Da Redação
Declarações de Pete Hegseth sobre “fim da guerra” e apelo religioso expõem radicalização ideológica da ofensiva dos EUA contra o Irã.
A mais recente declaração do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, revela não apenas o estágio atual da guerra contra o Irã, mas também o nível de radicalização ideológica que passou a orientar a condução do conflito. Ao afirmar que o fim da guerra estaria próximo e, simultaneamente, convocar orações “de joelhos, em nome de Jesus”, Hegseth ultrapassa o campo da estratégia militar e insere a ofensiva em um registro simbólico-religioso que acende alertas no sistema internacional.
A fala ocorre em um momento de intensificação das operações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o território iraniano. Nas últimas semanas, ataques coordenados atingiram instalações estratégicas, incluindo infraestrutura energética e alvos ligados ao aparato estatal. Paralelamente, o Irã respondeu com mísseis e drones contra bases norte-americanas e alvos israelenses, consolidando um cenário de guerra aberta e de escalada contínua.
O elemento novo introduzido por Hegseth não é apenas a previsão de desfecho do conflito, mas a forma como ele é enquadrado. Ao convocar orações cristãs como parte do discurso oficial, o chefe do Pentágono insere uma dimensão teológica em uma guerra que já é marcada por assimetrias profundas de poder. Esse tipo de retórica não é neutro. Ele transforma uma ofensiva militar em algo próximo de uma cruzada simbólica, reforçando uma narrativa de “missão” que ultrapassa justificativas políticas ou de segurança.
Essa inflexão não surge do nada. Declarações anteriores do próprio Hegseth já indicavam uma postura de escalada total, incluindo a afirmação de que o Irã seria “forçado a se render”, independentemente de sua vontade.
Ou seja, o objetivo estratégico não é contenção, nem negociação, mas imposição de derrota.
Sob a perspectiva do Sul Global, esse tipo de discurso revela uma lógica histórica de dominação que combina poder militar com justificativas morais ou civilizatórias. A invocação religiosa, nesse contexto, funciona como instrumento de legitimação simbólica de uma guerra que, do ponto de vista jurídico internacional, carece de base clara. Não há autorização do Conselho de Segurança da ONU, não há evidência pública de ameaça iminente que justifique autodefesa preventiva e não há consenso internacional que legitime a ofensiva.
Ao mesmo tempo, a afirmação de que o “fim da guerra está próximo” precisa ser lida com cautela. No terreno, o que se observa é o oposto: ampliação do conflito. O Irã mantém capacidade operacional, continua lançando contra-ataques e demonstra resiliência estratégica diante da pressão militar. Bases norte-americanas na região já foram atingidas, evidenciando que a guerra está longe de um desfecho rápido ou controlado.
Esse descompasso entre discurso e realidade revela uma tentativa de controle narrativo. Ao anunciar proximidade de vitória, Washington busca sustentar legitimidade interna e manter apoio político, mesmo diante de um conflito que se torna cada vez mais custoso e imprevisível.
A introdução do elemento religioso agrava ainda mais esse cenário. Ao transformar a guerra em uma espécie de missão moral ou espiritual, o discurso reduz o espaço para negociação e amplia o risco de radicalização. Guerras enquadradas como “justas” ou “sagradas” tendem a se tornar mais longas, mais violentas e mais difíceis de encerrar, justamente porque deixam de ser tratadas como disputas políticas passíveis de solução diplomática.
Do ponto de vista do Sul Global, essa retórica é particularmente preocupante. Ela reforça um padrão histórico em que grandes potências justificam intervenções militares em países periféricos por meio de narrativas civilizatórias, morais ou religiosas. Nesse padrão, o adversário deixa de ser um Estado soberano e passa a ser enquadrado como inimigo absoluto, o que abre espaço para escaladas sem limites claros.
No caso do Irã, a situação é ainda mais delicada. Trata-se de um país com capacidade militar significativa, inserido em uma região altamente instável e com conexões geopolíticas que incluem Rússia, China e diversos atores regionais. A continuidade da guerra, especialmente sob uma lógica de radicalização ideológica, amplia o risco de expansão do conflito para além do Oriente Médio.
Além disso, a própria ideia de “vitória” torna-se ambígua. Mesmo que Estados Unidos e Israel consigam impor danos significativos à infraestrutura iraniana, a capacidade de resistência do país e sua doutrina de guerra assimétrica indicam que o conflito pode se prolongar por tempo indeterminado, com impactos crescentes sobre a economia global, especialmente no mercado de energia.
No limite, a fala de Hegseth não é apenas uma declaração isolada. Ela é um sintoma de uma mudança mais profunda na forma como a guerra está sendo conduzida e justificada. Ao combinar promessa de vitória rápida com apelo religioso, o discurso revela uma tentativa de mobilizar não apenas recursos militares, mas também afetos, crenças e identidades.
E é exatamente aí que reside o maior risco. Quando guerras deixam de ser justificadas por razões concretas e passam a ser sustentadas por narrativas simbólicas e absolutas, elas se tornam mais difíceis de conter, mais difíceis de negociar e muito mais perigosas para o sistema internacional como um todo.


