Da Redação
Relatório financeiro transcrito em decisão de Flávio Dino registra R$ 1,7 milhão em entradas e igual valor em saídas nas contas da parlamentar entre maio de 2025 e maio de 2026. Bia também aparece por transferência de R$ 500 feita por Mario Frias e por emenda de R$ 150 mil destinada à entidade investigada. Documento ressalta, porém, que a deputada não era o foco do intercâmbio de informações financeiras.
A deputada federal e candidata ao Senado pelo Distrito Federal Bia Kicis (PL-DF) aparece em um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) incorporado à decisão do ministro Flávio Dino que autorizou a Operação Make Up, deflagrada nesta quinta-feira, 10 de setembro. Segundo o documento reproduzido na decisão, as contas da parlamentar registraram R$ 3,4 milhões em transações classificadas como atípicas no intervalo de um ano, entre maio de 2025 e maio de 2026: aproximadamente R$ 1,7 milhão em créditos e outros R$ 1,7 milhão em débitos.
O dado é relevante, mas precisa ser interpretado com precisão. Uma comunicação de operação atípica do Coaf não significa que o dinheiro seja ilícito, não constitui acusação criminal e tampouco comprova lavagem de dinheiro. O sistema de inteligência financeira identifica operações que se afastam de determinados parâmetros ou apresentam características que justificam comunicação e análise. Cabe às autoridades, quando houver fundamento jurídico, investigar a origem, o destino e a justificativa econômica dos recursos. No caso de Bia Kicis, a própria decisão registra um elemento particularmente importante: a deputada não era o foco central do intercâmbio de informações financeiras que originou esse trecho da investigação.
O nome da parlamentar apareceu no material por uma conexão aparentemente pequena, mas documentalmente relevante para o rastreamento financeiro: uma transferência de R$ 500 realizada pelo deputado Mario Frias (PL-SP). Frias está entre os alvos da Operação Make Up, que investiga suspeitas envolvendo recursos públicos destinados a organizações da sociedade civil e empresas subcontratadas. Foi a partir desse registro que a movimentação de Kicis entrou no conjunto de informações analisadas.
Há uma segunda conexão. Bia Kicis havia indicado uma emenda parlamentar de R$ 150 mil para a Academia Nacional de Cultura (ANC), entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, produtora relacionada ao projeto cinematográfico Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Segundo os dados registrados na decisão de Dino, entretanto, essa emenda não chegou a ter execução financeira. Ou seja: a indicação existiu, mas os R$ 150 mil não foram efetivamente transferidos à entidade. Esse ponto impede que a mera existência da emenda seja apresentada como prova de financiamento da ANC ou do filme pela parlamentar.
É justamente a ANC que coloca essas informações dentro de uma investigação maior. A Operação Make Up procura esclarecer a destinação de recursos públicos repassados a entidades do terceiro setor e suspeitas de que parte deles possa ter circulado posteriormente por empresas privadas sem comprovação adequada dos serviços contratados. Karina Gama está entre os principais alvos da investigação e também aparece em outras apurações envolvendo estruturas empresariais relacionadas a Dark Horse.
O aparecimento de Bia Kicis acrescenta, portanto, uma nova ramificação documental ao caso, mas não autoriza colocá-la na mesma situação jurídica de Mario Frias ou Karina Gama. Até as informações públicas disponíveis nesta tarde, o documento citado pelo Brasil 247 não diz que Kicis seja alvo da Operação Make Up nem que os R$ 3,4 milhões tenham relação demonstrada com Dark Horse. O que existe são três elementos distintos: o relatório do Coaf sobre suas movimentações, a transferência de R$ 500 proveniente de Frias e a indicação da emenda de R$ 150 mil para a ANC que não foi executada.
Essa separação é decisiva porque o número de R$ 3,4 milhões pode produzir uma impressão diferente daquela contida no próprio documento. O valor corresponde à soma do fluxo de entrada e saída — R$ 1,7 milhão de cada lado — e não necessariamente a R$ 3,4 milhões de patrimônio, renda ou dinheiro disponível. Também não há, na reportagem consultada, demonstração de que os R$ 1,7 milhão que entraram nas contas tenham posteriormente saído para os mesmos destinatários, nem explicação detalhada sobre a natureza de cada operação.
Há ainda uma referência econômica útil para dimensionar o dado. O Brasil 247 registra que Bia recebe atualmente R$ 46.366,19 mensais como deputada federal. Para as eleições deste ano, a candidata declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de aproximadamente R$ 1,33 milhão, segundo registros públicos de sua candidatura. Dados eleitorais disponíveis também mostram que o PL destinou cerca de R$ 2,048 milhões à sua campanha para o Senado. Esse último valor, contudo, pertence ao financiamento eleitoral de 2026 e não deve ser confundido com as movimentações apontadas pelo Coaf, cujo período informado termina em maio.
É justamente a cronologia que impede uma associação precipitada entre esses números. O relatório citado cobre maio de 2025 a maio de 2026, enquanto os mais de R$ 2 milhões transferidos pelo PL para a campanha aparecem nos registros eleitorais posteriores, no fim de agosto. Portanto, com as informações atualmente disponíveis, o financiamento eleitoral não explica — nem integra automaticamente — os R$ 3,4 milhões mencionados pelo Coaf.
A questão que permanece aberta é outra: qual a origem e a natureza dos R$ 1,7 milhão creditados e dos R$ 1,7 milhão debitados durante aqueles doze meses?
A reportagem que revelou o documento não apresenta o detalhamento das operações, seus remetentes, beneficiários, datas individualizadas ou os critérios específicos que levaram o Coaf a classificá-las como atípicas. Sem essas informações, seria incorreto afirmar que os valores representam dinheiro ilícito ou que fazem parte do suposto esquema investigado pela Operação Make Up.
O caso também oferece um contraste que merece registro. Bia Kicis participa da CPMI do INSS e, em depoimentos recentes, utilizou relatórios do próprio Coaf para questionar movimentações financeiras de investigados. Em sessão oficial do Senado, por exemplo, a parlamentar citou comunicações do órgão ao interrogar o advogado Nelson Wilians sobre aproximadamente R$ 28,1 milhões em transações envolvendo Maurício Camisotti. A existência de uma comunicação do Coaf relacionada à própria parlamentar não permite equiparar situações distintas, mas reforça a importância de aplicar o mesmo critério jurídico a qualquer pessoa mencionada nesses relatórios: movimentação atípica é sinal para análise, não sentença de culpabilidade.
A dimensão eleitoral torna esse cuidado ainda mais necessário. Kicis disputa uma das vagas do Distrito Federal ao Senado em 2026. Dados públicos mostram que sua campanha recebeu pouco mais de R$ 2 milhões do PL, e pesquisas recentes a colocam na disputa pelas duas cadeiras do DF. A divulgação de informações financeiras durante uma campanha eleitoral pode ter repercussões políticas imediatas, mas isso não modifica o padrão de prova exigido para estabelecer eventual irregularidade.
O ponto jornalisticamente mais importante, portanto, não está em transformar os R$ 3,4 milhões numa acusação pronta. Está em acompanhar se o relatório financeiro produzirá novos atos de investigação.
Se as autoridades considerarem necessário aprofundar esse segmento, poderão buscar documentos capazes de identificar a origem dos créditos, os destinatários dos débitos e a justificativa econômica das operações. Só então será possível determinar se as movimentações possuem explicações regulares ou se existe alguma conexão com os fatos investigados.
Por enquanto, o quadro documental é mais limitado — e precisamente por isso precisa ser apresentado sem atalhos: o Coaf registrou R$ 3,4 milhões em movimentações consideradas atípicas nas contas de Bia Kicis entre maio de 2025 e maio de 2026; seu nome apareceu no material também por uma transferência de R$ 500 feita por Mario Frias; e ela havia indicado R$ 150 mil em emenda para a ANC, mas o dinheiro não chegou a ser repassado. A própria decisão registra que Kicis não era o foco central daquele intercâmbio de informações.
A partir daqui, a pergunta que precisa ser respondida por documentos — e não por inferências políticas — é simples: o que explica os R$ 1,7 milhão que entraram e os R$ 1,7 milhão que saíram das contas da parlamentar naquele período?





