Salvador, São Paulo e cidades de pelo menos nove estados enfrentam denúncias de restrições ao transporte de eleitores em pleno segundo turno presidencial. Fiscalização encontra 544 ônibus parados na capital baiana, Justiça determina prisão de secretário e campanha de Lula pede responsabilização de gestores paulistanos. Guilherme Boulos anuncia pedido de prisão do prefeito Ricardo Nunes. Diante da gravidade da crise, o Supremo prorroga a votação até as 19h em todo o Brasil.
Da Redação
O Brasil enfrenta, neste domingo, 25 de outubro de 2026, uma crise gravíssima em torno de um dos fundamentos da democracia: o direito de votar. Não se trata apenas de Salvador. São Paulo, a maior cidade do país, também está no centro das denúncias, enquanto problemas de transporte são relatados em municípios de pelo menos nove estados. Ônibus ausentes, veículos parados nas garagens, longas esperas e dificuldades para chegar às seções eleitorais colocaram a Justiça Eleitoral diante de uma situação excepcional. As ocorrências documentadas configuram um grave ataque às condições de exercício do voto. A suspeita de uma operação política coordenada para interferir no resultado presidencial exige investigação imediata, embora ainda não esteja comprovada.
Em Salvador, a gravidade dos acontecimentos ultrapassou as denúncias partidárias. O Procon da Bahia atualizou para 544 o número de ônibus encontrados parados em cinco garagens da capital, enquanto eleitores reclamavam da falta de transporte. O Tribunal Regional Eleitoral determinou a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, e exigiu o restabelecimento integral da frota, com multa de R$ 1 milhão por hora de descumprimento. A prefeitura de Bruno Reis, aliado de Flávio Bolsonaro, nega sabotagem e atribui a retenção de parte dos veículos à retirada de propaganda eleitoral irregular. A ordem de prisão foi expedida, mas seu cumprimento ainda não estava confirmado.
Em São Paulo, a situação também exige respostas contundentes. O prefeito Ricardo Nunes, do MDB, enfrenta denúncias de descumprimento de determinação judicial que exigia a circulação de 100% da frota operacional equivalente à dos dias úteis. A campanha de Lula afirma que apenas 60% estavam em operação. Um levantamento divulgado durante a tarde apontou 71,7% da frota municipal total em circulação às 13h20, embora esse indicador não corresponda necessariamente à medição da oferta operacional determinada pela Justiça. Moradores das periferias relataram longas esperas, enquanto a prefeitura atribuiu as dificuldades ao prazo reduzido para reorganizar escalas de trabalhadores e afirmou ter comunicado a ordem judicial às concessionárias.
Guilherme Boulos anunciou que pediria a prisão de Ricardo Nunes e do secretário municipal de Transportes. A campanha petista também solicitou medidas contra dirigentes responsáveis pelo serviço. Nenhuma prisão do prefeito havia sido decretada nas informações verificadas. Se ficar comprovado que autoridades municipais descumpriram deliberadamente decisões judiciais para restringir o voto, a responsabilização deverá alcançar todos os envolvidos, inclusive os ocupantes dos cargos mais elevados da administração.
O problema ultrapassa as duas maiores ocorrências. A coligação de Lula encaminhou ao Tribunal Superior Eleitoral denúncias envolvendo Bahia, São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Roraima, Piauí, Paraíba, Pará e Rio de Janeiro. Os relatos incluem dificuldades no transporte intermunicipal, falta de gratuidade, ônibus que não atenderiam os pontos de embarque e redução de serviços em localidades como Teresina, Petrópolis, São Gonçalo e comunidades da Ilha do Marajó. Em Roraima, a ação relata dificuldades de deslocamento de eleitores indígenas. São denúncias com diferentes graus de comprovação, que não podem ser tratadas indistintamente como crimes já demonstrados.
O quadro se tornou tão grave que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, determinou a prorrogação da votação até as 19h, pelo horário de Brasília, em todo o território nacional. A decisão foi divulgada pouco depois das 17h, diante dos problemas envolvendo o transporte eleitoral e dos pedidos apresentados no contexto da votação. Uma eleição presidencial precisou ter seu horário ampliado em meio a denúncias de que cidadãos estavam encontrando obstáculos para chegar às urnas.
Essa situação não pode ser normalizada. O ônibus que deveria transportar trabalhadores, idosos, estudantes e moradores das periferias não é propriedade política de prefeito algum. O transporte público não pode ser administrado conforme a preferência eleitoral de quem governa. Quando veículos permanecem nas garagens em condições de circular, enquanto cidadãos aguardam nos pontos, as autoridades responsáveis devem prestar contas, cumprir as ordens judiciais e explicar cada decisão operacional.
A desigualdade torna esses obstáculos ainda mais graves. Para quem possui automóvel ou dinheiro para transporte particular, a ausência de uma linha de ônibus pode representar um transtorno. Para quem mora distante da seção eleitoral e depende exclusivamente do transporte coletivo, pode significar a perda do direito de participar da escolha presidencial. A igualdade política não existe plenamente quando as condições materiais de votar são diferentes para cada classe social.
Lula classificou as restrições denunciadas como “banditismo” e “mau-caratismo”. A declaração expressa a gravidade que o presidente atribui às ocorrências. Mas a obrigação das instituições vai além das acusações políticas: é necessário determinar quais gestores descumpriram a lei, quais empresas deixaram de executar os serviços, quantos eleitores foram prejudicados e se existiu alguma coordenação destinada a interferir na votação.
Se o impedimento deliberado do voto for comprovado, estaremos diante de uma violação frontal da soberania popular. Nenhum prefeito, secretário, empresário ou dirigente público possui autoridade para selecionar, por ação ou omissão intencional, quais cidadãos terão condições de participar de uma eleição. A utilização da máquina administrativa para produzir esse resultado, caso demonstrada, exige responsabilização rigorosa, com respeito ao devido processo legal.
O Brasil já conhece as consequências históricas de permitir que estruturas de poder sejam utilizadas contra os direitos políticos da população. A democracia não se protege apenas contando corretamente os votos depositados nas urnas. É indispensável assegurar que todos possam chegar até elas.
Neste domingo, as irregularidades constatadas e as denúncias espalhadas pelo país exigem investigação nacional, transparência absoluta e resposta institucional proporcional à gravidade dos fatos. Não é possível afirmar, sem provas adicionais, que esteja em execução um golpe de Estado coordenado. Mas já existem motivos suficientes para denunciar um quadro gravíssimo de obstáculos ao voto, exigir seu esclarecimento e impedir que permaneça impune qualquer violação comprovada.
A soberania popular não pode ser bloqueada na porta de uma garagem. O voto pertence ao povo brasileiro, não aos governantes que controlam os ônibus.
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