Governadora do PP derrota Leandro Grass (PT) no segundo turno e consolida o comando da direita sobre o Distrito Federal até 2030. Apoiada por Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e Flávio Bolsonaro, Celina Leão conquista seu primeiro mandato diretamente nas urnas, mas terá de enfrentar a crise bilionária do Banco de Brasília, agravada pelas operações com o Banco Master, além das dificuldades financeiras e sociais da capital federal.
Da Redação
A governadora Celina Leão (PP) foi reeleita neste domingo, 25 de outubro de 2026, para comandar o Distrito Federal até dezembro de 2030, derrotando o ex-deputado distrital Leandro Grass (PT) no segundo turno das eleições. Com 90,11% das urnas apuradas, Celina registrava 57,22% dos votos válidos, contra 42,78% do adversário, resultado que tornou sua vitória matematicamente irreversível. A eleição confirma a permanência da coalizão de direita no Palácio do Buriti e fortalece a influência política do bolsonarismo na capital da República, num momento em que a administração distrital enfrenta uma grave crise financeira relacionada ao Banco de Brasília (BRB) e às operações realizadas com o Banco Master.
A vitória de Celina encerra uma disputa marcada pela aproximação entre o Partido Progressistas, o MDB, o PL e outras legendas conservadoras. Embora pertença ao PP, a governadora recebeu apoio público de lideranças importantes do bolsonarismo, incluindo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a deputada federal Bia Kicis e o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República. Também contou com a participação de Damares Alves, senadora pelo Republicanos. A articulação reuniu diferentes segmentos da direita brasiliense e permitiu que a governadora enfrentasse o segundo turno com uma estrutura política ampla, enquanto o Partido dos Trabalhadores buscava reunir a esquerda e setores críticos à administração distrital.
Acompanhada por Michelle Bolsonaro, Bia Kicis e outros aliados, Celina votou pela manhã no Centro de Ensino Fundamental 1 do Lago Norte. Durante a apuração, reuniu integrantes de sua campanha na residência oficial da Vice-Governadoria, no Lago Sul. Leandro Grass acompanhou os resultados reservadamente, depois de votar no Guará, acompanhado de sua vice, Dora Gomes (PV), e familiares. A campanha petista concentrou suas críticas na situação financeira do governo, nos problemas da saúde pública e nas consequências das operações envolvendo o BRB.
A vitória possui significado histórico para a representação feminina no Executivo distrital. Celina Leão torna-se a primeira mulher eleita diretamente para ocupar o cargo de governadora do Distrito Federal. Outras mulheres já exerceram a chefia do governo em situações de sucessão ou substituição, mas a eleição deste domingo estabelece uma nova condição para o exercício do mandato.
Natural de Goiânia, Celina tem 49 anos e construiu sua trajetória política a partir de alianças com diferentes grupos conservadores do Distrito Federal. Foi eleita deputada distrital em 2010 e reeleita em 2014, chegando à presidência da Câmara Legislativa. Em 2018, conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados e, posteriormente, ocupou secretarias no governo de Ibaneis Rocha. Em 2022, integrou como vice-governadora a chapa encabeçada pelo emedebista, que venceu a eleição ainda no primeiro turno.
A mudança no comando do Executivo ocorreu em março de 2026, quando Ibaneis deixou o cargo para tentar disputar uma vaga no Senado Federal. Celina assumiu definitivamente o governo e passou a organizar sua própria candidatura, buscando preservar a base partidária herdada do antecessor e, simultaneamente, construir uma identidade política capaz de reduzir o desgaste provocado pelas controvérsias envolvendo o Banco de Brasília.
A crise do BRB tornou-se um dos principais fatores de tensão da campanha. O banco, controlado pelo governo distrital, foi atingido pelas consequências das operações realizadas com o Banco Master, instituição financeira associada ao empresário Daniel Vorcaro. Em março de 2025, a administração do BRB havia aprovado uma operação para adquirir participação majoritária no Master, mas a transação foi rejeitada pelo Banco Central em setembro daquele ano. O Master acabou submetido à liquidação em novembro de 2025.
As investigações posteriores passaram a examinar operações financeiras de grande dimensão entre as instituições. Segundo informações divulgadas sobre a apuração da Polícia Federal, o BRB transferiu aproximadamente R$ 17 bilhões ao Master, incluindo operações envolvendo cerca de R$ 12,2 bilhões em títulos apontados pelas investigações como falsos. A determinação das responsabilidades individuais e a extensão definitiva dos prejuízos ainda dependem dos procedimentos investigativos, das auditorias e das decisões das autoridades competentes.
O impacto financeiro das operações constitui um problema relevante para a gestão distrital. O BRB busca obter um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos, operação que enfrenta dificuldades relacionadas às garantias exigidas e à avaliação das instituições envolvidas. A crise também colocou em discussão a transparência das demonstrações financeiras do banco, que ainda não havia divulgado seus balanços referentes a 2025 e ao primeiro semestre de 2026.
Durante a campanha, Celina procurou estabelecer uma separação entre sua atuação e as decisões tomadas durante o governo Ibaneis Rocha. Afirmou ter sido contrária à tentativa de aquisição do Master e negou envolvimento nas negociações conduzidas anteriormente. Também declarou que, depois de assumir o Executivo, promoveu mudanças na direção do banco e determinou auditorias para compreender a extensão dos problemas. Sua posição é a de que herdou uma crise cuja solução passou a integrar suas responsabilidades como governadora.
Essa explicação foi contestada por adversários políticos, que questionaram a atuação da administração distrital e cobraram informações sobre a situação patrimonial da instituição. Para Leandro Grass, a crise do BRB passou a simbolizar problemas de gestão e de fiscalização dos recursos públicos. A campanha petista defendeu maior transparência sobre as operações, a divulgação dos balanços e a identificação de eventuais responsabilidades administrativas e políticas.
O debate possui consequências concretas para os moradores do Distrito Federal. O BRB não é apenas uma instituição financeira comercial. Trata-se de um banco controlado pelo poder público, com participação em operações de crédito, financiamento e prestação de serviços relacionados à economia local. Uma eventual necessidade de recomposição patrimonial pode criar pressões sobre as contas do governo e provocar disputas sobre a utilização de recursos públicos.
A situação se agrava num ambiente de restrições fiscais. Ao assumir o governo, Celina anunciou medidas de contenção de despesas, incluindo revisão de contratos e limitações à realização de novos gastos. A justificativa apresentada foi a necessidade de reorganizar as finanças distritais. Essas decisões, entretanto, passaram a ser examinadas também por seus possíveis efeitos sobre a prestação dos serviços públicos, especialmente saúde, educação, infraestrutura e assistência social.
O Distrito Federal reúne características econômicas e sociais particulares. Brasília concentra órgãos federais, atividades administrativas e parcelas expressivas da renda associada ao funcionalismo público. Ao mesmo tempo, regiões administrativas mais afastadas do Plano Piloto apresentam problemas relacionados à mobilidade, ao acesso aos serviços de saúde, à infraestrutura urbana e às desigualdades de renda.
Essa diferença entre o centro político-administrativo e as regiões periféricas constitui um desafio permanente para os governos distritais. A concentração de empregos e equipamentos públicos em determinadas áreas exige grandes deslocamentos diários de trabalhadores. Problemas no transporte, na oferta de serviços especializados e na distribuição dos investimentos públicos afetam de maneira desigual os moradores, tornando a política de desenvolvimento territorial uma das principais responsabilidades do Executivo.
A eleição também mostrou a capacidade de Celina de conservar o eleitorado reunido durante o primeiro turno. Em 4 de outubro, a governadora havia recebido 825.530 votos, equivalentes a 49,93% dos votos válidos, ficando muito próxima da maioria absoluta necessária para vencer sem nova votação. Leandro Grass terminou aquela etapa com 569.930 votos, ou 34,47%, garantindo a segunda posição.
A candidatura petista procurou ampliar sua base durante o segundo turno, reunindo partidos e movimentos de esquerda e buscando votos de eleitores que haviam escolhido outros candidatos. Celina, por sua vez, trabalhou para manter a unidade de sua coligação e atrair parte dos votos disponíveis, apoiando-se na estrutura política formada ao redor de seu governo.
Outro elemento importante foi a ausência do ex-governador José Roberto Arruda (PSD), que tentou retornar à disputa pelo Palácio do Buriti. Sua candidatura acabou barrada pela Justiça Eleitoral em razão de impedimentos jurídicos associados a condenações por improbidade administrativa. A exclusão alterou a configuração da disputa e retirou do processo um personagem que aparecia com índices expressivos nas pesquisas anteriores.
Durante a campanha, Celina buscou equilibrar dois discursos. O primeiro apresentava sua administração como continuidade de projetos iniciados na gestão Ibaneis Rocha, destacando obras, programas e serviços realizados. O segundo procurava diferenciá-la do ex-governador, especialmente diante das repercussões das operações envolvendo o BRB. Essa combinação permitiu preservar alianças construídas anteriormente, sem assumir integralmente o desgaste político de todas as decisões do governo precedente.
A vitória também consolida a presença do bolsonarismo entre as principais forças políticas do Distrito Federal. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas eleitas para o Senado nas eleições deste ano, participaram da campanha da governadora. Damares Alves, integrante da bancada conservadora do DF no Senado, também aparece entre suas principais aliadas. A articulação reforça a relação entre o governo local e lideranças com projeção nacional, embora não elimine eventuais diferenças de interesses entre partidos e grupos políticos.
O resultado demonstra a capacidade dessa coalizão de reunir votos em uma eleição disputada simultaneamente com o segundo turno presidencial. Mas a vitória nas urnas não resolve automaticamente os conflitos econômicos e administrativos que marcaram os últimos meses. Celina terá diante de si a necessidade de apresentar respostas concretas sobre o BRB, assegurar o funcionamento dos serviços públicos e enfrentar problemas estruturais que atingem a população das regiões administrativas.
A governadora também precisará definir como será a relação entre o Executivo distrital e a Câmara Legislativa, especialmente nas decisões relacionadas ao orçamento, à recuperação financeira do banco público e à execução de novos projetos. Medidas de ajuste fiscal, empréstimos, garantias e eventuais aportes de recursos exigirão justificativas técnicas, transparência e acompanhamento institucional.
A eleição de Celina Leão encerra uma disputa política, mas inaugura uma etapa administrativa marcada por responsabilidades expressivas. O Distrito Federal permanecerá sob o comando de uma coalizão conservadora, articulada com lideranças importantes da direita nacional, enquanto o PT e seus aliados continuarão na oposição ao governo local.
O resultado eleitoral expressa a decisão dos votantes e estabelece a legitimidade do novo mandato. A avaliação de seu desempenho dependerá, porém, da capacidade de enfrentar os problemas concretos da administração distrital, sobretudo aqueles relacionados ao patrimônio público, à transparência das contas e à qualidade dos serviços oferecidos à população.
A vitória garante a Celina Leão mais quatro anos à frente do Palácio do Buriti. A crise do Banco de Brasília, entretanto, permanece como um dos principais desafios de seu governo e como uma questão que exige respostas públicas, independentemente do resultado das urnas.
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