técnicas, operacionais e de segurança. Se o projeto avançar, um piloto é cogitado para 2028.
O exemplo europeu demonstra que a interoperabilidade entre sistemas nacionais não pertence exclusivamente à agenda do BRICS. Ela faz parte de uma transformação global dos pagamentos.
A diferença está no significado geopolítico.
Quando Brasil e Europa estudam conectar Pix e TIPS, o objetivo imediato é eficiência e integração financeira. Quando países do BRICS discutem simultaneamente pagamentos em moedas locais, CBDCs e infraestruturas alternativas, existe também uma preocupação explícita com autonomia e redução de vulnerabilidades externas.
O documento oficial do BRICS de 2024 é cuidadoso nessa matéria. Não fala em derrubar o dólar. Defende maior utilização de moedas locais, fortalecimento das redes de bancos correspondentes e desenvolvimento de instrumentos transfronteiriços mais eficientes.
Esse pragmatismo provavelmente é necessário porque os próprios membros possuem interesses diferentes.
A China tem uma economia e um sistema financeiro muito maiores que os da maioria dos parceiros. A Índia procura preservar autonomia estratégica e não tem interesse evidente em simplesmente substituir uma dependência do dólar por uma dependência do yuan. O Brasil mantém relações financeiras profundas com Estados Unidos, Europa e China. Outros integrantes enfrentam sanções ocidentais e, portanto, possuem incentivos muito maiores para acelerar alternativas.
Essa assimetria cria uma das questões mais importantes do projeto: como reduzir a centralidade de uma infraestrutura sem criar outra centralização?
A reportagem do Brasil 247 chama atenção precisamente para esse problema ao mencionar o risco de uma arquitetura alternativa concentrar poder excessivo na China.
Se a desdolarização significasse simplesmente converter todo o comércio interno do BRICS para yuan, a mudança seria muito diferente de uma arquitetura multipolar baseada em interoperabilidade.
Por isso, o uso de várias moedas locais pode ser politicamente mais aceitável que a escolha de uma única moeda dominante.
Há ainda obstáculos técnicos enormes. Sistemas precisam reconhecer padrões comuns, operar com segurança cibernética compatível, estabelecer regras contra lavagem de dinheiro e financiamento ilícito, definir mecanismos para resolver disputas, administrar liquidez e encontrar preços eficientes para conversões cambiais.
E existe um problema econômico fundamental: o que fazer com desequilíbrios comerciais persistentes?
Se dois países negociam em moedas locais, mas um deles exporta continuamente muito mais do que importa, o exportador acumulará grandes quantidades da moeda do parceiro. Essa moeda precisa ter utilidade: ser convertível, utilizada para comprar produtos, investida em ativos ou trocada de maneira eficiente.
É aí que pagamentos e sistema monetário deixam de ser a mesma coisa.
Construir um corredor tecnológico pode ser relativamente rápido. Construir mercados financeiros profundos, líquidos e confiáveis para várias moedas exige anos — possivelmente décadas.
O BRICS também estuda outras peças dessa infraestrutura. O documento conjunto de ministros das Finanças e bancos centrais de 2024 menciona o BRICS Clear, proposta para examinar uma infraestrutura independente de liquidação e depositária transfronteiriça. Também aparecem discussões sobre capacidade própria de resseguros. Todas essas iniciativas foram apresentadas como voluntárias e sujeitas a novos estudos.
Vistas conjuntamente, elas revelam algo maior que um aplicativo de pagamentos.
O que está sendo gradualmente discutido é uma arquitetura financeira complementar: pagamentos, liquidação, moedas locais, ativos digitais, infraestrutura de mercado e mecanismos de financiamento capazes de funcionar ao lado das instituições existentes.
Esse “ao lado” é essencial.
Não há evidência de que o BRICS esteja perto de substituir o FMI, o Banco Mundial, o sistema financeiro baseado no dólar ou as grandes redes globais de pagamentos. Tampouco há evidência de uma ruptura monetária iminente.
O que existe é uma tentativa concreta e acumulativa de criar alternativas.
E talvez seja justamente assim que uma transformação monetária internacional relevante aconteça: não mediante a proclamação de uma nova moeda mundial numa cúpula, mas pela construção lenta de trilhos paralelos.
Primeiro, duas moedas passam a liquidar uma parcela maior do comércio diretamente. Depois, sistemas nacionais tornam-se interoperáveis. Em seguida, bancos centrais testam CBDCs transfronteiriças. Empresas começam a manter saldos em moedas dos parceiros. Mercados financeiros adaptam instrumentos. Quanto mais essas redes forem utilizadas, menor será a necessidade de recorrer automaticamente ao dólar em todas as etapas.
Nada disso significa o “fim do dólar”.
Significa que o monopólio funcional de determinadas infraestruturas pode ser gradualmente reduzido.
Para o Brasil, a questão é particularmente importante porque o país dispõe de algo incomum: uma infraestrutura pública de pagamentos instantâneos de grande escala. O Pix transforma capacidade tecnológica doméstica em um ativo potencial de integração internacional. A negociação paralela com o TIPS europeu mostra, inclusive, que essa possibilidade não precisa ficar restrita ao BRICS.
O movimento mais relevante, portanto, talvez não seja escolher entre Washington, Pequim, Nova Délhi ou Bruxelas, mas preservar a possibilidade de conexão com todos eles.
Se o corredor atualmente discutido pelo BRICS avançar, seu significado histórico não estará na criação de uma moeda que destrone imediatamente o dólar. Estará em algo menos espetacular, porém estruturalmente importante: países que durante décadas dependeram de trilhos financeiros construídos fora de seus territórios começam a desenvolver capacidade tecnológica para escolher por quais trilhos seu próprio dinheiro circula.
É nesse ponto que pagamentos deixam de ser apenas uma questão bancária e passam a tocar diretamente a soberania econômica.





