Durante a abertura da 78ª Reunião Anual da SBPC, Presidente Lula pediu um plano nacional para ampliar os investimentos em pesquisa, defendeu universidades públicas, inclusão social e soberania tecnológica do Brasil
Da Redação
O Presidente Lula participou nesta terça-feira da abertura da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ). O evento reuniu pesquisadores, gestores públicos, representantes de universidades e autoridades para discutir o papel da ciência na construção do desenvolvimento nacional. As informações são da transmissão oficial da Presidência da República no YouTube.
Ao longo de um discurso de mais de 40 minutos, Lula afirmou que o Brasil precisa transformar ciência, tecnologia e inovação em uma política permanente de Estado. O presidente também solicitou à direção da SBPC a elaboração de uma proposta estruturada para ampliar os investimentos no setor ao longo da próxima década.
“Se a gente não investir em ciência, se a gente não investir em pesquisa, esse país nunca será um país decisivo, um país competitivo, um país capaz de dar um salto de qualidade.”
Proposta para um plano nacional de ciência
O principal anúncio político do encontro foi o compromisso assumido por Lula de incorporar ao planejamento federal um programa específico para financiamento da ciência brasileira. O presidente pediu que a comunidade científica apresente um plano com metas, prioridades e formas de financiamento.
Segundo ele, o orçamento tradicional não é suficiente para atender às necessidades da pesquisa científica, o que exigirá novas alternativas de financiamento.
“Você precisa, o mais urgente possível, me entregar o plano que vocês aprovarem de ciência e tecnologia para que isso entre no programa de governo e a gente possa começar a discutir como colocar o dinheiro que é preciso para a ciência no orçamento da União.”
Para Lula, a definição de objetivos claros permitirá que o governo dialogue com o Congresso Nacional em busca de apoio para consolidar uma política de longo prazo.
Universidade pública como instrumento de inclusão
Grande parte da fala do presidente foi dedicada à expansão do ensino superior promovida durante seus governos. Lula recordou a criação de universidades federais, institutos federais, programas como o ProUni e a política de cotas, afirmando que essas iniciativas alteraram profundamente o perfil social das universidades brasileiras.
Segundo ele, durante décadas o acesso ao ensino superior esteve concentrado entre estudantes das classes de maior renda, enquanto jovens oriundos da escola pública enfrentavam dificuldades para ingressar e permanecer na universidade.
“Quem é que imaginava fazer universidade para indígena? Quem é que imaginava fazer universidade para negros? Muito menos para trabalhador.”
O presidente afirmou que democratizar o acesso ao ensino superior continua sendo um dos principais desafios do país.
Comparações históricas
Ao contextualizar o atraso histórico da educação brasileira, Lula lembrou que a primeira universidade da República Dominicana foi criada poucas décadas após a chegada dos europeus ao continente, enquanto a primeira universidade brasileira surgiu apenas em 1920.
Segundo ele, esse intervalo ajuda a explicar parte das dificuldades enfrentadas pelo país para produzir conhecimento científico em escala compatível com seu tamanho econômico e populacional.
Lula também observou que considera contraditório ter sido o presidente que mais criou universidades federais e ampliou vagas no ensino superior, apesar de possuir apenas formação técnica pelo Senai.
“Não pode ser normal que um torneiro mecânico que só tem um diploma primário e um curso do Senai seja o presidente que mais investiu em universidade na história desse país.”
Inteligência artificial e disputa tecnológica
Outro tema recorrente foi a corrida tecnológica internacional. Lula afirmou que o Brasil não deve limitar seu papel à condição de consumidor das tecnologias produzidas pelas grandes potências.
Segundo ele, o país precisa desenvolver soluções próprias em áreas como inteligência artificial, mineração de terras raras, saúde, defesa e indústria de alta tecnologia.
“Nós queremos uma inteligência artificial que atenda os anseios da humanidade a partir do nosso país.”
Para o presidente, competir internacionalmente depende menos de confrontos diplomáticos e mais da capacidade de formar pesquisadores, produzir conhecimento e investir em inovação.
Pesquisa como investimento estratégico
Lula também criticou a baixa participação do setor privado brasileiro no financiamento da pesquisa científica, destacando que a Petrobras continua sendo uma das principais responsáveis pelos investimentos em inovação no país.
Segundo ele, descobertas como o pré-sal somente foram possíveis graças ao investimento contínuo em pesquisa.
“Se não fosse pesquisa, a gente não tinha o pré-sal. Se não fosse pesquisa, a gente não tinha muitas das coisas que hoje nós temos.”
Na avaliação do presidente, ciência e tecnologia devem ser tratadas como investimentos capazes de impulsionar o desenvolvimento econômico e reduzir a dependência tecnológica do Brasil.
Luciana Santos apresenta estratégia nacional
Durante a cerimônia, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, apresentou a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, construída com participação da comunidade científica após a realização da 5ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia.
Segundo a ministra, o documento estabelece quatro grandes eixos estratégicos: fortalecimento do sistema nacional de ciência e tecnologia, inovação voltada à reindustrialização, projetos para soberania nacional e desenvolvimento social por meio da produção científica.
Luciana Santos informou que o governo pretende elevar os investimentos em pesquisa para o equivalente a 2% do Produto Interno Bruto até 2034.
Ela destacou ainda que, desde 2023, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) voltou a operar plenamente, permitindo investimentos que, segundo a ministra, poderão alcançar R$ 80 bilhões.
Ciência como política de Estado
A presidenta da SBPC, Francilene Procópio Garcia, afirmou que a relação entre Lula e a comunidade científica vem sendo construída há décadas e destacou que o conhecimento deve orientar políticas públicas voltadas à saúde, ao meio ambiente, à transição energética e ao desenvolvimento social.
Já o reitor da UFF, Antônio Cláudio Lucas da Nóbrega, ressaltou que a universidade brasileira passou por profunda transformação nas últimas décadas, tornando-se mais diversa socialmente. Segundo ele, atualmente dois terços dos estudantes da instituição pertencem a famílias com renda de até três salários mínimos.
Defesa da vacinação e combate ao negacionismo
Diversos discursos fizeram referência ao papel da ciência durante a pandemia da Covid-19. O prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, criticou o negacionismo e defendeu políticas públicas baseadas em evidências científicas.
“Nós não podemos ter mais à frente do nosso país quem nega a ciência, quem nega a vacina.”
O reitor da UFF também destacou a importância da vacinação como um dos maiores resultados da produção científica.
“Todos nós estamos vivos por causa das vacinas.”
Investimento em ciência como projeto nacional
Ao encerrar sua participação, Lula afirmou que pretende construir um planejamento semelhante para outras áreas consideradas estratégicas, como educação e defesa nacional. Para ele, o fortalecimento da ciência brasileira representa uma condição necessária para garantir soberania, desenvolvimento econômico e maior competitividade internacional.
“Investir em educação não é gasto. Investir em educação é investimento.”






