Rejeição ao presidente cai seis pontos, número de indecisos dobra na pesquisa espontânea e medo do retorno da família Bolsonaro atinge 44%. Aliados comemoram os indicadores e falam em virada, mas Flávio Bolsonaro permanece numericamente à frente, por 45% a 44%, em cenário de empate técnico.
Da Redação
A divulgação da pesquisa Quaest nesta quarta-feira, 21 de outubro, provocou uma mudança no ambiente interno da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Integrantes da coordenação eleitoral receberam os números com entusiasmo e passaram a interpretar os resultados como sinais de uma reação política na última semana antes do segundo turno presidencial, marcado para domingo (25). Segundo reportagem de Igor Gadelha e Carolina Nogueira, do Metrópoles, repercutida pelo Brasil 247, auxiliares e dirigentes petistas destacaram principalmente a redução da rejeição ao presidente, o crescimento dos indecisos na pesquisa espontânea e o aumento do percentual de entrevistados que dizem temer mais o retorno da família Bolsonaro ao poder do que a continuidade de Lula na Presidência. Nos bastidores governistas, a avaliação foi sintetizada pela frase: “A virada está acontecendo”.
A interpretação expressa o otimismo da campanha, mas precisa ser distinguida dos resultados efetivamente apresentados pelo levantamento. Na intenção de voto estimulada, o senador Flávio Bolsonaro (PL) aparece com 45%, enquanto Lula registra 44%. Ambos estão tecnicamente empatados, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. Em relação à semana anterior, Flávio oscilou de 46% para 45%, enquanto Lula permaneceu no mesmo patamar. Os números mostram uma redução da diferença nominal entre os candidatos, de dois para um ponto percentual, mas não demonstram uma inversão estatisticamente comprovada de posições.
A pesquisa foi encomendada pela TV Globo e pelo jornal O Globo, com entrevistas presenciais realizadas entre 17 e 20 de outubro. A Quaest ouviu 2.154 eleitores em todas as regiões do país, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-08535/2026.
A primeira informação celebrada pela campanha é a redução da rejeição ao presidente. Em apenas uma semana, o percentual de entrevistados que afirmam não votar em Lula de maneira alguma passou de 53% para 47%, queda de seis pontos percentuais. No mesmo intervalo, a rejeição a Flávio Bolsonaro recuou de 54% para 52%. Com isso, o senador permanece com um índice numericamente superior ao do presidente nesse indicador.
A diferença chama atenção porque a rejeição constitui um dos elementos mais importantes para compreender disputas entre candidaturas amplamente conhecidas pelo eleitorado. Quando os concorrentes já possuem índices elevados de reconhecimento público, a disposição de considerar uma candidatura pode ser tão relevante para a dinâmica da campanha quanto a identificação de novos apoiadores. Isso não significa, entretanto, que a redução da rejeição se converta automaticamente em votos. Um eleitor pode deixar de rejeitar categoricamente determinado candidato sem decidir apoiá-lo.
É precisamente nessa distinção que reside um dos limites da interpretação apresentada pelos auxiliares de Lula. O recuo de seis pontos na rejeição não foi acompanhado de crescimento equivalente na intenção de voto do presidente, que permaneceu em 44%. O dado indica mudança nas respostas sobre a possibilidade de votar no petista, mas não permite identificar quantos desses entrevistados eventualmente mudarão sua escolha eleitoral.
O segundo indicador destacado pelo comando da campanha é o crescimento dos indecisos na modalidade espontânea da pesquisa, na qual os nomes dos candidatos não são apresentados previamente. Nesse levantamento, a proporção de pessoas que não souberam apontar um candidato passou de 7% para 14% em uma semana. Lula e Flávio registraram 40% cada.
A mudança foi ainda mais acentuada em dois segmentos examinados pela Quaest. Entre as mulheres, a proporção de indecisas na pergunta espontânea passou de 8% para 17%. Entre os eleitores classificados pelo instituto como independentes, o percentual subiu de 13% para 31%.
Para integrantes da campanha petista, esses números sugerem que parte do eleitorado ainda está reavaliando suas posições. A coordenação considera que a ampliação das dúvidas declaradas pode abrir espaço para novas conversas políticas nos últimos dias da disputa.
A interpretação, contudo, permanece uma hipótese dos aliados do presidente. O crescimento dos indecisos na pergunta espontânea não significa necessariamente que o mesmo número de pessoas esteja disposto a mudar de candidato. A resposta espontânea mede a lembrança e a manifestação imediata da preferência, enquanto a pergunta estimulada oferece os nomes dos concorrentes. Na modalidade estimulada, a proporção de indecisos foi de apenas 2%.
Por essa razão, não seria correto afirmar que 14% do eleitorado nacional permanece inteiramente sem escolha ou que todos os entrevistados desse grupo estão disponíveis para qualquer uma das campanhas. Os dois indicadores medem situações diferentes e precisam ser interpretados segundo suas respectivas metodologias.
O terceiro dado celebrado pelo PT envolve uma pergunta sobre o medo dos possíveis resultados eleitorais. Segundo a Quaest, 44% dos entrevistados dizem temer mais o retorno da família Bolsonaro ao poder, enquanto 42% manifestam maior preocupação com a reeleição de Lula. Na rodada anterior, os percentuais estavam numericamente empatados em 43%, conforme a série divulgada pelo Brasil 247.
A diferença atual também está dentro da margem de erro. Portanto, o levantamento não permite afirmar que exista uma distância estatisticamente segura entre os dois grupos. Ainda assim, a mudança nominal foi considerada politicamente relevante pela campanha governista, que passou a relacioná-la ao debate sobre a continuidade das políticas sociais e às críticas dirigidas às propostas do adversário.
O secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, afirmou ao Brasil 247 que os resultados captam uma preocupação dos eleitores com a possibilidade de mudanças em programas e direitos sociais. Em sua avaliação, a discussão envolve não apenas o Bolsa Família, mas também políticas destinadas aos microempreendedores, o Farmácia Popular, os investimentos no Sistema Único de Saúde, a valorização do salário mínimo e iniciativas educacionais.
Valadares relacionou a queda da rejeição a Lula à percepção de que os eleitores estariam reavaliando os possíveis efeitos de uma mudança de governo. Também afirmou que a campanha identifica maior mobilização em atividades presenciais e nas redes sociais.
Essa é uma interpretação política de um dirigente partidário diretamente envolvido na disputa. A Quaest não demonstra, por meio dos indicadores divulgados, que a preocupação com cada programa social tenha provocado a redução da rejeição ao presidente. Para estabelecer essa relação, seria necessário examinar perguntas específicas sobre o conhecimento das propostas, as prioridades dos entrevistados e suas razões individuais para alterar respostas.
A situação entre beneficiários do Bolsa Família merece atenção particular. Dados divulgados da mesma rodada mostram que 63% dos entrevistados pertencentes a esse grupo afirmaram temer mais o retorno da família Bolsonaro, enquanto 23% manifestaram maior receio da continuidade de Lula. Na semana anterior, os percentuais eram de 58% e 29%, respectivamente.
O resultado mostra uma diferença expressiva nas percepções declaradas pelos beneficiários entrevistados. Entretanto, por representar um subconjunto da amostra nacional, esse segmento possui incerteza estatística própria, que precisa ser considerada ao comparar as rodadas. Também não é possível concluir que todos esses entrevistados estejam escolhendo seu voto exclusivamente em função do programa de transferência de renda.
A campanha de Lula passou a destacar essas informações em um período marcado por anúncios de medidas econômicas e sociais. Nesta quarta-feira, o governo apresentou alterações nas regras destinadas aos microempreendedores individuais e uma proposta de financiamento para o transporte público gratuito. Nos dias anteriores, o debate sobre o fim da escala de trabalho 6×1 também ocupou espaço na disputa presidencial.
Essas iniciativas passaram a integrar a comunicação governista, enquanto a campanha de Flávio Bolsonaro questiona diferentes aspectos da administração Lula e apresenta propostas alternativas para a economia, a segurança pública e as políticas sociais.
O levantamento foi realizado durante dias em que os candidatos participaram de atividades públicas e confrontos televisivos, incluindo o debate da Band. A coincidência temporal, porém, não comprova que determinado anúncio governamental ou episódio de campanha tenha causado as oscilações observadas.
Outro elemento acompanhado pelas equipes eleitorais é o comportamento das candidaturas no ambiente digital. Um estudo da Quaest divulgado pela Folha de S.Paulo mostrou que Lula passou a registrar pontuação superior à de Flávio Bolsonaro no Índice de Popularidade Digital, indicador que reúne informações sobre presença, engajamento e repercussão nas plataformas.
Esse índice oferece informações sobre a atividade política nas redes, mas não é equivalente a uma pesquisa representativa de intenção de voto. Interações digitais podem ser influenciadas pela intensidade de mobilização de apoiadores, pelo alcance das contas, pelo funcionamento das plataformas e pelo perfil dos usuários. Por isso, sua comparação com pesquisas eleitorais exige cautela.
A campanha governista considera que os movimentos registrados nas ruas e nas redes ajudam a explicar o ambiente de maior confiança entre os integrantes da coordenação. Entretanto, a relação entre repercussão digital e comportamento eleitoral não pode ser presumida como automática.
A reação positiva aos números da Quaest também precisa ser compreendida no contexto das pesquisas divulgadas por outros institutos. Levantamentos recentes da Meio/Ideia, RealTime Big Data, Palver e BTG/Nexus apresentam resultados distintos em seus percentuais, mas também descrevem uma disputa acirrada, com diferenças inseridas nos respectivos intervalos de incerteza estatística.
A existência de números diferentes entre institutos não constitui, por si só, contradição. Pesquisas utilizam amostras, métodos de coleta, períodos e procedimentos estatísticos próprios. Para avaliar mudanças ao longo do tempo, a comparação entre rodadas de um mesmo instituto costuma ser mais adequada, embora também esteja sujeita à margem de erro.
No caso da Quaest, há três movimentos nominais que ajudam a explicar a satisfação dos aliados de Lula: a diminuição da rejeição ao presidente, a ampliação das dúvidas manifestadas na pesquisa espontânea e o crescimento do percentual que declara maior receio da volta dos Bolsonaro.
Nenhum desses movimentos, isoladamente, demonstra que o resultado eleitoral tenha sido revertido. A intenção de voto estimulada continua mostrando os candidatos em empate técnico, com Flávio numericamente um ponto à frente.
A diferença entre o entusiasmo político e a constatação estatística é fundamental para compreender o episódio. Integrantes de campanhas interpretam pesquisas de acordo com suas expectativas, experiências de mobilização e objetivos políticos. Institutos, por sua vez, apresentam estimativas amostrais acompanhadas de limites de precisão.
O trabalho jornalístico exige apresentar essas duas dimensões sem confundi-las.
A frase “a virada está acontecendo” descreve a leitura feita por integrantes do comando governista, não uma conclusão produzida pela Quaest. Da mesma maneira, a manutenção da vantagem numérica de Flávio no levantamento não permite afirmar que exista um resultado definido para a eleição de domingo.
A pesquisa oferece um retrato do eleitorado entrevistado entre 17 e 20 de outubro. O resultado das urnas dependerá das escolhas efetivamente realizadas em 25 de outubro, incluindo o comparecimento, a distribuição dos votos válidos e o comportamento de pessoas que podem manifestar respostas diferentes das captadas durante as entrevistas.
Faltando quatro dias para o segundo turno, a campanha de Lula interpreta os novos dados como estímulo político para sua equipe, enquanto o cenário estatístico permanece marcado pela proximidade entre os concorrentes.
A queda da rejeição ao presidente é o indicador de maior variação nessa rodada. A duplicação dos indecisos na pesquisa espontânea e a diferença numérica na pergunta sobre medo acrescentam outras informações sobre as percepções declaradas pelos brasileiros, mas não permitem antecipar a direção de possíveis mudanças de voto.
A comemoração dos aliados, portanto, constitui um acontecimento político documentado, assim como os números da pesquisa. A eventual confirmação de uma mudança na distribuição das preferências exigirá novos levantamentos e, em última instância, o resultado oficial da votação.






