Da Redação
Márcio Canella, pré-candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro e nome escolhido por Flávio Bolsonaro para compor seu projeto eleitoral no estado, foi alvo de buscas da Polícia Federal nesta terça-feira (7). A operação investiga uma organização criminosa suspeita de movimentar mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos por meio de uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio.
Canella, do União Brasil, foi prefeito de Belford Roxo e deixou o cargo em abril para disputar uma vaga no Senado. Sua candidatura havia sido anunciada e defendida publicamente por Flávio Bolsonaro, que busca organizar um palanque próprio no Rio enquanto disputa a Presidência da República.
A ação desta terça é a sexta fase da Operação Unha e Carne. Além de Canella, está entre os alvos o delegado Marcus Amim, ex-secretário da Polícia Civil do Rio de Janeiro. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro e participação de agentes públicos na proteção do esquema.
R$ 7,6 bilhões em movimentações suspeitas
De acordo com as investigações, a organização utilizaria uma ampla rede de postos de combustíveis para inserir dinheiro vivo de origem criminosa na economia formal. Um relatório de inteligência financeira do Coaf identificou movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões ao longo dos últimos seis anos.
A Polícia Federal cumpriu 19 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro. A apuração procura esclarecer a participação dos investigados, o funcionamento financeiro da rede e a atuação de agentes públicos que, segundo a suspeita policial, teriam colaborado com o grupo.
Os postos de combustíveis aparecem na investigação como pontos relevantes para a circulação e lavagem dos recursos. O setor trabalha diariamente com grande volume financeiro e múltiplas formas de pagamento, características que podem ser exploradas por organizações criminosas para misturar recursos ilícitos com receitas de atividades regulares.
A condição de alvo de busca não significa condenação. A investigação continua e deverá individualizar as condutas atribuídas a cada pessoa alcançada pela operação.
O candidato escolhido por Flávio
A presença de Márcio Canella entre os alvos tem repercussão direta na montagem eleitoral de Flávio Bolsonaro no Rio.
Em fevereiro, Flávio anunciou publicamente uma composição para a disputa ao Senado que incluía Canella. O ex-prefeito também vinha reafirmando sua proximidade política com o senador e deixou a Prefeitura de Belford Roxo para entrar na disputa eleitoral de 2026.
A relação política entre os dois ocorre em um momento em que Flávio tenta consolidar sua candidatura presidencial e manter o Rio de Janeiro como uma de suas principais bases eleitorais. A investigação contra Canella acrescenta um problema a uma composição regional que já vinha sendo objeto de preocupação entre aliados do bolsonarismo.
Canella havia construído uma trajetória eleitoral de força na Baixada Fluminense. Antes de chegar à prefeitura, exerceu mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Sua projeção estadual levou Flávio a incorporá-lo ao grupo de candidatos apresentados para a disputa pelo Senado.
A operação da PF, portanto, alcança um nome diretamente ligado à estratégia eleitoral do pré-candidato presidencial do PL.
Operação já alcançou políticos e outras figuras públicas
A Operação Unha e Carne já teve outras fases e atingiu personagens políticos e públicos do Rio de Janeiro. Entre os investigados ou presos em etapas anteriores estão o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio Rodrigo Bacellar, o ex-deputado TH Joias, Thiago Rangel e o pastor Márcio Poncio.
A nova etapa procura aprofundar a investigação sobre o núcleo financeiro relacionado à rede de postos e esclarecer a possível participação de integrantes do poder público.
A presença de um ex-secretário da Polícia Civil entre os alvos também amplia a dimensão institucional do caso. Marcus Amim comandou a corporação estadual e agora é investigado no mesmo contexto em que a PF apura a possível participação de agentes públicos no esquema.
A investigação ainda está em andamento. A Polícia Federal deverá analisar o material apreendido nesta terça-feira para aprofundar o rastreamento do dinheiro e verificar a responsabilidade individual dos alvos.
Para Flávio Bolsonaro, o avanço da operação produz uma consequência eleitoral imediata: um dos nomes que escolheu para representar sua aliança na disputa pelo Senado do Rio entra na pré-campanha sob o peso de uma investigação federal sobre uma rede suspeita de movimentar R$ 7,6 bilhões.
Os amigos e aliados que viraram problema para Flávio
Márcio Canella não é o primeiro nome próximo de Flávio Bolsonaro a entrar no noticiário policial durante a construção de sua candidatura presidencial. Nos últimos meses, relações políticas e pessoais do senador passaram a aparecer em investigações que envolvem desde o caso Banco Master até suspeitas de desvio de recursos públicos. São situações jurídicas diferentes, que precisam ser tratadas individualmente, mas que criam um problema político comum para o candidato.
O caso de maior dimensão envolve Daniel Vorcaro. O dono do Banco Master tornou-se personagem de uma das maiores investigações financeiras recentes do país e sua relação com Flávio passou a ser examinada publicamente. Entre os episódios revelados está a procura por financiamento privado para um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio confirmou a busca por patrocinadores, negou qualquer irregularidade e afirmou que não houve contrapartida.
A proximidade ganhou peso porque Vorcaro está no centro da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro. As apurações sobre o Master também alcançaram relações mantidas pelo banqueiro com políticos de diferentes partidos.
Um desses políticos é Ciro Nogueira, presidente do PP e personagem importante nas articulações eleitorais em torno de Flávio. O senador piauiense chegou a ser apresentado por aliados como uma possibilidade para a composição presidencial. O próprio Flávio já se referiu a Ciro como um nome com perfil para ocupar a Vice-Presidência.
As investigações sobre o caso Master, porém, colocaram a relação entre Ciro e Vorcaro sob escrutínio. A Polícia Federal identificou despesas pessoais do senador que teriam sido pagas pelo banqueiro, incluindo viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e roupas. A defesa de Ciro nega irregularidades e contesta as interpretações dadas aos fatos investigados.
Outro aliado central é Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara e um dos principais defensores públicos da família Bolsonaro no Congresso. Em dezembro de 2025, a Polícia Federal encontrou cerca de R$ 430 mil em dinheiro vivo em um imóvel utilizado pelo deputado durante uma operação que investiga suspeitas relacionadas ao uso de recursos da cota parlamentar.
Sóstenes afirmou que o dinheiro era lícito e resultado da venda de um imóvel. As explicações apresentadas pelo parlamentar também passaram a ser examinadas pelos investigadores.
Agora, a operação contra Márcio Canella leva o problema diretamente ao palanque eleitoral de Flávio no Rio de Janeiro. Canella foi escolhido para disputar o Senado e possui uma ligação política ainda mais próxima com a família: Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, integra a chapa como primeira suplente.
Nenhuma dessas situações permite atribuir a Flávio Bolsonaro responsabilidade criminal pelos atos investigados de terceiros. O problema para sua candidatura é político e está relacionado às próprias escolhas feitas para financiar projetos, construir alianças partidárias, comandar sua defesa no Congresso e formar palanques estaduais.
Com a chegada de Márcio Canella à lista de aliados atingidos por investigações, Flávio terá de administrar durante a campanha uma sucessão de casos envolvendo personagens que ocupam posições relevantes em seu círculo político.

