Da Redação
Colapso de geleira e gigantesca avalanche de rochas e gelo desencadearam uma onda de lama que atravessou vales, destruiu comunidades e infraestrutura na fronteira entre Nepal e China. O número de vítimas continua aumentando nesta sexta-feira (28), enquanto milhares de socorristas procuram desaparecidos e autoridades alertam para o risco de uma segunda inundação.
Uma das maiores catástrofes naturais recentes do Himalaia continua revelando sua dimensão nesta sexta-feira (28). Equipes de resgate trabalham em meio a toneladas de lama, pedras, destroços de edifícios e estradas destruídas na região fronteiriça entre o Nepal e a Região Autônoma do Tibete, na China, depois da gigantesca enxurrada que atingiu os vales na quarta-feira (26). O balanço muda rapidamente à medida que novas áreas são alcançadas: a atualização mais recente da Associated Press registra 469 mortos no Nepal e cinco no Tibete, totalizando pelo menos 474 vítimas confirmadas, além de mais de 1,5 mil desaparecidos.
É importante registrar a atualização porque os números estão mudando de hora em hora. A reportagem do Brasil 247, publicada às 6h40 desta sexta-feira com informações da AFP, registrava 489 mortos no Nepal e cinco no Tibete, chegando a 494 mortes. Outras agências internacionais trabalham neste momento com balanços diferentes: a Euronews/AP informava 472 mortos em sua atualização, enquanto a AP posteriormente registrou 474. A divergência decorre da rapidez das operações de busca, das dificuldades de comunicação e da consolidação de informações provenientes de diferentes autoridades. Por isso, qualquer balanço deve ser tratado como provisório.
A dimensão humana é devastadora. A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho estima que pelo menos 93 mil pessoas foram afetadas e necessitam de assistência, incluindo aproximadamente 17 mil crianças em necessidade urgente. Escolas e instalações de saúde foram destruídas, enquanto comunidades inteiras permanecem isoladas, algumas acessíveis somente por helicópteros.
O que aconteceu no alto do Himalaia está sendo reconstruído por cientistas a partir de imagens de satélite, registros sísmicos e observações de campo. As evidências preliminares apontam para um fenômeno de proporções extraordinárias: uma enorme massa de gelo e rocha se desprendeu em alta altitude, atingiu o sistema fluvial e provocou uma sucessão de eventos que terminou numa onda devastadora de água, lama e detritos.
Imagens de satélite mostram que a avalanche atingiu o rio Lhende, aproximadamente 20 quilômetros a nordeste da passagem fronteiriça de Rasuwagadhi. A massa de material teria represado temporariamente a água; quando a barreira se rompeu, uma enorme quantidade de água e detritos avançou violentamente pelos vales.
A força foi tamanha que os instrumentos sísmicos registraram um sinal equivalente a um evento de magnitude 5,2. Inicialmente, chegaram a circular informações de que um terremoto teria provocado a tragédia. A análise posterior indicou o contrário: o próprio colapso de gelo e rocha produziu energia suficiente para gerar o sinal sísmico.
A diferença é fundamental para compreender a catástrofe. Não se trataria, pelas evidências disponíveis até agora, de um terremoto convencional seguido por enchentes, mas de um gigantesco movimento de massa nas montanhas que desencadeou a enxurrada.
Uma parede de água, gelo, pedras e lama
A velocidade da onda ajuda a explicar a quantidade extraordinária de mortos e desaparecidos.
A torrente percorreu o Lhende, alcançou o Bhote Koshi e posteriormente o rio Trishuli. Segundo autoridades nepalesas, em determinados trechos o nível do Trishuli chegou a subir aproximadamente nove metros em apenas 30 minutos.
As comunidades tiveram pouquíssimo tempo para reagir.
Timure e Syapru Besi, no distrito de Rasuwa, estão entre as localidades mais duramente atingidas. A destruição avançou posteriormente por Nuwakot e Dhading. Corpos foram encontrados muito mais ao sul, demonstrando a distância percorrida pela correnteza.
No lado chinês, lama e destroços atingiram violentamente Gyirong, importante passagem comercial entre China e Nepal.
A televisão estatal chinesa informou nesta sexta-feira que cinco pessoas morreram na região tibetana e 558 continuavam desaparecidas. Cerca de 680 integrantes das equipes de emergência conseguiram alcançar a área mais atingida de Gyirong, enfrentando estradas destruídas e regiões transformadas literalmente em rios.
Vídeos e imagens divulgados após a tragédia mostram edifícios parcialmente enterrados, veículos arrastados, pontes destruídas e enormes áreas cobertas por uma camada espessa de lama.
No Nepal, a destruição atingiu também infraestrutura estratégica.
Ao menos 15 projetos hidrelétricos foram afetados e aproximadamente 431 megawatts de capacidade de geração teriam sido interrompidos, com danos significativos às instalações de Rasuwagadhi, Chilime e Sanjen.
Estradas desapareceram. Pontes foram arrancadas. Sistemas de comunicação e eletricidade foram interrompidos.
Em algumas localidades, a geografia foi simplesmente redesenhada pela força da água.
Centenas de estrangeiros estavam na região
A tragédia ganhou dimensão internacional porque a região atingida é também uma importante rota turística do Himalaia.
O Brasil 247, citando informações disponíveis durante a madrugada, registrou 823 desaparecidos no Nepal, dos quais 517 seriam turistas estrangeiros. Entre eles apareciam cidadãos da Índia, Estados Unidos, Ucrânia, Malásia, Austrália, Reino Unido, Canadá e Espanha.
Balanços posteriores elevaram significativamente o número total de desaparecidos nos dois lados da fronteira para mais de 1,5 mil pessoas.
A quantidade exata de estrangeiros continua sendo revisada.
Esse é um dos motivos pelos quais as operações de identificação poderão levar dias ou semanas. Muitos viajantes estavam se deslocando por áreas montanhosas, pousadas, trilhas e regiões onde as comunicações foram completamente interrompidas.
Há ainda pessoas inicialmente consideradas desaparecidas que poderão estar isoladas e sem meios de contato.
Ao mesmo tempo, as autoridades enfrentam a possibilidade de que muitas vítimas tenham sido carregadas por dezenas ou mesmo centenas de quilômetros pela correnteza.
O perigo ainda não terminou
O desastre de quarta-feira pode não ter acabado.
Essa é uma das maiores preocupações das autoridades nesta sexta-feira.
A avalanche e os movimentos de terra modificaram o sistema hidrográfico da região e formaram novos represamentos naturais. Autoridades nepalesas e chinesas alertaram que um lago criado rio acima está transbordando e pode provocar novas enchentes.
A polícia do Nepal chegou a emitir novo alerta depois de informações sobre outro rompimento de uma barreira natural na região.
Equipes de resgate, forças de segurança e moradores foram instruídos a abandonar imediatamente áreas vulneráveis caso o nível das águas volte a aumentar.
Isso cria uma situação extremamente delicada: os socorristas precisam entrar justamente nas áreas que continuam geologicamente instáveis para procurar sobreviventes.
Uma nova avalanche, deslizamento ou rompimento de lago poderia atingir tanto comunidades quanto as próprias equipes de emergência.
O presidente chinês, Xi Jinping, determinou prioridade máxima às operações de busca e resgate. Segundo declaração oficial do Ministério das Relações Exteriores chinês, Pequim ordenou a mobilização de recursos para localizar desaparecidos, retirar pessoas das zonas de perigo, atender feridos e reforçar os sistemas de monitoramento e alerta para evitar novas vítimas.
No Nepal, Exército, polícia e equipes civis também foram mobilizados, com helicópteros utilizados para alcançar localidades isoladas.
O Himalaia diante de uma nova realidade climática
Embora ainda seja cedo para estabelecer uma relação causal específica entre este desastre e o aquecimento global, a tragédia ocorre numa das regiões mais vulneráveis às transformações climáticas do planeta.
O Himalaia contém uma das maiores concentrações de gelo fora das regiões polares e alimenta alguns dos sistemas fluviais mais importantes da Ásia.
A elevação das temperaturas modifica geleiras, descongela áreas de permafrost, aumenta a instabilidade das encostas e favorece a formação e expansão de lagos glaciais.
Quando uma grande quantidade de gelo, neve ou rocha despenca sobre um desses sistemas, pode produzir fenômenos conhecidos como glacial lake outburst floods — inundações repentinas provocadas pelo rompimento de lagos ou barragens naturais.
Os cientistas ainda estão investigando exatamente qual sequência ocorreu nesta quarta-feira.
Análises preliminares indicam que uma enorme massa de rocha e gelo pode ter formado uma barragem temporária antes de liberar violentamente a água acumulada.
A escala do evento chamou atenção internacional.
O fenômeno está sendo comparado por especialistas à catástrofe de Chamoli, ocorrida no Himalaia indiano em 2021, quando uma avalanche de rocha e gelo desencadeou uma inundação devastadora. A tragédia atual, entretanto, apresenta uma dimensão excepcional tanto pela área atingida quanto pelo número de vítimas.
Os pesquisadores alertam, contudo, contra conclusões simplistas.
Não é cientificamente correto afirmar neste momento que a mudança climática “causou” diretamente o deslizamento específico de quarta-feira. O que a ciência climática indica é que o aquecimento das regiões de alta montanha aumenta determinadas condições de instabilidade e, consequentemente, os riscos associados a geleiras, permafrost e lagos glaciais.
Essa distinção é importante.
Uma tragédia que ainda está acontecendo
O cenário nesta manhã de sexta-feira continua sendo de emergência.
Há pessoas soterradas, comunidades incomunicáveis, turistas sem contato com familiares, estradas destruídas e centenas de quilômetros de vales afetados direta ou indiretamente pela onda.
O balanço de mortos provavelmente ainda sofrerá alterações.
A prioridade imediata é localizar sobreviventes durante uma janela de tempo que diminui a cada hora.
Mas, depois das buscas, Nepal e China enfrentarão outra tarefa gigantesca: reconstruir estradas, pontes, instalações hidrelétricas, sistemas de comunicação, escolas, unidades de saúde e comunidades inteiras.
A Federação Internacional da Cruz Vermelha estima que dezenas de milhares de pessoas precisarão de assistência humanitária.
A catástrofe também deixa uma advertência que ultrapassa as fronteiras de Nepal e China.
O Himalaia é uma gigantesca reserva de água da Ásia. Seus sistemas glaciais alimentam rios dos quais dependem centenas de milhões de pessoas. Alterações profundas nesse ambiente podem produzir consequências que descem das montanhas para cidades, campos agrícolas, usinas e comunidades localizadas a enormes distâncias.
O que aconteceu na fronteira entre Nepal e Tibete começou em poucos minutos, no alto de uma montanha.
Uma massa gigantesca de gelo e rocha desabou.
Um rio foi represado.
A barreira cedeu.
E uma parede de água, pedras e lama desceu pelos vales com força suficiente para destruir comunidades, produzir um sinal sísmico detectável a quilômetros de distância e deixar centenas de mortos e mais de 1,5 mil pessoas ainda desaparecidas.
Enquanto as buscas continuam nesta sexta-feira, talvez a dimensão mais dramática da tragédia esteja justamente nesse último número.
Há mais de mil famílias que ainda não sabem se seus parentes conseguiram sobreviver.
E, nas montanhas, o perigo ainda não passou.

