Atitude Popular

Carta de São Paulo consolida agenda pela soberania digital e regulação das big techs no 9º BlogProg

Documento aprovado no encontro nacional de comunicadores aponta caminhos políticos, tecnológicos e organizativos para enfrentar desinformação, concentração de poder e dependência tecnológica

Transmitido pela TV Atitude Popular, no canal do YouTube da Atitude Popular, o 9º Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais, o BlogProg, reuniu nos dias 24 e 25 de abril, em São Paulo, representantes de diferentes regiões do país para debater comunicação, tecnologia e política. O ponto alto do encontro foi a aprovação da Carta de São Paulo, documento que sintetiza diagnósticos e propostas do campo democrático diante dos desafios impostos pelas big techs e pela disputa informacional contemporânea.

A cobertura do evento contou com retransmissão de diversos canais da mídia alternativa e popular, incluindo a própria Atitude Popular, e consolidou o encontro como um dos principais espaços de formulação política sobre comunicação no Brasil. A Carta de São Paulo emerge desse acúmulo coletivo como uma resposta organizada à concentração de poder nas plataformas digitais e à necessidade de soberania tecnológica.

Um diagnóstico político do presente

O documento parte de uma leitura crítica do cenário global e nacional. Aponta que o mundo vive uma conjuntura marcada pelo avanço da ultradireita, pela intensificação de conflitos geopolíticos e pela centralidade da comunicação como campo de disputa. Nesse contexto, as plataformas digitais deixam de ser apenas ferramentas e passam a operar como estruturas de poder.

A carta afirma que a comunicação hoje cumpre um papel ambíguo. Pode fortalecer a democracia e ampliar vozes populares, mas também tem sido utilizada para manipulação, desinformação e disseminação de violência política e simbólica. Diante disso, o texto reafirma o compromisso dos comunicadores com um ecossistema informacional plural, democrático e orientado pelos direitos humanos.

Regulação das plataformas como eixo central

Um dos pontos mais enfáticos da Carta de São Paulo é a defesa da regulação das big techs. O documento sustenta que essas empresas concentram poder econômico e informacional sem precedentes e operam, muitas vezes, à revelia do interesse público.

A proposta de regulação é apresentada como uma medida essencial para garantir transparência, responsabilização e proteção da sociedade. Não se trata apenas de combater fake news, mas de enfrentar um modelo de negócios baseado na exploração de dados, na opacidade algorítmica e na indução de comportamentos.

Durante o encontro, o pesquisador Rafael Evangelista destacou que a regulação precisa estar articulada a políticas públicas mais amplas. Segundo ele, “a regulamentação é super importante, mas não vai ser suficiente”, sendo necessário que o Estado atue como indutor de um ecossistema informacional democrático.

Soberania nacional e disputa tecnológica

Outro eixo estruturante da carta é a defesa da soberania nacional no campo digital. O documento vincula a regulação das plataformas à necessidade de controle sobre dados, infraestrutura e tecnologias estratégicas.

Essa perspectiva dialoga diretamente com as falas do encontro. O professor Sérgio Amadeu argumentou que a disputa tecnológica não é apenas técnica, mas política e geopolítica. Ele alertou para o risco de dependência estrutural do Brasil em relação às grandes corporações estrangeiras e defendeu investimentos em infraestrutura própria e ciência nacional.

A carta também incorpora a preocupação com recursos estratégicos, como as terras raras, associando sua exploração a um projeto de soberania que enfrente a lógica neocolonial e predatória.

Comunicação como ferramenta de organização social

Para além da dimensão tecnológica, o documento reafirma o papel da comunicação como instrumento de organização política e social. A carta propõe fortalecer a mídia alternativa e popular, reconhecendo sua importância na construção de narrativas contra-hegemônicas.

Entre as emendas aprovadas está a criação de uma política nacional de financiamento à mídia alternativa, com critérios transparentes e distribuição regional. A proposta busca garantir sustentabilidade econômica a iniciativas que atuam fora dos grandes conglomerados.

Outro ponto relevante é a valorização das experiências concretas das periferias e dos trabalhadores como base para a produção de conhecimento e comunicação. A carta defende que essas vivências devem ser transformadas em estratégia política e narrativa.

Violência, direitos e justiça climática

O documento também amplia o escopo do debate ao incorporar temas como feminicídio, racismo, direitos dos povos originários e crise ambiental. A carta reconhece que essas agendas estão profundamente conectadas à disputa informacional e à forma como a realidade é narrada e percebida.

A defesa da justiça climática e da proteção das riquezas naturais aparece articulada à soberania nacional, reforçando a ideia de que comunicação, território e poder estão interligados.

Um documento em construção

A Carta de São Paulo foi apresentada como um documento vivo, resultado de contribuições coletivas e aberto a novos desdobramentos. Sua aprovação simboliza não apenas um consenso político, mas o início de um processo de articulação contínua entre comunicadores e ativistas digitais.

Ao final do encontro, os participantes também discutiram estratégias futuras, incluindo a necessidade de campanhas públicas, formação política e articulação com setores institucionais. A carta, nesse sentido, funciona como ponto de partida para uma agenda mais ampla de intervenção no debate público.

Próximos passos

A aprovação do documento foi acompanhada de encaminhamentos práticos, como a busca de diálogo com o governo federal e a construção de campanhas em defesa da soberania digital. Também foi destacada a importância de ampliar a participação de jovens, trabalhadores da tecnologia e influenciadores digitais no movimento.

Mais do que um manifesto, a Carta de São Paulo se consolida como um instrumento político que traduz as tensões do presente e aponta caminhos para o futuro da comunicação no Brasil.

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