A cinco dias da eleição brasileira, uma operação militar EUA–Argentina atravessou o país e passou pela região de Gavião Peixoto, um dos centros mais sensíveis da indústria de defesa nacional. O voo era autorizado. O que ele revela, porém, ultrapassa sua rota.
Por Reynaldo Aragon
Não há prova de espionagem, provocação ou interferência eleitoral. Há algo mais profundo. Uma missão militar sustentada logisticamente pelos Estados Unidos atravessou o território brasileiro, passou pelo entorno da linha de produção do Gripen e o fez na semana mais sensível do calendário político nacional. Este artigo reconstrói a rota, as autorizações e a integração dos F-16 argentinos à arquitetura militar norte-americana para mostrar onde realmente está a questão. Não no que aqueles aviões podem ter observado, mas nas relações de dependência, circulação e poder que estão reorganizando o entorno estratégico do Brasil.
A arquitetura militar que avança no entorno do Brasil
Na tarde de 29 de setembro, seis F-16 argentinos cruzaram o interior de São Paulo acompanhados por dois KC-135 da Força Aérea dos Estados Unidos. Tinham saído de Natal e seguiam para Río Cuarto, na etapa final do traslado do segundo lote de caças comprado pela Argentina da Dinamarca. A formação passou por Araraquara e Gavião Peixoto, desceu pelo Paraná e deixou o espaço aéreo brasileiro na direção de Foz do Iguaçu.
Gavião Peixoto concentra uma das capacidades mais sensíveis da defesa brasileira. No complexo da Embraer funciona a única linha de montagem final do Gripen fora da Suécia. Em março, saiu dali o primeiro F-39E produzido no Brasil. Em julho, Saab e Embraer abriram caminho para a produção potencial de outras 20 aeronaves. Até agora, porém, não apareceu evidência pública de órbita, espera ou desvio deliberado da formação sobre a fábrica. A rota entre Natal e o centro da Argentina atravessa naturalmente o interior do continente. A importância do episódio está no que cruzou o país, não numa manobra secreta que ninguém demonstrou.
A operação era conhecida pelo Estado brasileiro antes de aparecer nos radares civis. Aeronaves militares estrangeiras precisam de autorização para entrar no espaço aéreo nacional, e a regulamentação exige rota, finalidade declarada e informações sobre equipamentos bélicos, de comunicação, guerra eletrônica, reconhecimento e vigilância. A Base Aérea de Natal já havia sido habilitada, a pedido do Comando da Aeronáutica, para receber aeronaves estrangeiras naquele período. O despacho específico do voo ainda não estava disponível no boletim ostensivo quando este artigo foi concluído.
O voo ocorreu cinco dias antes do primeiro turno. A proximidade, por si só, não estabelece vínculo com a eleição. Ela situa a operação no tempo. Na semana em que o Brasil escolherá seu próximo governo, caças argentinos integrados a uma cadeia militar norte-americana passaram por um dos principais centros da indústria de defesa brasileira.
A arquitetura militar que avança no entorno do Brasil
Os F-16 pertencem à Argentina, mas boa parte do sistema que lhes dá capacidade de combate vem dos Estados Unidos. Buenos Aires pagou cerca de US$ 301 milhões por 24 aeronaves usadas da Dinamarca. Washington aprovou depois um pacote de até US$ 941 milhões com mísseis AMRAAM, bombas guiadas, rádios, dispositivos criptográficos, equipamentos para Link-16, suporte a bancos de dados de guerra eletrônica, software, treinamento, engenharia, assistência logística e reabastecimento aéreo. O preço dos aviões era apenas uma parte do negócio. A sustentação do poder de combate vinha depois.
Em janeiro, militares argentinos foram aos Estados Unidos para trabalhar com a Air Forces Southern no programa Peace Condor. A AFSOUTH definiu a relação como mentoria para montar a estrutura de operação e sustentação do F-16. Pilotos foram treinados segundo padrões americanos, instrutores vinculados ao Foreign Military Sales atuaram na formação e, em março, representantes argentinos, da agência americana de vendas militares e do Comando Sul revisaram logística, suporte técnico e interoperabilidade. Em agosto, entraram na pauta redes táticas e Link-16, usado por forças americanas e aliadas para compartilhar dados operacionais. Os KC-135 sobre o Brasil deram forma concreta a essa dependência. O traslado só foi possível, naquela escala e com aquela simplicidade operacional, porque havia uma infraestrutura americana de apoio por trás dele.
Sete dias antes, Donald Trump reuniu em Nova York líderes latino-americanos e caribenhos ligados ao Escudo das Américas, coalizão de segurança criada sob liderança dos Estados Unidos. Javier Milei participou. Brasil e México ficaram de fora. Trump prometeu empregar poder militar americano contra cartéis classificados por seu governo como organizações terroristas. Sanções, inteligência, cooperação policial e meios militares passam a ocupar o mesmo desenho regional. A Argentina de Milei entrou por essa porta, e a aproximação rapidamente avançou para outras áreas.
A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos ajuda a entender esse movimento. O documento fala em preservar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, fortalecer cadeias críticas regionais, ampliar vendas de armas, inteligência e exercícios conjuntos e desencorajar vínculos estratégicos de países latino-americanos com competidores extrarregionais. Portos, infraestrutura e recursos aparecem como ativos centrais. O Escudo das Américas se encaixa nessa orientação.
O Brasil está no centro dessa disputa por razões materiais. Em março, autoridades americanas, empresas e instituições financeiras participaram em São Paulo de um fórum sobre a integração de minerais críticos brasileiros às cadeias estratégicas dos Estados Unidos. Em setembro, o U.S.-Brazil Business Council voltou a apresentar o país como alternativa hemisférica para nióbio, grafite, terras raras e níquel. A lista brasileira vai além da mineração. Inclui Embraer, energia, Amazônia, Atlântico Sul e uma relação comercial profunda com a China. Para Washington, esses ativos têm peso econômico e militar. Para Brasília, a questão é quanto controle o país conserva ao negociá-los.
Em fevereiro, Buenos Aires assinou com Washington um acordo para minerais críticos. Em 23 de setembro, seis dias antes do sobrevoo, o EXIM Bank dos Estados Unidos anunciou até US$ 7 bilhões para projetos argentinos em minerais, energia, redes elétricas, conectividade digital, sistemas seguros, espaço e tecnologias avançadas. Em abril, Milei e Benjamin Netanyahu lançaram os Acordos de Isaac, apresentados como uma estrutura de aproximação entre Argentina, Israel e parceiros alinhados no Hemisfério Ocidental em segurança, contraterrorismo, tecnologia, inovação, comércio e coordenação internacional. O documento cita os Acordos de Abraão de Trump como inspiração.
No próprio 29 de setembro, a Suprema Corte argentina derrubou a decisão que bloqueava a revogação da Lei de Terras. A Corte não julgou constitucional o decreto de Milei. Entendeu que a entidade autora da ação não tinha legitimidade. Na prática, voltaram a cair os limites federais que restringiam a propriedade rural estrangeira. A decisão se soma ao regime de grandes investimentos, à abertura de setores estratégicos, à mineração, à inteligência artificial e à infraestrutura digital reunidos pelo governo Milei sob uma política agressiva de atração de capital e tecnologia externos.
A rota dos F-16 não nasceu desses acordos, mas os caças chegam a uma Argentina já reorganizada por eles. O laboratório tecnolibertário de Milei combina desregulação, grandes capitais, infraestrutura digital, minerais, segurança e defesa numa mesma orientação externa. Washington fornece parte da arquitetura militar e financeira. Israel entra pela tecnologia, pela segurança e pela coordenação política. O governo argentino chama esse movimento de alinhamento com o Ocidente. O resultado concreto é uma parcela crescente de capacidades estratégicas presa a redes externas de financiamento, armamento, inteligência e tecnologia.
O Brasil tem outra escala e outra base material. Gavião Peixoto concentra parte dessa diferença. O Gripen também depende de uma cadeia internacional, mas o programa brasileiro internalizou engenharia, montagem, testes, manutenção, produção de aeroestruturas e conhecimento. Somem-se Embraer, uma base industrial de defesa, reservas minerais, infraestrutura energética, Amazônia, presença no Atlântico Sul e relações econômicas profundas com Estados Unidos, Europa, China e o Sul Global. A política externa brasileira opera sobre ativos cobiçados por todos esses centros de poder.
Em 4 de outubro, o eleitorado escolherá quem conduzirá essa posição. O programa de Lula registrado no TSE reúne integração sul-americana, Mercosul, BRICS, relações com África, Ásia, Oriente Médio e Sul Global, defesa nacional e fortalecimento da base industrial de defesa. Em setembro, Lula sancionou uma política para minerais críticos que amplia instrumentos estatais de proteção de informações e ativos estratégicos. Seu governo também negocia comércio e minerais com Washington. A lógica é ampliar parceiros e preservar espaço de negociação entre polos concorrentes, sem romper com os Estados Unidos nem se subordinar a um único eixo.
Flávio Bolsonaro oferece outra direção. Seu programa defende abertura comercial, adesão à OCDE e maior participação nas cadeias globais de valor. Fora do documento, apoiou a entrada do Brasil no Escudo das Américas, admitiu rever a participação no BRICS, propôs parceria estratégica com Washington para minerais críticos e anunciou a intenção de transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. Em maio, foi recebido por Trump no Salão Oval e, no dia seguinte, reuniu-se com JD Vance e Marco Rubio. Segurança, comércio e terras raras estiveram nas conversas.
Uma carta enviada por Flávio a Rubio levou essa aproximação para dentro da própria transição de governo. O senador escreveu que, se eleito, colocaria imediatamente sua equipe à disposição da administração americana para acelerar um amplo acordo de comércio e investimentos. O gesto ocorre antes da posse e diante de uma potência com interesses diretos em minerais, infraestrutura, tecnologia e segurança no Brasil. Em julho, Milei foi a São Paulo apoiar sua candidatura. Netanyahu enviou uma mensagem à convenção. Trump também declarou apoio público. A candidatura passou a ocupar um lugar reconhecível dentro dessa rede internacional.
Lula aposta em arranjos multipolares, base industrial própria e negociação com diferentes centros de poder. Flávio quer aproximar o Brasil das estruturas políticas, econômicas e de segurança lideradas pelos Estados Unidos e estreitar o vínculo com Israel. Num país que concentra minerais, defesa, tecnologia, dados e infraestrutura estratégica, essa diferença alcança diretamente a margem de decisão do Estado.
A Argentina oferece uma referência concreta do que essa mudança pode produzir. Em poucos meses, contratos militares, programas de treinamento, financiamento, segurança, tecnologia e mudanças regulatórias passaram a convergir na mesma direção. Os F-16 são uma das peças mais visíveis desse processo. O traslado pelo Brasil, com apoio de aviões-tanque americanos, mostrou que essa rede já tinha alcance operacional regional.
O sobrevoo de 29 de setembro não prova uma operação contra o Brasil. Ele ocorreu dentro de uma reorganização regional que combina poder militar, capital, tecnologia e alianças políticas. Cinco dias depois, o eleitorado brasileiro escolherá quem conduzirá a política externa e de defesa diante desse ambiente. A rota dos aviões foi autorizada pelo Brasil. A orientação do país diante dessa arquitetura dependerá das escolhas feitas nas urnas.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>

