Ciro Gomes terminou o primeiro turno da eleição para o Governo do Ceará sem discurso de derrota, sem pronunciamento público e sem reconhecimento da vitória de Elmano de Freitas. O silêncio permanece nesta segunda-feira (5), depois de uma campanha na qual o tucano chegou a aparecer à frente nas pesquisas, mas acabou derrotado por 53,19% a 46,22%. Segundo O POVO, Ciro e os demais integrantes da chapa decidiram acompanhar a apuração separadamente e só se manifestariam caso houvesse possibilidade de segundo turno. Confirmada a vitória de Elmano, prevaleceu o silêncio.

A ausência de Ciro também recoloca uma promessa que já apareceu em derrotas anteriores: a de deixar a política. Em 2022, depois de seu pior resultado em uma eleição presidencial, ele afirmou que aquela seria sua última disputa e que não pretendia mais concorrer a cargo público caso não fosse eleito. “Se eu não for eleito, chega para mim”, disse então. Quatro anos depois, voltou ao jogo eleitoral, desta vez para tentar recuperar o Governo do Ceará, cargo que ocupou entre 1991 e 1994.
A trajetória posterior ao governo cearense ajuda a explicar o paradoxo. Ciro acumulou cargos de ministro da Fazenda, ministro da Integração Nacional, deputado federal e secretário de Saúde do Ceará, mas sua última vitória para um cargo eletivo ocorreu em 2006, quando foi eleito deputado federal. Desde então, não voltou a vencer uma eleição. A Presidência foi uma sequência de derrotas em 1998, 2002, 2018 e 2022, e agora veio a derrota para Elmano.
O contraste com Elmano também se tornou politicamente significativo. Durante a campanha, Ciro manteve uma postura de confronto permanente, enquanto o governador construiu uma imagem pública mais controlada, com uma comunicação menos dependente da agressividade verbal. Elmano chegou à reta final depois de uma arrancada eleitoral e terminou o pleito com mais de 375 mil votos de vantagem. O resultado consolidou a quarta vitória consecutiva do PT para o Governo do Ceará.
A estratégia de ataque adotada por Ciro também deixou um passivo judicial. Em 2026, a Justiça Eleitoral o condenou por violência política de gênero contra Janaína Farias, depois de declarações feitas contra a então senadora e atual prefeita de Crateús. Ciro a chamou de “cortesã” e “assessora para assuntos de cama” de Camilo Santana. A pena foi substituída pelo pagamento de valores destinados à própria Janaína e a entidades cearenses de proteção às mulheres, e a defesa anunciou recurso.
As ofensivas contra Camilo e seus aliados se tornaram recorrentes e ultrapassaram a disputa política convencional. Em 2025, Ciro voltou a fazer acusações de teor sexual contra Camilo Santana e Janaína Farias, mesmo depois de decisões judiciais relacionadas às declarações anteriores. A Justiça chegou a proibi-lo de fazer novas menções injuriosas ou difamatórias contra a prefeita.
O resultado de 2026 acrescenta outro elemento ao desgaste de sua imagem. Para disputar o governo, Ciro abandonou a antiga posição de oposição simultânea à esquerda e à direita e recebeu o apoio formal do PL no Ceará, partido ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A aliança foi celebrada pelo próprio Ciro, que afirmou estar “profundamente honrado” com o apoio da legenda. A aproximação provocou inclusive resistência de Michelle Bolsonaro, que questionou a aliança por causa das críticas que Ciro havia feito ao ex-presidente no passado.
Essa aproximação com o campo bolsonarista passou a integrar a imagem pública de Ciro no Ceará. A derrota para Elmano, nesse contexto, deixa Ciro diante de uma questão que vai além de mais uma eleição perdida: o político que durante décadas reivindicou uma posição própria no centro do debate nacional terminou sua campanha estadual apoiado por uma parcela importante da direita que antes combatia.
Paris pode esperar?
Se Ciro decidir novamente se afastar da política depois da derrota, Paris continua sendo uma possibilidade conhecida. Em 2018, depois de perder a eleição presidencial no primeiro turno, ele embarcou para a Europa um dia após o PDT anunciar seu “apoio crítico” a Fernando Haddad. A assessoria informou na ocasião que Ciro iria descansar e cuidar da saúde, e Paris era apontada como o destino. Ele retornou a Fortaleza em 26 de outubro, dois dias antes do segundo turno.
Em 2026, a viagem seria mais simples de organizar. A rota Fortaleza Paris tem quatro voos diretos semanais da Air France, às terças, quintas, sextas e domingos, com duração de aproximadamente 8 horas e 35 minutos. Também existem alternativas com conexão operadas por TAP, Iberia e LATAM. Para esta semana, as opções diretas estão disponíveis nos dias 6, 8, 9 e 11 de outubro.
Se a preocupação for econômica, entretanto, outubro não é o melhor momento para comprar uma passagem de última hora. Segundo o levantamento atual do Google Flights, março costuma ser o mês mais barato na rota Fortaleza Paris, enquanto julho é o mais caro. Para quem não precisa embarcar imediatamente, esperar pode representar uma diferença relevante no preço.
A questão é que Ciro já demonstrou que suas despedidas da política podem durar pouco. Em 2022, anunciou que não disputaria mais cargos públicos. Em 2026, voltou a disputar o governo estadual. Agora, depois de uma nova derrota e diante de um silêncio que contrasta com a intensidade de sua campanha, resta saber se esta será finalmente a retirada anunciada tantas vezes ou apenas mais um intervalo antes de uma próxima candidatura.


