Candidato ao Governo do Estado tenta separar a disputa estadual da eleição presidencial, enquanto lideranças bolsonaristas defendem sua candidatura e organizam palanque para Flávio
Da Redação
Ciro Gomes, candidato do PSDB ao Governo do Ceará, afirmou que não se sente constrangido com a presença de Flávio Bolsonaro na aliança que sustenta sua candidatura no estado. A declaração ocorreu nesta quarta-feira (16), durante uma caminhada no bairro Pirambu, em Fortaleza, no mesmo dia em que o candidato do PL à Presidência visitou Juazeiro do Norte e afirmou querer “libertar o Ceará” de um governo ligado ao PT.
A fala evidencia a proximidade política entre Ciro e o grupo bolsonarista, ainda que o candidato tucano tente apresentar sua candidatura como independente da disputa presidencial. O PL, partido de Flávio e de Jair Bolsonaro, integra formalmente a coligação de Ciro no Ceará. Além disso, lideranças da legenda defendem simultaneamente Flávio para presidente e Ciro para governador.
Flávio fala em “libertar o Ceará”
Durante agenda em Juazeiro do Norte, Flávio Bolsonaro criticou o governo Elmano de Freitas e afirmou que o Ceará não avançaria enquanto estivesse sob uma gestão ligada ao PT. O candidato também associou o governo estadual à atuação de facções criminosas e prometeu fazer uma parceria com o próximo governador.
“Vamos libertar o Ceará e libertar o Brasil”, declarou Flávio, sem citar diretamente Ciro Gomes.
Apesar da ausência do nome do candidato tucano, o contexto político é conhecido. O PL integra a aliança estadual de Ciro e participa da organização de sua campanha no Ceará. A legenda, entretanto, mantém Flávio como candidato à Presidência e pretende construir um palanque próprio para ele no estado.
Ciro afirma que não se sente constrangido
Questionado sobre sua ausência nos eventos de Flávio, Ciro afirmou que não havia motivo para constrangimento. Segundo ele, o Ceará é um estado democrático e todos os candidatos devem ser recebidos.
“Nós estamos numa democracia, esse Estado aqui é libertário, gosta de receber todo mundo, as pessoas têm que respeitar”, declarou.
Ciro também defendeu a separação entre as eleições estadual e nacional. Na prática, sua posição permite que ele dispute o Governo do Ceará com o apoio do PL, mas evite declarar apoio à candidatura presidencial de Flávio.
A estratégia, porém, não elimina a conexão entre os dois projetos. O partido que sustenta a candidatura de Ciro no estado é o mesmo que lançou Flávio à Presidência e que mantém Jair Bolsonaro como principal liderança nacional.
A aliança foi construída entre dirigentes
A aproximação entre Ciro e o PL não é apenas uma circunstância da campanha. Ela foi construída por meio de articulações entre dirigentes partidários e lideranças estaduais.
O deputado estadual Alcides Fernandes, candidato ao Senado pelo PL, declarou que será responsável pela organização do palanque de Flávio Bolsonaro no Ceará. Ao mesmo tempo, defendeu Ciro Gomes para o Governo do Estado.
A divisão é clara: o PL apoia Ciro na eleição estadual, enquanto organiza a candidatura de Flávio na disputa presidencial. Ciro, por sua vez, recebe o apoio da legenda sem assumir publicamente uma posição de alinhamento com o candidato do partido à Presidência.
Esse arranjo permite que os grupos atuem juntos no Ceará, mesmo tentando preservar discursos diferentes sobre a eleição nacional.
Ciro tenta se apresentar como alternativa à polarização
Ciro tem afirmado que não pretende apoiar nem Lula nem Flávio Bolsonaro na disputa presidencial. A declaração faz parte de sua tentativa de se apresentar como uma alternativa à polarização entre os dois grupos.
O problema é que a composição partidária de sua candidatura produz uma conexão direta com o campo bolsonarista. Além do PL, a aliança reúne setores do União Brasil e outros grupos da oposição que já estiveram associados à candidatura de Capitão Wagner em 2022.
A candidatura de Ciro, portanto, combina um discurso de independência nacional com uma aliança estadual que inclui o partido de Flávio Bolsonaro. A diferença entre o discurso e a composição é um dos pontos centrais da atual campanha.
A semelhança com Capitão Wagner em 2022
A postura de Ciro lembra a estratégia adotada por Capitão Wagner na eleição para o Governo do Ceará em 2022. Naquele ano, Wagner recebeu apoio de Jair Bolsonaro, mas evitava apresentar sua campanha como exclusivamente bolsonarista.
O então candidato dizia defender um palanque amplo e afirmava que sua coligação reunia partidos e eleitores de diferentes correntes. Com isso, procurava manter o apoio de Bolsonaro sem afastar setores que não se identificavam com o ex-presidente.
A situação atual tem semelhanças. Ciro recebe o apoio do PL, mas tenta separar sua imagem estadual da candidatura presidencial de Flávio. A diferença é que, em 2026, Flávio não é apenas um apoiador externo: ele é o candidato à Presidência do próprio partido que integra a chapa de Ciro.
Em 2022, Wagner evitava assumir publicamente uma associação integral com Bolsonaro. Agora, Ciro afirma não se constranger com Flávio, embora mantenha o PL como parte fundamental de sua aliança eleitoral.
TRE-CE analisou associação entre Ciro e Flávio
A relação entre os dois grupos também chegou à Justiça Eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral do Ceará analisou uma publicação que apresentava Ciro como “o candidato de Flávio Bolsonaro no Ceará”.
A decisão judicial distinguiu duas questões. A existência de uma aliança estadual com o PL é um fato verificável, mas isso não significa automaticamente que Ciro tenha declarado apoio à candidatura presidencial de Flávio.
A diferença é importante para o debate eleitoral. A conexão partidária está documentada, mas uma declaração formal de voto ou apoio presidencial exige manifestação específica do candidato.
Aliança estadual e disputa nacional
A campanha de Ciro opera, portanto, em dois níveis. No Ceará, ele conta com o apoio do PL e de lideranças ligadas ao bolsonarismo. Na eleição presidencial, tenta manter distância tanto de Lula quanto de Flávio.
Flávio, por sua vez, utiliza sua agenda no estado para atacar o governo Elmano e defender uma mudança política no Ceará. Embora não tenha citado Ciro nominalmente, sua fala ocorre dentro de uma aliança que beneficia diretamente o candidato tucano ao governo.
O cenário mostra uma divisão de tarefas entre os grupos. Ciro busca votos para a disputa estadual, enquanto o PL organiza a campanha de Flávio para a Presidência. A conexão entre os dois projetos não depende de uma declaração conjunta de apoio, pois está expressa na composição partidária, nas articulações de dirigentes e nas declarações de lideranças do próprio PL.


